Em Desconstrução | Atravessada

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Atravessada
Mário Lins

Ela queria atravessar a rua. Carros zuniam nervosos sobre o asfalto, pneus chiando como cobras gordurosas em chapa quente. Sem trégua. A única sombra por perto estava debaixo dela, uma sombra nova, órfã, criada havia pouco e protegida dos raios escaldantes apenas pela sua presença. Queria matá-la em breve, deixá-la sozinha para morrer ao sol. Queria atravessar a rua.

Uma brecha no ir e vir lembrou-lhe que sombras são criaturas espertas, eis que a recém-nascida a seguia descendo o meio fio, pairando sobre a quentura cinza como fantasma diurno. Do outro lado escorriam espetos aromáticos emparelhados num salto congelado sobre o fogo, seus deliciosos fluidos beijando as brasas e espiralando delicadas fragrâncias pelo ar.

Bastara uma leve aspirada daquele incenso rico em proteínas e promessas nutritivas para que suas papilas gustativas a dominassem por inteiro, corpo, alma, cérebro e estômago presos uns aos outros por vários metros de intestino. Aquele motim de sentidos e vontades urrava urgente, mandando ela atravessar a rua.

Então atravessou. Num instante a pequena sombra que havia parido ficou distante, independente, arredia. Ela não viu mais nada, bateu um clarão e fim, restou uma gata atravessada na rua.

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

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