Sobre Diário da guerra do porco, de Adolfo Bioy Casares

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Subitamente me vejo em uma espécie de férias forçadas e o que resta é ler. Três pilhas se acumulam em minha escrivaninha. Uma se chama “comprovação de currículo”. A segunda, “os livros sobre os quais escrever”. A terceira, “livros para ler após terminar o trabalho”. Diário da guerra do porco, de Adolfo Bioy Casares, não estava em nenhuma dessas três citadas. No entanto, desde que comprei o romance, há cinco anos, flerto com a possibilidade de finalmente ler mais um livro de um dos meus escritores favoritos. Bioy convive com duas sombras: uma delas é a longa e frutífera amizade com Jorge Luis Borges; a outra, a sombra do seu primeiro livro relevante, a genial ficção científica A invenção de Morel,  publicada quando Casares tinha 26 anos de idade.

Diário da guerra do porco (publicado originalmente em 1969) é um afastamento, contudo, não só da literatura que Borges escrevia, mas do Bioy Casares de A invenção de Morel e do seu livro seguinte, o irregular Plan de evasión. Na Buenos Aires dos anos 40, acompanhamos a vida cotidiana de Isidoro Vidal, um senhor com quase 60 anos, e seus colegas sessentões. Vidal vive com dificuldades em um cortiço. O valor da sua aposentadoria é pequeno e a idade passa a lhe pesar. Seus dentes já não são os mesmos, por exemplo, e o seu dentista acaba arrancando-os e os trocando por uma dentadura (que se estiver muito solta, explica um dos seus amigos que já utilizava uma, começa a feder); a atenção das mulheres e a vontade para o sexo não são mais os mesmos. Um dos seus amigos, chamado Dante, em certo ponto se pergunta: “Para onde terá ido aquele tempo em que as mulheres nos procuravam?”.

O drama do envelhecimento também parece ser o da experiência. De que adiantam o tempo e a vivência acumulados? Vidal se sente à margem: “se alguém vive bastante, os fatos de sua vida, como os de um sonho, tornam-se incomunicáveis, porque não interessam a ninguém. As mesmas pessoas, depois de mortas, passam a ser personagens de um sonho para quem sobrevive a elas”. Os temas da decadência corporal e do apagamento dos vestígios da nossa passagem pelo planeta, que aparecem em romances contemporâneos como Homem comum, de Philip Roth, ou Austerlitz, de W.G. Sebald, desempenham importante papel na narrativa de Diário da guerra do porco. Os dramas de Vidal são apresentados sempre com um tom irônico, os olhares e ouvidos atentos aos personagens, cenários e modos de falar dos tipos suburbanos da Buenos Aires dos anos 40.

À medida que a trama se desenvolve, a reflexão sobre as marcas do tempo e o lugar social dos idosos adquire uma reverberação paralela e da ordem da literatura fantástica, pois de uma hora para outra os jovens do país passam a perseguir e assassinar os velhos. Creio que esse é um dos charmes do romance: em essência, trata-se de uma crônica ubana, uma comédia de costumes, mas um outro laço passa a dar voltas em torno do enredo e dos seus personagens até envolvê-los, sem escapatória, numa sufocante espiral de violência. Aos poucos, Vidal e seus amigos se cercam de inimigos. Primeiro nas entrelinhas, depois nos acontecimentos do pano de fundo e por fim diretamente em situações de confronto. Olhares enviesados, agressões verbais, sequestros, linchamentos, ataques nas ruas, perseguições: Vidal e seus amigos começam a viver um constante clima de tensão. Se antes, a cidade lhes era compreensível, agora ela é um local de ameaça, no qual cada esquina pode esconder um perigo em potencial. Grande força reside no contraste entre a situação absurda – ou, seria melhor dizer, semiabsurda – da crescente perseguição e morte dos idosos e sua relação de tensão com a dominante faceta costumbrista dos livros. Bioy Casares usa uma técnica boa: apesar do narrador estar na terceira pessoa, o conhecimento que possui do mundo está restrito à vida cotidiana de Vidal. E no caso da perseguição aos mais velhos, a tensão crescente se realiza devido ao fato de que o protagonista do romance é um dos últimos a perceber o que realmente está acontecendo.

Os jovens chamam os idosos de “porcos”, conferindo a eles um status obsceno, morto-vivo e indigno. Daí se justificariam, na visão da juventude perseguidora, sua miséria, exclusão e assassinato. Diário da guerra do porco, nesse sentido, não é somente uma denúncia do desprezo da sociedade pelos mais velhos. Trazendo o romance para a realidade brasileira recente, o “porco” pode ser também a imigração haitiana no norte do país, ou boliviana em São Paulo, ou o nordestino no caso do surto de xenofobia coletiva que tomou conta de muitas pessoas após o resultado das eleições (alimentado, nesse caso específico, pelo colunismo vira-lata da vertente Mainardi-Constantino e pela retórica de enfrentamento entre PT e PSDB). Volto então ao começo desse texto e agora explico o que me impeliu a retirar finalmente Diário da guerra do porco da estante: eu precisava de uma narrativa que me trouxesse não uma consolação, mas pelo contrário a vivência de um horror. E poucas vezes alguém fez isso de maneira tão elegante quanto Bioy. Nesse sentido, é muito bom que o terror em Diário da guerra do porco não tenha uma “explicação”, porque acentua o absurdo da aposta irrestrita na violência.

Em determinado momento, aliás, Diário da guerra do porco afirma: “A amizade era indiferente; o amor, baixo e desleal – só o ódio se dava com plenitude”. É um exagero, é claro, que se justifica em um contexto específico do enredo no qual essa frase é proferida, mas não me parece ausente daí a lição de que nossas sociedades vivem, volta e meia, ciclos de apaixonado ódio. No entanto, é o próprio Diário da guerra do porco quem nos revela o quanto a vida comporta também outras facetas: é tocante a celebração da amizade, mas sem idealizações e com muitos conflitos, entre os personagens idosos do livro, assim como o potencial de renovação da vida que o amor de Nélida acaba oferecendo para Isidoro Vidal. E quando o romance parece marcado por alguma misoginia (presente em alguns textos de Bioy), ou aparenta ser uma resposta reativa aos jovens e às ruínas do tempo, outras vozes e fatos tornam tornam tudo nuançado e positivamente ambiguo.

E no fim, quando o romance se encerra com esperança e luto (travou-se uma guerra, afinal de contas), para além da crônica de costumes, da crítica à violência e das alegorias políticas, temos uma atenção à inevitável condição solitária de cada ser humano. “Por algum tempo o homem é livre para fazer o que lhe apraz”, Vidal reflete nas últimas páginas de Diário da guerra do porco, “mas quando está passando dos limites que vida lhe impõe, de nada vale afirmar que vai ser feliz porque tem a sorte de ser amado”. Não há aqui nenhum pessimismo esmagando a vontade de viver: continua-se a caminhar, a beber vinho, a jogar com os amigos e a amar. Mas é muito significativo o quanto, no final de tudo, seja solitária e noturna a caminhada final do protagonista de Diário da guerra do porco.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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