Diario de Pernambuco – Viver – 24.12.2007

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Diario de Pernambuco – Viver – 24.12.2007

Literatura oculta seus paradoxos
Rafael Dias

Lógica do mercado domina cadeia produtiva do livro e ,mesmo com incentivos governamentais e iniciativas de várias envergaduras, setor sofre com baixo consumo

Para muitos, pode não ser novidade, mas é algo que se tornou ainda mais latente neste ano: o mercado da literatura em Pernambuco – e o país como um todo não foge disso – sofre de um paradoxo. Aliás, nas suas engrenagens são vários os nós intrincados a desatar. Primeiro, nunca se falou, pensou, trocou, altercou e esbravejou tanto sobre o fazer literário em 2007, seja em discussões estéticas ou soluções de ordem prática, nos festivais, colóquios e encontros com escritores. Só no segundo semestre, foram três deles, quase que um subseqüente ao outro, desafiando o fôlego dos leitores mais devotos – 5º Festival Recifense de Literatura – A letra e a voz (agosto), 3ª Fliporto (setembro) e 6ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco (outubro). Também nunca se viu tamanho volume de lançamentos de títulos, incluindo de muitos autores pernambucanos, como Raimundo Carrero e Gilvan Lemos. Uma ótima movimentação, é claro, que contribui na tentativa de massificar a cultura do livro e estimular a leitura. Mas, não se enganem, o cenário não muda: lê-se ainda muito pouco e o mercado, por sua vez, incorre na mesmice e na lógica do laissez-faire.

É uma tendência que está aí, e não é exclusiva de Pernambuco, embora o estado a adote por osmose, há pelos menos uma década. Ao contrário de outros nichos da indústria cultural, como o cinema e a música, a literatura se fundamenta numa posição quase dogmática de vangloriar o revival, ou seja, resgatar e celebrar os cânones, aqueles escritores e intelectuais já consagrados. Uma prova infalível disso são as incansáveis reedições e publicações póstumas feitas pelas editoras que, ao pegar carona nas chamadas efemérides ou datas redondas, produzem verdadeiros “caça-níqueis”. E 2007 foi pródigo nisso. Era lançamento em homenagem aos 80 anos de Ariano Suassuna ali, 100 anos de Gabriel García Márquez acolá, sem contar as várias efemérides fúnebres, como os 50 anos de morte de José Lins do Rego e os 20 de ausência de Gilberto Freyre. E, prepare-se, ainda vem mais. Há, pelos menos, duas efemérides arrasa-quarteirão em 2008: os 100 anos de morte de Machado de Assis, um dos maiores escritores mundiais do Século 19, que deve causar furor com vários eventos ao longo do ano que vem inteiro, e o centenário de nascimento de Guimarães Rosa, talvez o mais importante romancista brasileiro moderno.

Não que não se deva rememorar os clássicos, eles devem ser relidos e reinterpretados sempre; falta, no entanto, celebrar o novo, abrir espaço para os novos autores. Nos festivais, por exemplo, dá-se uma ênfase demasiada aos cânones, ao passo que faltam concursos para revelar a nova safra e uma programação, por exemplo, dedicada aos talentos principiantes. Nos últimos dois anos, porém, a nova geração vem “furando” o cerco e criando suas próprias janelas. É o caso do pessoal da revista Crispim, formado por ex-alunos de Letras da UFPE, do zine Vacatussa e da revista literária Entretanto, lançada este ano por Delmo Montenegro. Outra boa novidade deste ano foi a mudança editorial do suplemento cultural Pernambuco, do Diário Oficial do Estado (Cepe), que passou às mãos do escritor e jornalista Raimundo Carrero, agregando diagramação arrojada, o que é raro em publicações do gênero, e conteúdo sintonizado com as questões contemporâneas da literatura e áreas afins.

Uma justiça feita, embora tardia, foi a eleição do poeta e crítico César Leal, patrono da Geração de 65, para a Academia Pernambucana de Letras, órgão que passou também por uma renovação com a entrada de José Paulo Cavalcanti Filho e Deborah Brennand. Na ABL, a faixa da presidência da casa de Machado de Assis foi passada recentemente pelo pernambucano Marcos Vinícios Vilaça a Cícero Sandroni.

Leitura – Um grande acerto dos festivais pernambucanos foi o de dar relevo à discussão da literatura descentralizada, ou seja, feita fora do mainstream , voltando os olhos à América Latina e à África. Passaram por aqui escritores como os angolanos José Eduardo Agualusa (Fliporto) e Ondjaki (A letra e a voz), que deixaram suas experiências e debates frutíferos. Em 2008, a Fliporto promete aprofundar a discussão com o tema “Vozes da América e África”, trazendo como convidados ilustres o fotógrafo Sebastião Salgado e o escritor moçambicano Mia Couto. Enquanto isso, o Festival Recifense na sua próxima edição pretende discutir a difusão da leitura no tema “Recife Cidade Leitora”, propondo uma iniciativa inédita: levar os escritores para a periferia. O desafio principal parece ser mesmo o de democratizar o acesso ao livro. Segundo dados da Coordenadoria de Livro e Leitura do MinC, o índice de leitura no país é ainda muito baixo, apenas 1,8 per capita. Para atacar o problema, o Governo Federal adotou, em 2006, o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), que prevê medidas de fomento à leitura e o desenvolvimento da economia do livro em apoio às pequenas editoras, com efeito a longo prazo para 2010. A cadeia do livro, portanto, é complexa e não deve ser reduzida a conclusões simplistas e generalizações apressadas.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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