Diario de Pernambuco – Viver – 25.01.2006

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Diario de Pernambuco – Viver – 25.01.2006
http://www.pernambuco.com/diario/2006/01/25/viver1_0.asp

Independência é a lei da sobrevivência Mercado do livro
Panorâmica da produção literária local aponta para as singularidades estéticas e contradições culturais que caracterizam o setor em PE

Carolina Leão
Da Equipe do Diario
 
O Diario encerra hoje a série de reportagens, iniciada no último domingo, cujo objetivo era apontar as novas linguagens literárias desenvolvidas em Pernambuco, mostrando de que forma elas se relacionavam com o mercado do livro no Estado. Partindo de entrevistas com profissionais ligadas à área, entre editores, livreiros, economistas, escritores e produtores, a reportagem traçou o perfil dessa safra que tem suas singularidades estéticas e contradições culturais. A saber, existe uma geração de escritores cujo ponto de partida é a independência dos modelos tradicionais de edição e divulgação. Sofrem, no entanto, com os mesmos problemas de circulação de seu material – assim como numa grande empresa de editoração. É, ainda, lesada pela falta de estímulos que travam a renovação. Por isso, a independência não é apenas uma alternativa, mas a saída.

Editoras como a Livro Rápido, a Nossa Livraria e mesmo a Editora Universitária, que funciona também como gráfica, jogam diariamente no mercado títulos diversos sem colocar no seu orçamento e função, no entanto, a preocupação de apresentar esse jovem escritor. Com uma média de 600 títulos publicados em três anos, a Livro Rápido se tornou a menina dos olhos dos autores que ostentam a possibilidade de bancar sua própria publicação. Tarcísio Pereira, à frente do negócio, observou: “trabalhamos com um público que jamais poderia entrar no mercado porque era forçado a imprimir um número x de exemplares. É uma injeção no setor e estímulo aos novos autores”, destaca.

Mas editar um livro não é o bastante para que essa informação seja consumida. É necessário articulação, negociação, diplomacia e até mesmo o velho boca a boca. O caso do escritor Fernando Monteiro ilustra bem a importância da divulgação massiva. Monteiro teve destaque a partir de uma matéria da revista Bravo, datada de junho de 1998, quando ele próprio enviou seu exemplar publicado originalmente em Portugal. Após a resenha, o autor foi contratado imediatamente pela mega editora Record, com a qual lançou três livros.”minha carreira só teve impulso a partir da resenha da Bravo”, confirma o escritor.

Entender a questão dessa fragilidade e ambigüidade é ter que passar a limpo o desenvolvimento da indústria literária nacional. A história da difusão da literatura no Brasil está ligada ao crescimento de uma economia industrial frágil e veloz, que começa a se desenvolver no período pós-independência da colônia – no final do século 19 – com a liberação da imprensa no país. No início do século 20 e até a década de 60, o Estado de Pernambuco obteve com regularidade os holofotes de um incipiente mercado midiático que produzia e estimulava a prática artística – seja divulgando poemas, contos e crônicas; seja analisando esse material através de especialistas como Gilberto Freyre.

Resgatar esse elo perdido (o período de uma verdadeira época de ouro da literatura no estado) pode esclarecer como e porque Pernambuco perdeu seu rumo. Embora nunca tenha saído à frente da indústria nacional, a região já se manteve em posições mais privilegiadas no ranking da edição e produção literárias brasileiras. Hoje, a presença de espaços de divulgação, como a já estabelecida Continente Multicultural; as revistas Crispim e Entretanto (a serem lançadas ainda no primeiro semestre de 2006) e o zine Vacatussa (formado por jovens escritores que bancam a publicação com dinheiro do seu próprio bolso), indicam a importância de se movimentar o novo, o inédito.

Revelam, por outro lado, que não há produção nem material se o assunto não for pensado de forma mais sistemática pela iniciativa pública e, ainda, se não houver consciência e reflexividade por parte dos próprios escritores.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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