Em Desconstrução | Divagações de um Personagem Principal

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Ele apareceu assim, do nada. Uma hora não tinha ninguém ali e, de repente, lá estava. Não teve nenhum som, deslocamento de ar ou efeito especial, ele simplesmente apareceu e pronto. Era alto e usava um casaco preto bem surrado sobre uma camisa branca encardida. A calça devia ser preta também, mas tinha tanta poeira que mais parecia um tipo de cinza desbotado. No rosto, uma expressão de surpresa enquanto o corpo inteiro oscilava um pouquinho, seus braços abertos de leve e os dedos esticados, como alguém tentando se equilibrar durante uma tontura repentina. Depois de um ou dois segundos, deu um passo para trás, firmou os pés e olhou ao redor: havia apenas um branco infinito por todos os lados. Levou uma mão à cabeça e ficou enrolando os cabelos ruivos entre o indicador e o polegar, pensativo.

Sabia que era um personagem. Disso não tinha dúvida. O problema é que não tinha muita noção do que fazer, não sabia nem por que tinha sido criado, por isso resolveu sentar um pouco e organizar as idéias. Olhou a própria roupa um instante e deu uns tapinhas no casaco, levantando uma nuvem de pó no processo. Não adiantou muito, mas ele pareceu satisfeito com o resultado. Era um personagem novo, e sabia disso por não conseguir lembrar de ter participado em nenhuma outra narrativa. Nunca tinha sido protagonista, jamais tinha feito sequer uma ponta como figurante numa história paralela menos importante. Esticou as pernas, depois inspecionou as botas e encontrou um buraco na sola do pé direito. Não lembrava, mas devia ter andado um bocado. Era óbvio que ele tinha sido inventado havia pouco, mas aquela falta de um começo propriamente dito já estava enchendo o saco.

Sentado na imensidão branca de lugar nenhum, decidiu que, durante sua história, não ia matar ninguém. Todos os personagens clichês uma hora ou outra acabavam arrumando motivos para cometer o bom e velho assassinato. Talvez fosse culpa de seus criadores, que, no desespero de entreter a audiência, recorriam às fórmulas de sempre. Mas ele achava que um personagem devia ter vontade própria, impor seus limites e tomar as rédeas da narrativa, deixando para o autor o papel de auxiliar administrativo da trama. Que os autores se preocupassem com erros de continuidade, a criação de papéis secundários e a descrição de cenas mais detalhadas. O personagem principal é quem deveria conduzir a história rumo ao seu desfecho.

Nada de assassinato então. E nada de suicídio também. Estava cansado de personagens morrendo no final da história, principalmente nas mais curtas. Se todas as mortes ocorridas nos instantes finais de todas as narrativas já criadas fossem somadas, daria pra repovoar o planeta inteiro. E isso também era culpa dos autores, especialmente dos mais preguiçosos, sempre tentando forçar um final de impacto com o maior dos clichês. Uma vergonha, realmente. Talvez fosse o caso de iniciar uma campanha, “Não Mate Seu Personagem No Final” ou algo assim. Um pouco de criatividade não faria mal a ninguém.

Passou a mão na testa, nada de suor. O clima não estava quente nem frio, porque o cenário ainda não tinha sido criado. Nada de céu, chão, brisa, horizonte. Apenas aquela brancura de doer na vista, a brancura e o tédio da espera. Nenhum começo ainda, mas, quando começasse, sua história seria diferente de todas as outras. Tentaria mostrar a realidade, falar sobre as pequenas coisas da vida, discutir sentimentos sem ser sentimentalista. Uma narrativa forte, mas delicada. Continuou sentado, esperando pra ver se algo acontecia e a história começava. Foi só então que percebeu: fim.

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1 comentário

  1. Julieta Jacob em

    Esse conto me fez lembrar que muitas vezes a gente pensa, analisa, divaga, pondera, promete, elucubra, elabora, imagina, planeja e, quando vai botar em prática…. sobem os créditos! A história já estava sendo contada, alguém já tinha gritado “ação” e apertado o botão “play”. O vir-a-ser não mais será, pois acabou sendo aquilo que foi. Et c´est fini.

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