Em Desconstrução | Um Buraco na Mídia

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Um Buraco na Mídia
Mário Lins

Semana passada, apareceu um buraco enorme em São Paulo. Na verdade, o buraco apareceu foi na mídia, porque em São Paulo ele já existia fazia tempo. A questão é que o tal buraco ganhou as manchetes por ter aumentado de tamanho em pleno centro da cidade. E engolido algumas toneladas de ruas e veículos no processo. Nas fotos, ele posava majestoso, igualzinho a um cenário hollywoodiano de fim do mundo. Era um ator nato. Tinha asfalto rachado nas laterais, mostrava caminhões que mais pareciam miniaturas dentro da boca e equilibrava um enorme guindaste na ponta da língua. Gostava de se exibir.

Maior que seu ego, só mesmo o seu tamanho. Antes mesmo de crescer, o ilustre buraco já devia ter mais de 40 metros de largura, e algo perto disso em profundidade. Era quase uma cratera, com a diferença de que crateras eram seres rudes, criadas na base da força bruta, enquanto ele fora construído com muito cuidado. Era um vazio refinado, aquele buraco.

Não dá pra saber o que passou pela sua cabeça ao decidir tomar aquelas medidas drásticas. Talvez tenha cansado de ver, diariamente, o enxames de homenzinhos descendo boca adentro, como minúsculos dentistas, indo e vindo sem parar. Vai que aquela movimentação dava enjôo no pobre buraco. Ou talvez ele tenha visto numa nuvem o reflexo de uma fenda bonitona a algumas centenas de quilômetros de distância e resolveu chegar junto. O que nos leva a outro problema dos buracos: eles se mexem muito devagar. A pobre fenda ia passar ainda uns tantos séculos sozinha, eita solidão!

O fato é que, como ocorre com todo famoso, o buraco já está sendo usado até na política. Tem gente do governo sorrindo à beça porque, depois desse episódio, ninguém em sã consciência vai abrir a boca para reclamar dos buracos nas ruas do Recife. E a oposição, claro, já lançou seu argumento para fazer o buraco trabalhar junto com a turma do contra: andam dizendo que o Recife está tão atrasado, mas tão atrasado, que até em matéria de buraco São Paulo está na frente.

Mas quem sai ganhando mesmo com tanta exposição é a turma da pseudo-imprensa, que trabalha com afinco para tornar os caprichos de um buraco em mais um episódio de terror e tragédia, com direito a saldo de mortos e desaparecidos. Imagino até o sorriso na cara dos editores ao receberem as fotos do dito cujo. Sim, porque buraco é que nem escândalo: quanto maior, melhor.

Uma coisa é certa: do mesmo modo que tantas outras celebridades instantâneas, muito em breve não ouviremos mais falar do buraco paulista que, de uma hora para outra, ganhou a capa dos jornais e ficou famoso.

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

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