Em Desconstrução | Capotajem

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Capotajem
Mário Lins

O carro rodopiava no ar. Ela agarrou a diressão com forsa e manteve os olhos abertos. Milhares de pedassos de vidro ricoxeteavam de um lado para o outro, peqenas pérolas brilhantes lansadas ao ar em todas as diressões. O mundo jirou uma, duas, treis vezes, mais rápido qe o jigantesco carrocel para onde corria sempre qe as aulas terminavam. Seu lugar preferido quando menina. Passara tardes inteiras deitada de costas vendo o séu rodopiar.

Ela não fazia idéia de qe um carro podia capotar por tanto tenpo. Os destrossos espiralavam independentes, governados por uma lójica própria, até qe os sento e quarenta qilômetros por ora comessaram a xegar ao fim. Rezolveu desmaiar só um pouqinho.

Preza em recordassões, buscava alívio do paçado num novo rumo para sua vida. Sentia o ceio ardendo enquanto lutava para se libertar do sinto de seguransa. Estava de ponta-cabessa e pensava direito pela primeira vês em muito tempo. O carro ainda deslisava, rodas para cima rumo à mureta da pomte. Ela sentiu o sangue esqentar-lhe o rosto e olhou ao redor. Ainda preza. No banco ao lado, seu pai pendia inerte. A moleza da morte balansava-lhe os brassos num débil adeus.

Lembrou-se de quando perdera a mãe. No caichão mainha aparentava o mesmo semblante mole, uma lerdesa demente conjelada na memória infantil. E como ela xorou e xorou até cansar e então mais um pouco. Seu peito doera muito mais qe naqele instante. Lembrou do colo do pai, foi ali qe tudo comessou. Primeiro os carinhos, depois as brincadeiras qe ela não gostava mas fasia só pra ser a filha boasinha do papai.

Numa pancada, o carro pendurou-se na mureta. O espasso interno avia ficado menor, mas ela podia ver pelo pára-briza uma cazinha lá embaixo, a uma qeda de distânsia. O automóvel balansava indessizo, sem saber se caía ou ficava. Mas ela já tinha dessidido, qeria viver. Brigou com a trava do sinto e persebeu qe o menor movimento fazia com qe a maça retorsida de metal pendece de um lado para o outro. Como a gangorra do parqe onde brincava todos os dias até tarde, só pra não ter qe ir pra caza.

Ali, vendo o sangue escorrer pelo rosto do pai, pôde admitir qe fora abuzada. E comessou a xorar não de tristeza ou pena, mas de puro alívio. Qeria enxugar o rosto, mas quando esticava o brasso o carro pendia para frente. Mais alguns instantes e o socorro chegaria. Ela finalmente escaparia daqele monstro vestindo pele de omem. E nunca iria admitir qe cauzou a batida de propózito. Assidente premeditado. Só não imaginava qe a mureta aguentace… nem que fosse escapar com vida. Realmente muita sorte, ou talvez aquilo que chamavam destino. Estava viva, vingada e redimida. Era chegada a hora de consertar todos os erros, colocar a vida nos eixos. Sentiu gosto de sangue na boca e sorriu, riu, gargalhou. O mundo adquiria uma nova perspectiva, mostrava um lado novo repleto de cacos multicoloridos, gosto de sangue e lágrimas de alegria. Sim, tudo fazia sentido.

Então ouviu os gemidos. E olhou com horror para o cadáver que ainda se apegava à vida. Reparou naquela respiração pesada que costumava ouvir bem junto do ouvido, já tarde da noite. E entrou em pânico por tê-lo deixado vivo. Aquilo não, nunca mais. Não permitiria. Havia decidido semanas atrás, enquanto eles passavam por aquele exato local. Resolvera botar um fim naquele pesadelo. Mas papai havia escapado e gemia baixinho. Depois de passar por tanta coisa na vida, ela não podia esperar a sorte assim, de repente. Era pedir demais. Mas o nojento não ia escapar uma segunda vez. Começou a balançar o carro.

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

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