Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa – Vários

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Os labirintos do nosso idioma

Um lado bom das antologias é poder comparar o trabalho de diversos escritores a partir de um mesmo parâmetro. No caso do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa, organizado pelos escritores Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, a linha de partida foi a escolha de uma única palavra que sintetizasse a intimidade entre o autor e o idioma português. A relação fundamentada na linguagem aproximou 35 escritores de cinco países e quatro continentes, cada um com diferentes histórias, idades e visões reunidas num mesmo livro.

Uma diversidade geográfica e etária que se traduziu na amplitude das escolhas, indo do termo Porra à Morte, do Bosque ao Deserto, do Fogo à Sombra, da inventada Calicrati à pisoteada Sandália, da Palavra ao Silêncio. Apesar da variedade e até da relação contraditória dos temas, quase um terço dos autores se limitou à sugestão do nome do projeto e resolveram descrever um verbete, adotando o formato de dicionário.

Alguns levam isso a sério, caindo na armadilha da linguagem funcional na tentativa de explicar o termo escolhido. É o caso de Serendipidade (onde Bruna Lombardi desperdiça o teor poético do termo no uso de uma linguagem técnica), Casa (crônica repetitiva de Fabrício Carpinejar) e, principalmente, Verdade do português Desidério Murcho, que deveria estar numa coletânea de ensaios filosóficos.

Mas a repetição do formato não chega a ser uma camisa-de-força aos que optaram pelo padrão acadêmico ou de dicionário. Mesmo assumindo uma estrutura esquemática de tópicos, o verbete Morte, do poeta carioca Armando Freitas Filho, consegue se diferenciar apresentando novas maneiras de compreender o fim da vida. Do ponto de vista acadêmico, vale lembrar o texto Moderno do poeta Antônio Cícero. Embora tenha optado em escrever um ensaio, Cícero o faz com a inteligência de quem consegue sintetizar sentimentos em versos, tentando explicar um termo que revela vontade de não ser nada.

Esses casos fazem pensar que o problema não é a forma nem o assunto a ser tratado, e sim a capacidade dos autores em subverter a linguagem. No centro da questão está somente a palavra e a maneira como os autores às utilizam. Fernando Molica, por exemplo, transforma a explicação do seu verbete Buceta (assim mesmo, com u) numa crônica através de um texto leve, corriqueiro e inteligente, tão malicioso quanto divertido. Já o angolano Ondjaki mergulha na poesia para oferecer maneiras incomuns de enxergar a Sandália.

Outros escritores nem se preocuparam com as miudezas das explanações, partiram logo para a criação. Assim, os verbetes viraram temas, detalhes ou apenas títulos, um barbante para ser puxado e costurado em forma de palavras no papel. Um caminho que se revelou vários. Desembocou nas experimentações linguísticas do gaúcho Amílcar Bettega em Neve, do moçambicano Guita Jr. em Fogo e do carioca Paulo Henriques Britto em Peteleco; na originalidade do baiano Antônio Torres em fazer uma autobiagrafia da Saudade; no espírito crítico da carioca Heloisa Seixas em Espelho e no olhar delicado da portuguesa Tatiana Salem Levy em Deserto.

Como em Pernambuco também se escreve o português, fomos representados na antologia por Marcelino Freire e o onipresente Raimundo Carrero. Embora siga na Sombra, a força narrativa de Carrero é iluminada pelo rigor técnico no emprego das palavras, no uso de elipses e de uma lógica infantil (que nos lembra as brincadeiras do protagonista de O amor não tem bons sentimentos); tudo no devido lugar, pensado para manter o ritmo e a tensão do enredo.

Uma preocupação que Freire (na condição de ex-aluno das oficinas de Carrero) também tem, mas seu texto se destaca pela maneira de subverter, indiretamente, a proposta da antologia. Ao focar no termo Palavra, o pernambucano rejeita o sentido de união comunicativa da língua portuguesa e elege como tema a dificuldade de se expressar nesse idioma de solitários.

Thiago Corrêa
lido em Jul. de 2009
escrito em 01.09.2009

: : TRECHO : :
“Ele olha o mar e entende que desde que ele partiu, deixando o balcão com os olhos empoeirados, o silêncio entre os dentes, ela, a moça de pelos grossos, ar oriental, tornou-se o mar, a areia, a joaninha lhe fazendo cócegas na perna. Desde que ele partiu, ela é o mundo inteiro.” (p. 29, verbete: Deserto, de Tatiana Salem Levy).

: : FICHA TÉCNICA : :
Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa
Vários
Casa da Palavra
1a. edição, 2009
134 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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