Emissários do diabo – Gilvan Lemos

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PRÓLOGO

Autor: Gilvan Lemos nasceu em São Bento do Una (PE) em 1928 e faleceu em 2015 no Recife. Publicou mais de duas dezenas de romances, contos e novelas. Entre os quais, Os olhos da treva, O anjo do quarto dia e Morcego cego. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras. Recebeu prêmios como o Erico Verissimo, Orlando Dantas e o Olívio Montenegro.

Livro: Emissários do diabo foi o segundo livro publicado por Gilvan Lemos. A primeira edição saiu em 1968, pela Civilização Brasileira. O romance foi um dos premiados do Prêmio Othon Bezerra de Mello, em 1971, concedido pela Academia de Letras de Pernambuco. A edição traz como prefácio texto do professor Luiz Delgado.

Tema e enredo: O romance conta a história de Camilo, dono da pequena fazenda Degredo e membro arredio da família Rodrigues. Um conflito que, nutrido pelos relatos da mãe, Donana; se intensifica com os rumores de que seu tio, Major Germano, prepara-se para anexar o Degredo às suas terras.

Forma: A narrativa é, quase sempre, construída a partir de relatos dos personagens, preservando a fluidez da oralidade, os termos e peculiaridades do modo de falar da zona rural pernambucana. Esses relatos, muitas vezes se sobrepõem, oferecendo ao leitor diferentes perspectivas sobre o mesmo fato.

CRÍTICA

Épico rural

Em 1968, o romance Emissários do diabo ganhava sua edição de estreia pela Civilização Brasileira, então uma das principais editoras do país. O registro da data se torna interessante se levarmos em consideração que foi nesse ano em que foi decretado o AI-5 e o teor do discurso escrito por Gilvan Lemos nesse seu segundo livro. Afinal, o pernambucano nascido em São Bento do Una trata de assuntos áridos para os tempos da ditadura como a disputa de terras, abusos da polícia e corrupção da justiça.

O que torna o fato ainda mais curioso, pois, mesmo tendo sido publicado por uma editora visada pelo regime militar como foi a Civilização Brasileira (que teve 60 títulos apreendidos pela ditadura), Emissários do diabo alcançou sucesso comercial nesses tempos sombrios. De acordo com a lista dos mais vendidos do Jornal do Brasil, o romance chegou a alcançar o topo do ranking local do Recife publicado na edição do dia 15 de junho de 1968 e a 16ª posição do ranking nacional do dia 17 de agosto de 1968, onde aparece à frente de O homem nu de Fernando Sabino e Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Ainda que esse bom desempenho tenha ocorrido meses antes do AI-5 e a proibição de livros só tenha ocorrido de forma sistemática a partir de 1970, chega a ser curioso que o livro não tenha sofrido represálias, a exemplo do Pessach: a travessia de Carlos Heitor Cony, publicado em 1967.

Uma hipótese para isso é a maneira como Gilvan Lemos aborda o tema, não fazendo do romance um panfleto, mas tocando nos assuntos políticos como elementos da história, da mesma maneira que aparecem questões de amor, solidão, família, ambição. Para isso, Gilvan Lemos usa como eixo do romance a trajetória do fazendeiro Camilo, sujeito trabalhador de poucas palavras e senso moral apurado, que vem da mesma linhagem literária do personagem Fabiano, criado por Graciliano Ramos em Vidas secas. Esse caminho percorrido é contado numa mistura temporal, que envolve tanto o presente da rotina solitária de Camilo na fazenda Degredo, como o passado que emerge pela memória do fazendeiro e pelos relatos de sua falecida mãe, Donana.

Na combinação desses tempos, temos acesso à saga da família de Camilo. Desde a chegada dos Rodrigues ao Brasil – passando pela disputa cheia de artifícios com os Monteiros – até a rusga que fez Camilo se isolar da família e culmina, já no presente, nas ameaças de que seu tio, o Major Germano Rodrigues, irá anexar o Degredo às suas terras para servir de pasto ao gado do Condado.

Enquanto os conflitos entre Camilo e Germano se acentuam, o passado ressurge aos poucos. Em ondas que inundam a leitura com explicações sobre a desavença de duas gerações dos Rodrigues e, ao mesmo tempo, provocam a erosão, deixando lacunas nas entrelinhas pelo choque sucessivo de relatos sobre o mesmo fato. Algo que Gilvan Lemos explora com maestria, elevando a complexidade dos personagens através de diferentes caminhos de interpretação para se entender suas ações.

Exemplo disso são personagens secundários como Chico Queijeiro e o negro Bastião, cujas índoles oscilam de acordo com o avanço da leitura. Ou mesmo a reclusão de Camilo, que na voz de Donana parece justificada como questão de lealdade, mas que, pelo olhar da prima Ercília, é vista como reflexo da chantagem de tia Donana para não ser abandonada pelo filho caçula. Uma relativização que acontece em via dupla, a soma de perspectivas relativiza não apenas o fato narrado, mas também traz apontamentos para as próprias fraquezas das narradoras. No caso, o misto de insegurança e vingança de Donana, e a frustração amorosa de Ercília.

Nesse jogo de sobreposições, Gilvan Lemos compõe um mosaico de pensamentos e depoimentos para que o leitor tire suas próprias conclusões sobre as artimanhas do Major Germano e as reações de Camilo. Assim, ainda que as estratégias do Major causem indignação (em especial os relatos da prisão de Bastião) e a proximidade naturalmente nos leve a simpatizar com Camilo, o autor alcança a proeza de nos colocar em dúvida. Nesse sentido, a leitura adquire sentido de investigação, é como se fizéssemos parte de um júri e fôssemos construindo nosso julgamento à medida que as testemunhas, vítimas e réus se pronunciam.

Para melhor alcançar esse efeito, Gilvan Lemos se vale do recurso da oralidade, fazendo com que os personagens contem suas histórias, gerando fluidez à narrativa e uma sensação de intimidade com os leitores. Uma estratégia que só funciona por conta da habilidade do autor em criar diálogos, transformando-os em conversas, o que permite que eles soem naturais, livres de artificialismos literários e coloquialismos desnecessários.

Dessa maneira, com a camuflagem dos discursos psicológicos pelo viés da oralidade e com a inserção de cenas de ação (briga com os empregados do Condado, conflito com os cangaceiros), Gilvan Lemos quebra a rigidez do discurso literário e faz com que a escrita não perca sua função de contar história, impedindo que toda essa riqueza técnica e conteúdo político desvirtue o ritmo da narrativa. Constatação esta que indica o vácuo deixado por Gilvan Lemos na literatura brasileira.

Lido em agosto/setembro de 2015
Escrito em 11.09.2015


Relação com o escritor: Cheguei a entrevistar Gilvan Lemos por ocasião do seu aniversário de 80 anos, em 2008. Pouco antes de sua morte (2015) voltei a encontrá-lo por conta de um projeto de biografia dele encomendado pela Cepe, que está em desenvolvimento.

FICHA TÉCNICA

Emissários do diabo
Gilvan Lemos
Editora: Cepe
4ª edição, 2013
155 páginas

TRECHO

“De um salto Camilo desceu do cavalo. Lembrar-se-ia, depois, de uma boca insolente a se mexer, de um braço a levantar um pau, de um rosto desafiante, atrevido, cuja expressão foi passando da dúvida à surpresa, da surpresa ao temor” (p. 56)

OUTRAS OPINIÕES

Charles Richard Carlisle, na revista Luso-Brazilian Review, Vol. 18, Nº 2, 1981

“É bastante óbvio que o enredo de Emissários do Diabo é, em si mesmo, o material com o qual os primeiros filmes de faroeste foram feitos: o poderoso rancheiro com a ganância pelas terras de pastagens dos pequenos proprietários;  o proprietário de terras orgulhoso e solitário em face de sua tremenda vantagem; o elemento de um romance que rejeita as barreiras de una hostilidade familiar e até mesmo  a fórmula lançada na última fita.

(…)

Lemos jamais perde o controle de sua narrativa e um aspecto disto é o seu cuidadoso emprego do tempo no desenvolvimento do seu tema. A estrutura global da narrativa de Lemos mostra o grau de como ele se sai bem no exercício do controle do tempo, que é o tema dominante na novela.”

Lucilo Varejão Neto, no livro Gilvan Lemos e Nelson Rodrigues, editora Bagaço, 2013.

“É um romance muito bem construído e que prende o leitor desde o começo da narrativa, pois Gilvan com maestria soube criar o suspense em dose certa.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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