Em Desconstrução | O Menininho que Sofregava

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O Menininho que Sofregava
Mário Lins

Ele era tão bonitinho, o menininho. Mamãe tinha vontade de ficar cutchi cutchi cutchi nele o dia inteiro, dedinho de minhoca fazendo cócegas e morrendo de rir. Tão lindo meu homenzinho, ela dizia com um sorriso, e ele ficava orgulhoso de ser todo perfeitinho.

Aprendeu o bêabá que a tia ensinou e desenhava as letrinhas com capricho. Depois aprendeu a ler o nome de mamãe no crachá e não parou mais. Passava os olhinhos por tudo, curioso que só ele. Toda semana ganhava uma revistinha e lia as histórias com satisfação. Primeiro as revistinhas, depois os livrinhos que titia deu de aniversário. Nem entendia as histórias direito, mas gostava de ficar sentado na sala fingindo entender tudo e mamãe ficava bem feliz.

No colégio, passava de ano sempre com boas notas. Era um aluno dedicado, fazia as tarefas antes que a professora mandasse. O dia da entrega do boletim era quase um novo aniversário, chegava em casa todo metido e mostrava pra todo mundo como era inteligente. E assim seguiu por todo o colegial, o primeiro da turma, devorador de paradidáticos e afins.

Só ao ingressar na faculdade é que percebeu todas as vertentes da literatura, sentindo-se um tanto menosprezado pelo peso do saber, representado pelos séculos e séculos de conhecimentos condensados em grossos volumes enfileirados na biblioteca. Contudo, suas convicções não amainaram. Soergueu-se vitorioso do embate, cooptando admiradores entre dicentes e docentes e assegurando uma bolsa de estudos integral para a pós-graduação.

Sagrou-se ícone intelectual, ensaiava teorias psicanalíticas acerca da volatilidade dos arquétipos junguianos e tecia paralelos com a música de câmara pós-moderna. Registrava eventos atmológicos em atribiliários instantes, os átrios de seu coração reduzidos a escassilhos frente à perversidade cronológica, relembrando e tartamudeando lembranças concernentes à juvenília.

Septagenário, séssil, mortuoso, sofregava. Persistia tentando transmudar-se. Acabrunhava buscando a golconda. Sua consciência facciosa transfigurava-se em obste. Admoestava-se soerguendo o encéfalo. Mal suportava a neuralgia ensejada pelo peso do saber. Paralisado, tranava o oblívio. Ansiava pelo vulto. Falciforme.

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

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