Dicas de presentes, por Nivaldo Tenório

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O fim de ano chega com dinheiro no bolso do décimo terceiro e expectativas de dar e receber presentes no Natal e nos amigos secretos. Para facilitar sua vida na hora de escolher um presente, nós, editores do site Vacatussa, resolvemos fazer uma lista para vocês deixarem uma boa impressão no jantar de Natal e nas confraternizações da firma. Como não poderia deixar de ser, as listas são compostas apenas por livros.

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Sempre me senti seduzido pelo livro, o livro como objeto, e foi esse fascínio, primeiro pelo objeto, que me levou à literatura. Com o tempo o objeto de desejo transformou-se em obsessão, por isso compro mais do que leio, acho que guardo em mim a esperança de que terei tempo. Não foi fácil escolher cinco opções e como toda lista esta também é arbitrária, fora dela ficaram muitos, entre eles autores brasileiros, ensaios e poesia além dos romances russos. Mas ao menos a pessoa interessada em dar o presente não vai sentir dificuldade em encontrá-los.

O tempo envelhece depressa, Antônio Tabucchi (Cosac Naify)

Como em outros livros do autor, nesse há referências literárias, o “pobre rapaz de Praga que acordou fora de contexto” do conto Clof, clop, clofete, clopete é Gregor Samsa e como ele as personagens de O tempo envelhece depressa também estão atordoados, não com a metamorfose. Não há nenhuma além do corpo jovem que se fez velho. Também não é a cidade estrangeira. A descrição da paisagem é quase sempre dada a um narrador sensível que faz disso motivo de reflexão e apreciação da arte. O atordoamento porque se acordou fora de contexto é provocado pelo tempo que passou depressa e nos deixou incompletos, fragmentados.

Paris é uma festa, Ernest Hemingway (Bertrand Brasil)

Ter vivido naquela época – a mim parece – é pertencer a um dos mais interessantes períodos da história, e é claro que alguém sensato dirá que esta Paris não existe. Jamais existiu senão para Hemingway. Talvez. Não me interessa pensar assim. Só sei que todas as vezes que abro as páginas de Paris é uma festa sinto-me como se tivesse sido minha a experiência – e não a de Hemingway – de viver em Paris nos anos vinte, ao lado de minha esposa que me ama e me admira. Antes do fim da inocência. Mas não é apenas uma lembrança – e aqui me mostro mais poderoso do que o autor. Eu, o simples leitor – parece que ainda estou lá, sou o usurpador da experiência do outro, vivendo todos os dias aqueles dias felizes. Só preciso abrir as páginas. Durante o tempo da leitura dura em mim a sensação de eternidade.

 A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata (Estação Liberdade)

Yasunari Kawabata escreveu um romance que se passa quase todo dentro de um quarto. O monólogo de um velho diante do corpo nu de uma jovem que ele não conhece, impossibilitado pelas normas da “casa” de nunca com ela se relacionar sob pena de botar tudo a perder e fazer desaparecer todo o mistério que o seduz e causa sofrimento. O tempo narrativo linear é apenas interrompido de vez em quando para dá lugar ao fluxo de consciência da personagem que volta no tempo e relembra os momentos de vida ao lado das filhas, amante e esposa. Nesses momentos a sensualidade cede lugar a sentimentos confusos que o impele a rever a vida que levou. Mas a tônica maior, acho eu, é o desespero em face da impossibilidade, o sentimento da impotência e a dor de envelhecer.

O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati (Nova Fronteira)

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati é um desses livros que não foi feito para entreter – um objetivo indigno da arte, diria Ernesto Sabato – mas para causar perplexidade. Um jovem tenente vai servir num forte, uma construção antiquíssima e desolada. Ali, vivendo o absurdo de uma rotina militar, se vê pouco a pouco amalgamado ao quartel, incorporado às suas paredes, condicionado aos limites de sua geografia. O forte fica na fronteira, depois dele um grande deserto por onde, diz a lenda, os Tártaros atacarão. Os militares esperam, os tártaros e a guerra farão deles heróis, justificarão o sacrifício, a solidão, o frio e o tédio. Mas o tempo passa e nada acontece. Alguns episódios remontam a radiografia do absurdo militar, um absurdo muito próximo de Kafka, como aquele quando uma sentinela atira e mata o companheiro que se aproxima do posto esquecido da contra-senha. Mas o romance não é sobre a vida na caserna, embora se valha dela para ambientar a história, mas a vida mesma, de todos nós homens e mulheres em nossa transição do nada para o esquecimento esperando por algo especial que nunca vem.

Viagem ao fim da noite, Louis-Ferdinand Celine (Companhia das Letras)

A viagem ao breu da desesperança não é estratégia que leva Ferdinand, a personagem, à expiação. Não é de Raskólnikov que estamos falando, sofrendo por acreditar-se culpado num mundo habitado por bons e maus. Para Céline não há inocentes nem redenção, o mundo não tem sentido, existir é uma maldição, e Deus, mais uma mentira inventada com a pior das intenções. A viagem não ilumina. As sucessivas provações não têm um propósito, antes consequências, e delas resulta um espírito embotado e um corpo alquebrado. Céline faz parte daquele grupo de escritores malditos, movidos por um forte sentimento de pessimismo com relação ao gênero humano, tudo o que diz soa no primeiro momento sacrílego. Mas esse pessimismo, esse despeito, uma fúria incontrolável por uns e um nojo abjeto por outros é, em última análise, a fúria de um homem que se importa. Contradição? Sem dúvida. Céline é paradoxal e como os pessimistas, sente uma irresistível paixão por aquilo que condena, em seu caso, o gênero humano. Assim como Kafka, seu mundo está povoado de pesadelos, e se não há saída, não há esperança, resta o desespero.

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