Árvore de Maravilha | Do barro

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Do barro
Aline Arroxelas

Era uma chuva que não acabava mais. Chovia eu, chovia Maria, chovíamos nós, a cidade inteira. Chovia uma água barrenta, avermelhada, essa água suja que junta poças e unifica ruas e calçadas. A água, ao invés de lavar, sujava ainda mais, e tornava impossível saber ao certo onde se estava pisando.

Depois de chover uns dois dias, o céu pareceu dar uma trégua, e foi todo mundo para fora de casa, varrer a lama e os pedaços das coisas estragadas. O pé do sofá, que ficou fofo, ela julgou que estava podre. As caixas que serviam de guarda-roupa engrossaram o caldo da lama, espapaçadas que boiavam pela sala. E era uma destruição, era uma impureza, era um barro que subia pelas paredes recém caiadas… pensou que Deus mandara aquela chuva suja para, de tanto esfregar a porcaria do mundo, findar por estendê-la em algum varal do céu.

Foi nesse dia, depois da chuva, que ele chegou. Nem bateu na porta da casa, como se ainda fosse dele, aquele filho da puta; chegou como se ainda não-satisfeito de todo o problema que causara. Não pisava ali, não mandava notícias, há bem uns seis meses, desde a cana que culminou numa sacola cheia de seus trapos e a frase final: “enjoei dessa tua cara sebenta”. Tinha batido a porta bêbado, irritado e endemoniado, e tinha sumido.

Dizem que pegou um ônibus naquela noite, depois de dormir no banco da rodoviária. Quanto ao destino da condução, o que um dizia não encontrava a informação do outro. Pra um tinha ido pra São Paulo, tentar a vida, pra outros tinha resolvido viver com os parentes em Arcoverde. E o fato era que ninguém sabia se, vivo ou morto, o danado um dia voltaria a aparecer.

Mas apareceu, o cretino. Apareceu no dia depois da chuva suja, ainda mais sujo do que no dia em que saiu, mas pelo menos não tinha o bafo de cana. Estava triste, a barba crescida, fedia; era um defunto que não fora velado, era um morto insepulto vagando sem se saber finado por entre os vivos. Estava com raiva, embora só se visse essa raiva pelos olhos, porque de sua boca não saía palavra.

Os vizinhos vieram ver o bicho. Maria olhou para a entrada, sem saber se olhava para a lama ou para o marido. Quis varrê-lo pra fora como vinha fazendo com a imundície do chão, mas perguntou, antes, o que ele pensava que estava fazendo ali. “Vim te ver, Maria”, e falava baixo como um menino envergonhado. “Cadê aquele tua rapariga, não te aguentou não, seu cachorro?”, e a voz de Maria era alta como uma trombeta do Evangelho.

“A mulher, Maria, a mulher Deus levou. Adoeceu e em três dias morreu. Deve ter sido castigo.”

“Melhor ainda, que assim você se junta a ela nessa terra podre em que eu vou te enterrar, seu desgraçado, que é de onde você nunca deveria ter saído.”

As crianças choravam, os vizinhos gritavam, a menina se ria, a velha rezava, o pastor pedia perdão a Deus. E Maria, e seu marido morto-vivo, se agarraram numa luta de carne e sangue, embolando pela lama, pelas pedras, pelos cacos das coisas quebradas varridas das casas, sujando cabelos, roupas, barba, chinelos, vassoura, unhas e bocas. Foi ficando tudo vermelho e ninguém sabia se de sangue ou do barro. Os ouvidos e narizes se encheram de barro também. Foi aí que voltou a chover, e eles se afogaram na água barrenta cheia de mágoa.

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