E eu ali, todo quieto? (Sobre Bernardo Brayner)

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Quer dizer que você não conhece o escritor paraibano Walter P. Peixoto, autor de E eu ali, todo quieto?

Eu também não o conhecia. Semanas atrás, procurando notícias diversas através do twitter, dei de cara com a seguinte notícia: “paraibano Walter P. Peixoto ganha o prêmio Álvaro Mútis”. Que ótimo!, pensei. E compartilhei a notícia nas redes sociais. Pesquisando um pouco mais, cheguei a um almanaque online que continha apenas livros de autores obscuros e pouco traduzidos.

O nome do site era autoexplicativo: Livros que você precisa ler e seu administrador se chamava Bernardo Brayner. No blog, pude ler um trecho de E eu ali, todo quieto e o tom geral me agradou. Usei o google, que me mostrou um ou dois links sobre Peixoto e umas três imagens, dentre as quais uma foto de um senhor que julguei ser o autor. Anotei o nome e o livro no meu caderninho e fui direto aos sites de compras. Lá, digitei o nome do livro. Nada apareceu. Cheguei à conclusão óbvia: “Walter P. Peixoto é obscuro mesmo!”. Salvei o site de Bernardo Brayner nos meus favoritos para depois explorá-lo melhor. Livros que você precisa ler me parecia um achado. Não apenas eu poderia conhecer novos escritores, mas quem sabe até mesmo dizer para meus amigos e colegas: “Quer dizer então que você não conhece Vladistav Vlodistoff? Eu descobri este autor e você tem que ler esse cara! Ele nasceu na Lituania, foi amigo de …”.

O tempo passa e eis que recebo a seguinte encomenda do meu editor no suplemento Pernambuco: “Quero te sugerir uma matéria, uma entrevista e uma análise tua desse blog Livros que você precisa ler que é um livro no qual o blogueiro inventa os livros e editoras e resenhas sobre o seu blog”. Imediatamente, uma palavra me chamou atenção: inventa. Quer dizer então que meu novo herói literário, o escritor injustiçado pelo Sistema e pelo Grande Satã (representado pelas Editoras Sulistas), o genial Walter P. Peixoto, não existia?

Embora moremos em países diferentes, isto não impediu que eu marcasse um café com o pernambucano Bernardo Brayner, o autor por trás de uma centena de máscaras de escritores, para conversar um pouco com ele a respeito do seu blog e dos seus escritos. Nos encontramos no Dibuk Café; Brayner chegou 15 minutos atrasado e me pareceu mais tímido do que eu esperava. Com idade entre 30 e 40 anos, Brayner, que é redator publicitário nas horas vagas, nunca elevou o tom da voz durante nossa conversa; seus gestos foram bem contidos; chegou vestindo calça jeans, uma camisa preta e uma boina.

“Eu sempre gostei de ler e o desejo de escrever acabou surgindo também em alguma parte da minha vida.”, Brayner me explicou, após eu perguntar como começou a escrever e por que criou o blog, “Escrevi uns contos e tive a maior vergonha deles depois. Um dia eu tive a ideia de atribui-los a outros escritores. Escritores imaginários. Assim eu tirava o peso de escrever algo que eu realmente achasse bom. O Livros é borgiano, mas foi em Fernando Pessoa que eu pensei ao começar a escrevê-lo. Essa semana, dia 10 de agosto, o Livros que você precisa ler faz 4 anos”. Perguntei então sobre o único livro que publicou sob o próprio nome,  Exercícios de morrer. E foi este o único momento em que meu entrevistado pareceu baixar um pouco a guarda. “Você conhece isso?!  Esse livro foi uma coisa completamente prematura. Foi relendo ele que surgiu o desespero por escrever tão mal e, posteriormente, a ideia de criar o blog atribuindo os textos a outras pessoas”.

Lembrei então do livro Literary hoaxes: An eye-opening history of famous frauds, escrito por Melissa Katsoulis, no qual temos um autêntico almanaque sobre inúmeros trotes, falsificações e pegadinhas literários. Como se estivesse de alguma forma enumerando um conjunto de pecados – ou “travessuras” – a autora nos apresenta todo tipo de trapaça possível. Temos os escritores que forjaram memórias do Holocausto, os falsificadores de peças e documentos de Shakespeare, os escritores que criaram falsos depoimentos de índios; e descobrimos, por fim, que o país com maiores trotes literários por metro quadrado é a Austrália! Alguns escritores genuinamente fracos procuraram a glória literária através das falsificações; outros, talentosos, descobrem seu real potencial criador pondo uma máscara em cena e este é o caso de Brayner: “Notei que queria escrever sobre a agonia da escrita”, confessa, “Foi mais uma necessidade de atribuir os textos a outras pessoas mesmo. Depois eu vi que existia um universo próprio se esboçando”. Há falsificações fracas, amadoras, que logo são descobertas; outras, porém, chegaram a marcar época. O livro de Katsoulis nos recorda, por exemplo, o poeta escocês James Macpherson, que criou no século XVIII o bardo Ossian, cujos poemas fizeram muito sucesso e inspiraram o romantismo europeu. Fãs seus foram, por exemplo, intelectuais como o filósofo David Hume e o escritor alemão Goethe, que de fato acreditaram que Ossian fosse um poeta esquecido, uma espécie de Homero gaélico. Querem um Ossian contemporâneo? Literary hoaxes nos apresenta ao escritor J.T. Leroy, que entre o final dos anos 90 e o início dos Zero Zero foi um dos escritores mais cool (e fotogênicos) do planeta. Madonna, Winona Ryder, Shirley Manson (vocalista da banda pop Garbage) clamavam serem seus amigos. Sua escrita pop, confessional, underground e cheia de tragédias pessoais fez bastante sucesso entre público e crítica. Entretanto, logo se descobriu que J.T. Leroy não existia e que seus textos eram escritos por Laura Albert, uma musicista de meia idade. E quem era aquele cara que aparecia nos eventos literários e posava para fotos nas revistas? Era uma garota chamada Savannah Knoop, meia-irmã do então companheiro de Laura na época.

Não me parecia, porém, que um autor como Leroy fosse uma referência para o blog de Brayner. Das centenas de escritores imaginários que podemos encontrar no seu blog, há algumas coisas em comum. Se existissem em cara e osso, por exemplo, seriam autores dificilmente midiáticos. Alguns são trágicos: “A preocupação com a escrita, a preocupação com a morte, a preocupação com o tempo são traços em comum nos meus escritores. Muitas vezes eles estão escrevendo livros que querem abarcar tudo, toda a humanidade. E esse projeto sempre leva ao desespero”. É como se Livros que você precisa ler fosse um projeto de anti-Leroys. Uma paródia de certo narcisimo? “Acho que tem um pouco de narcisismo na literatura contemporânea sim. Talvez muito…” e completa com um sorriso irônico: “Mas tem gente boa trabalhando calada em casa. São esses que admiro, junto com Thomas Pynchon, Osman Lins, Robert Walser, Raduan Nassar, Gógol, entre outros”.

 Mais tarde, já em casa, trabalhando, voltei a lembrar de Walter P. Peixoto. Lembrei das cartas que até hoje leitores de Conan Doyle enviam para o endereço onde teriam morado, em Londres, Sherlock Holmes e Dr. Watson. Recordei das várias conversas nas quais amigos, ex-alunos e colegas se referiram a nomes como Capitu, Paulo Honório, Policarpo Quaresma ou Iracema, tratando todas estas pessoas como seres de carne e osso, cujo encontro com elas foi importante em suas próprias vidas. Não se trata de pensar o blog de Bernardo Brayner em termos de “mentira” ou “embuste”. Melissa Katsoulis conclui que nenhum embuste literário sobrevive sem que haja um profundo diálogo com nossas fantasias e expectativas: quando fui “enganado” por Brayner, quando somos enganados por algum trote literário, o que isso realmente quer dizer sobre nossas ansiedades em relação à literatura e ao mundo? “Quando alguém procura o autor na livraria, ou melhor, quando alguém cita o autor no seu blog ou no Facebook acreditando que ele existe, aí sim, acho que o blog se realiza”, Bernardo me disse enquanto molhava metodicamente sua madeleine na xícara de café.

A ficção tende a nublar as fronteiras que julgávamos definidas e estáveis. Quando queremos nos orientar dentro de um espaço, lançamos mão de pontos de referência, de placas, de direções. Quando a ficção se manifesta na cultura, por outro lado, sua função é diferente. Assim, quando o seu pai ou seu tio dizem, ao assistirem a um filme, algo como “mas que mentira!”, eles estão corretíssimos e ao mesmo tempo equivocados.  Isto é real e ao mesmo tempo não é – estas são as linhas mais importantes do contrato que devemos assinar toda vez que consumimos ficção. É por causa da natureza contraditória deste contrato, aliás, que não só a literatura, como também o teatro e o cinema volta e meia discutem a própria ideia de fazer ficção e de criar representações. É neste sentido que o blog Livros que você precisa ler lembra escritores como Borges, Calvino, ou Osman Lins. Em um ensaio excelente, Michael Chabon afirma que toda literatura é obra de um fã, de alguém apaixonado. Concordo com ele. Quando a ficção fala sobre a própria literatura, ela fala dessa paixão pelas histórias; ela fala do horror ao vácuo e à folha em branco. E, principalmente, fala dessa enorme comunidade que ainda sobrevive: uma comunidade que transforma em tempo presente diferentes gerações, nomes e geografias, utilizando como instrumento o ato da leitura.

Cristhiano Aguiar
Publicado originalmente no Suplemento Cultural Pernambuco, em 2012

Referência para citação:

AGUIAR, C. M. . Os melhores livros são os inexistentes. Suplemento Cultural Pernambuco, Recife – Pernambuco, 10 set. 2012.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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