Em Desconstrução | O Formulário (Está Dando Certo?)

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O Formulário (Está Dando Certo?)
Mário Lins

A ponta do lápis pairava, incerta. Em alguns momentos, roçava o papel com carinho; noutros, equilibrava todo o peso da mão. Rabiscos negros contra uma planície branca. No arrastar de um lado para o outro, tudo o que se podia ouvir era o barulho ensurdecedor do grafite estalando e se desfazendo em nuvens de poeira.

Mais uma sala de reunião, outro formulário. Embora diferentes, todos os lugares possuíam aquele ar estéril-corporativo, as mesmas secretárias risonhas mostrando seus dentes de chacal. Ele preenchia todos os campos, o lápis girando pra lá e pra cá.

Nome Completo: Wilson Francisco Gouveia Alencar.

Idade: 28

Estado Civil: Divorciado

Endereço: Traçava As Letras Com Cuidado, 99, misturando retas perfeitas com algumas curvas feitas às pressas, Parnamirim, para tentar demonstrar que era uma pessoa firme e dinâmica, Recife-PE.

Terminou de escrever os dados e passou para as perguntas. Estavam na parte de baixo, inocentes, aguardando as mesmas respostas ensaiadas. Explicou como poderia contribuir para o sucesso da empresa, sobre seus objetivos profissionais, pretensão salarial, etcetera, etcetera. E então se deparou com ela, na última linha. A princípio, não percebeu o truque. Parecia apenas mais uma pergunta corporativa igual a tantas outras, propagadas pelos departamentos de RH ad infinitum. Então lembrou que não havia encontrado nada parecido nas visitas anteriores. Releu a frase acima do campo em branco e, ao chegar no ponto de interrogação, sua pálpebra inferior, a do olho esquerdo, tremeu involuntariamente.

12) Sua vida está dando certo?

Sim, está dando certo. Essa parecia ser uma resposta satisfatória, tanto que sentiu um breve alívio ao começar a frase seguinte. Caso eu seja selecionado para a função a que me proponho, dedicarei todas as minhas energias na melhor execução possível das minhas tarefas, contribuindo para alcançar resultados nunca antes vistos nessa instituição. Seria perfeito, se não fosse mentira. Porque aquele empreguinho que eles ofereciam não era uma função importante. Não mesmo, qualquer um poderia desempenhar a função. Ele era capaz de muito mais. Aliás, aquela empresa nem era essas coisas todas, teve seus anos de glória na década de 90 e, depois disso, a qualidade do trabalho vinha decaindo.

O lápis girou no ar, tecendo um semi-circulo, e desceu contra a página num impulso violento. A outra extremidade, emborrachada, chocou-se contra os sulcos de grafite e pôs-se a arrancá-los com vigor, soltando centenas de estilhaços de borracha por todos os lados.

O campo estava novamente em branco, mas a pergunta continuava ali, insistente. Sua vida está dando certo? Sua vida. O que poderia responder? Na verdade, não estava dando muito certo não. Ele achava que tudo seria mais fácil, nunca acreditou naquele pessoal que sempre avisava que as coisas eram mais difíceis do que pareciam. Era um otimista. Mas quando as coisas iam acontecer de verdade, a vida dava um jeito de puxar o tapete e capoft!

Sua vida, certo? Sua e de mais ninguém, mas quando seria pra valer? Tinha a sensação de que a vida ainda estava por começar. Ficava sempre imaginando o dia em que tudo ia estar certo, do jeito que queria, e as coisas poderiam começar de verdade. Sim, porque aquilo ali era só um prólogo, uma introdução que se estendia além do esperado, já iam quase 30 anos e nem sinal do capítulo 1.

A ponta do lápis, parada, um monólito negro flutuando sobre o mar de dúvidas. Revolto.

Teve vontade de escrever aquela mentira de novo. Ou de entregar o formulário com aquele pedaço em branco. Aliás, quem eram eles para fazerem uma pergunta daquele tipo? Sua vida não ia nada bem, pra falar a verdade. Estava desempregado, morando de favor e não suportava a sogra. Pra piorar, tinha que se candidatar a sub-empregos em lugares péssimos feito aquele. O que eles queriam, que ele mentisse? Não ia se prestar àquele papel. Queria escrever algum tipo de ofensa. Está dando tão certo quanto a sua, seu idiota, agora vá aprender a fazer um questionário decente e deixe sua vaga para alguém mais qualificado.

Jogou o questionário na lixeira, levantou-se e foi embora. Deixou apenas uma pergunta:

12) Sua vida está dando certo?

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

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