Em Desconstrução | Por Um Fio

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Por Um Fio
Mário Lins

Odiava falar ao telefone. Desligou a terceira ligação do dia e botou o último álbum do Interpol a todo volume. Sempre que estava mal, gostava de se perder em meio a acordes e distorções elétricas, guiado apenas pelas vozes carregadas de efeitos dos seus vocalistas preferidos. O telefone ficava cada vez mais distante, quase esquecido. Não possuía nenhuma raiva especial pelo aparelho em si; apenas não gostava do conceito de interação que uma ligação telefônica implicava. A cada chamada, havia uma voz desconhecida trazida diretamente ao aconchego de sua casa pela linha espiralada. A cada toque, uma pessoa estranha verborragindo em sua intimidade auricular. Vozes polidas e impessoais após oito números discados. Aliás, por que usar esse termo, número discado? Ninguém mais discava números, o telefone de disco já havia caído em desuso fazia tempo, mas ainda continuavam usando o verbo antigo para o ato de apertar botões.

Tateou na memória recente as últimas ligações: vamos estar entrando em contato, queira anotar o número do protocolo. Recapitulando, duas pizzas grandes, uma de quatro queijos e a outra, metade portuguesa, metade frango com catupiry. Senhor, o Fernando Nobre não se encontra no momento, quer deixar seu número para entrarmos em contato? Alô, aqui é do American Ways, você foi indicado pelo Júlio para receber um desconto no curso de inglês.

A raiva voltou de leve, mas o som despejava as melodias do Placebo e ele retornou àquele lugar especial, onde ninguém poderia incomodá-lo. Na música, estava seguro, não conseguiriam machucá-lo. Estava quase contente. Abriu os olhos e incomodou-se com a visão daquela máquina intrusa, lembrança dos diálogos vazios que ela produzia.

Tons educados, falas articuladas, tal qual um exército de cães adestrados. Sim, deveriam falar assim, os cães, caso fosse inventada uma máquina tradutora universal. E nenhuma daquelas vozes sequer suspeitava do incômodo que ele sentia ao andar até a sala e erguer o fone ao ouvido. Uma tortura, lenta e suave, estendendo-se até onde a imaginação conseguia enxergar, dia-após-dia-após-dia.

Então recebeu um telefonema diferente. Escutava as melodias minimalistas de Sufjan Stevens bem no meio de uma quarta-feira agitada, depois de ouvir uma operadora de telemarketing e a mensagem pré-gravada de um deputado federal. Atendeu contrariado, diminuindo o volume da música enquanto levantava o telefone do gancho. Era uma mulher, pela voz devia ter entre 20 e 30 anos, sua fala saindo entrecortada por um tremor na garganta. Começou a conversa meio tímida, mas logo em seguida perdeu os pudores. Talvez o anonimato ajudasse, não sabia dizer, mas, durante aquela hora e meia, a desconhecida falou sobre tudo. Da vontade de se matar, de como a pessoa que ela amava não a tratava bem, dos problemas que teve na infância, dos cortes que ela mesma fazia quando as coisas iam mal. Tudo. E enquanto ele escutava todas as idiossincrasias daquele coração estranho, esqueceu que estavam separados, ele de um lado, ela do outro. Por um fio.

Ela desligou de súbito, sem se despedir. Ele sentou junto da janela, acendeu um cigarro, olhou para a paisagem cinza e pensou em largar o vício. Então, devagarinho, como quem tem medo de começar, chorou num soluço seco, sem fazer barulho. As lágrimas rolavam pesadamente pelo rosto, mudas e doídas, caindo com todo o peso do mundo. Chorou por ele, chorou por ela, chorou por coisas que não sabia nem dizer, pela incapacidade de se ligar a alguém, pela falta de um sentido que fosse.

No dia seguinte, esperou. E no outro, e depois também. Mas aquela voz baixinha não agraciou seus ouvidos novamente. Quando já havia quase esquecido dela, um telefonema diferente. Foi no meio de uma quarta-feira agitada. Pegou o telefone e discou um número qualquer. Do outro lado, alguém atendeu. Sentia um pouco de vergonha, mas o fato de não fazer idéia de quem estava na outra ponta era bastante libertador. E então falou tudo.

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

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