Em Desconstrução | Vocês Venceram

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Vocês Venceram
Mário Lins

Atendendo a pedidos, decidi compartilhar com vocês um pouquinho sobre o livro que estou escrevendo. Mas, ao invés de falar do que se trata, deixo-os com um pedaço da obra em si, a saber, o começo. E aproveito para lembrar que nada é definitivo, posso acordar amanhã com o pé esquerdo e reescrever tudo, mudando o foco da história para uma ficção científica sobre um planeta distante povoado por bonecos de pano. Ou não. Por enquanto, o negócio começa mais ou menos assim:

Tem a capa:

TÍTULO DO LIVRO (ainda não tem)
Mário Lins
11ª edição
(E, no canto superior direito, um adesivo bem espalhafatoso informando: 22 semanas no topo da lista de mais vendidos)

Daí você abre a página, passa a nota do editor e folheia até o início da história:

1.
O dia em que saí de casa não ficou registrado direito na memória. Pensando a respeito, parece ter começado de súbito, um recorte nítido saltando das brumas da lembrança. A primeira imagem que me vem à mente: eu, esparramado no sofá da sala, assistindo a um desenho animado chamado Caverna do Dragão. Tudo naquele instante é muito claro, os detalhes da costura das almofadas, o cheiro de comida chegando da cozinha, a quina descascada do móvel de centro. E na tela estavam Hank e Erick discutindo se deviam ajudar um cavaleiro-esqueleto, ambos tentando convencer o grupo com idéias opostas. Diana, Presto, Bob, lembro de todos eles, até mesmo da unicórnio Uni. E Sheila, a menina da capa mágica que podia ficar invisível.

Quando eu era pequeno, tinha uma tara pela Sheila e pela Daphne do Scooby-Doo. Além de achar a Sheila gostosinha, eu também queria a capa dela pra ficar escondido no banheiro das meninas. Coisa de criança mesmo, a malícia despontando, hormônios bagunçando tudo, essas coisas. Mas naquele dia específico eu já tava bem mais velho, vinte e poucos anos na cara e a vida inteira pela frente, sentindo as primeiras pontadas de nostalgia ao assistir desenho animado antigo e lembrar de uma época bem mais simples.

Eu tava terminando a faculdade e ainda não sabia o que fazer. Pra minha geração, era chegado o fatídico momento, o instante em que você podia acidentalmente ganhar consciência e se perguntar, Que porra eu tô fazendo aqui? Depois de todos os jardins de infância, alfabetizações e trezentas-séries-do-segundo-grau você nem respirava direito e já caía no vestibular tendo que decidir uma coisa básica: o trabalho do resto da sua vida. Daí a meninada olhava pros lados e pensava, Ué, mas o único trabalho que eu sei fazer é estudar, nunca fiz outra coisa, como diabos eu vou saber? Então vinha a família, a instituição-base-de-toda-a-sociedade-blábláblá-babaquice-etc-e-tal, e dizia, Faça tal faculdade, seu futuro vai estar garantido. Valores de classe média, essa coisa idiota de falar que o trabalho dignifica o homem. Vai dizer isso pro pessoal que trabalha de estivador no porto, carregando aquelas sacas!

Mas, voltando ao que interessa, lá estava eu sentado no sofá assistindo Caverna do Dragão e pensando com meus botões o que diabos eu devia fazer, quando a porta de casa se abriu e eis que surgia meu velho chegando para mais um almoço em família. Ele tinha os olhos injetados, a testa oleosa e o cabelo meio desarrumado. Devia estar tendo um dia daqueles, como costumava dizer.

Olhou pra mim de um jeito duro, como se tivesse levado um susto ao me ver. Cada ruga em sua testa parecia dizer, Esse vagabundo passa o dia de perna pra cima coçando o saco assistindo desenho de criança e não tem a coragem de levantar um dedo que seja pra procurar emprego nem que seja de estagiário num buraco qualquer. Seus músculos retesados do maxilar completavam a acusação, Eu me acabo de trabalhar pra sustentar um imprestável que só tem obrigação de estudar mas mesmo assim consegue tirar nota baixa na faculdade e como se não bastasse ainda tenho que escutar gracinha dos colegas no trabalho por causa desse veadinho. Quando se tratava de linguagem corporal, meu velho não tinha papas na língua. Fez um leve aceno de cabeça em minha direção, mais hábito que cortesia, depois bateu a porta e passou para o quarto sem falar nada, apenas o barulho dos sapatos clop clop clop clop batendo com força no chão.

Eu reconheço que não tava me esforçando muito. Aliás, sempre procurei seguir a lei do menor esforço. Desde criança, me achava mais inteligente que a maioria e aproveitava isso ao máximo. Pra quê me acabar de estudar durante todo o ano, quando bastavam algumas semanas de leitura perto do natal pra conseguir passar facilmente pela recuperação? Pra quê me esforçar em busca do melhor, se eu podia fazer menos e ainda conseguir manter o ritmo das pessoas ao meu redor? Não queria me destacar. Ser o melhor exigia esforço e dedicação demais. Eu só queria descansar mais, trabalhar menos e manter a média.

Meu pai sempre deixou claro seu desprezo pela minha filosofia de vida. E, como todo filho, me esforcei ao máximo pra ignorar suas críticas veladas e continuar fazendo as coisas do jeito que eu achava melhor. Só que, naquele dia, as rugas e os dentes trincados falaram mais alto. Como se costuma dizer, foram a gota d’água.

(…)

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

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