Entre moscas – Everardo Norões

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PRÓLOGO

Autor: Everardo Norões nasceu em 1944, no Crato-CE. Escritor radicado em Pernambuco, viveu na França, Argélia e Moçambique. É autor, entre outros, dos livros de poesia: Poemas argelinos (1981), Poemas (2000), A rua do padre inglês (2006), Retábulo de Jerônimo Bosch (2008), Poeiras na réstia (2010). Organizou a obra completa de Joaquim Cardozo (2010). Tradutor, organizou antologia de poesia peruana, do poeta mexicano Carlos Pellicer, do poeta italiano Emilio Coco e de poetas franceses contemporâneos.

Livro: Publicado em 2013 pela Confraria do Vento, é o segundo em prosa de Everardo Norões. Entre moscas foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria conto e crônica e venceu a edição de 2014 do Prêmio Portugal Telecom na categoria contos/crônicas.

Tema e Enredo: Os contos de Everardo Norões parecem se conectar por caminhos nem sempre evidentes, rotas descobertas no processo de leitura e releitura; são narrativas que sugerem comentários existenciais sobre o tempo atual, a maneira como as pessoas lidam com a história, o tempo, o modelo de sociedade que permite absurdos e celebra animosidades.

Forma: Os contos parecem se encaixar de forma que as teses do autor sobre a sociedade atual se tornam gradualmente compreensíveis. Há uma espécie de continuidade filosófica entre os textos, uma identidade conceitual que unifica o trabalho como um todo.

CRÍTICA

Entre as boas impressões de Entre moscas, livro de contos do escritor e poeta cearense Everardo Norões, está a maneira como o autor sugere temas e reflexões que se complementam a partir da sequência de diferentes textos.

Os contos parecem se encaixar de forma que as teses do autor sobre a sociedade atual se tornam gradualmente compreensíveis. Há uma espécie de continuidade filosófica entre os textos, uma identidade conceitual que unifica o trabalho como um todo.

Os contos de Everardo Norões parecem se conectar por caminhos nem sempre evidentes, rotas descobertas no processo de leitura e releitura; são narrativas que sugerem comentários existenciais sobre o tempo atual, a maneira como as pessoas lidam com a história, o tempo, o modelo de sociedade que permite absurdos e celebra animosidades.

É possível reconhecer também críticas a uma certa elite burguesa – ideia recorrente na arte em geral. São textos de impacto menor; alguns contos parecem prejudicados pela forma pouco criativa como o autor desenvolve personagens e situações, recorrendo a clichês que enfraquecem a proposta conceitual.

O primeiro conto sugere qualidades e defeitos: O exercício do asco. Everardo Norões comenta a história recente do Brasil, o fim da Ditadura, a ausência de debates políticos sobre o tema, a classe que lucrou nesse período de trevas; assunto que, ao contrário de países vizinhos que também tiveram ditaduras, permanece em silêncio no Brasil.

O conto traz uma representação crítica dessa elite: pessoas ricas que moram em torres imensas, bebem uísque e expõem com orgulho obras de arte na sala mesmo sem compreender o que significam. São comentários cuja acidez se desfaz pela eventual banalidade: argumentos críticos baseados em ideias pouco originais.

Parece estar na pauta de Everardo Norões inquietações sobre os modos da vida contemporânea, o que é deixado para trás, o restará no futuro; a falta de comunicação na selva de pedra, a publicidade excessiva, o tempo perdido por causa da burocracia, a inversão de valores – reflexões sobre características que constituem os modelos de relacionamento na sociedade contemporânea.

Talvez o que eleve os textos do autor seja uma retórica cujo lirismo prende por também sugerir diferentes formas de interpretação. Everardo Norões apresenta um estilo elegante ao indicar problemas fundamentais, sendo sensível ao sugerir uma certa medida de desumanização: toleramos iniquidades, suportamos perversões, e o que resta parece pouco ou quase nada.

A experiência de Everardo Norões na poesia é perceptível na maneira como o autor cria alegorias a partir de imagens fascinantes, sendo a sugestão indicada no título um dos bons exemplos. Entre moscas é o segundo conto do livro e coloca um homem e uma mosca em contato, insinuando a condição mórbida de uma certa rotina reconhecível; uma reflexão sobre o que se esconde nas sombras dos hábitos do cotidiano.

O livro, editado pela Confraria do Vento, venceu a edição deste ano do Prêmio Portugal Telecom na categoria Contos/crônicas – o valor da conquista é R$ 50 mil.

Lido em dezembro de 2014
Escrito em 25.12.2014

FICHA TÉCNICA

Entre moscas
Everardo Norões
Editora: Confraria do Vento
1ª edição, 2013
180 p.

TRECHO

“É o que ainda resta de uma imensa campina e, hoje, jaz entre espigões de concreto: algumas manchas verdes e uma faixa líquida, de cor suspeita, que restou de um rio.

Viro-me e diviso a outra paisagem, a que conforma o pensamento de quem vive dentro de um aquário, onde nada tem consistência. Na pardede, quadros assinados por artistas da moda. Pinturas sem valor estético combinam com a mobília sugerida por algum arquiteto. Numa estante defunta, a tela plana da televisão de n polegadas acomoda o negror da espera.”, (conto: O exercício do asco, pág. 10).

OUTRAS OPINIÕES

Luiz Costa Lima, na Valor Econômico, em 19 de dezembro de 2014

(http://www.valor.com.br/cultura/3829872/contos-escritos-com-bisturi)

“As associações evocadas nos fazem entender melhor por que dizemos que as múltiplas direções trabalhadas pelo autor são secas, agudas e precisas como bisturis e não admitem gracinhas ou variações líricas. Formulo-o assim: há uma equivalência entre o passado e o presente, que explicita melhor a proximidade que o livro resenhado guarda com o poema de qualidade.”

Diogo Guedes, no Jornal do Commercio, em 21 de outubro de 2014.

(http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2014/10/21/everardo-noroes-lanca-livro-de-contos-151984.php)

“As narrativas de Entre moscas são pedaços da realidade atual, a maioria deles no Recife. Um matador de aluguel, um intelectual no Peru, um aposentado leitor do Diário Oficial, o vizinho escritor El Chino, todos eles são testemunhas ou retratos de uma sociedade cada vez mais próxima da barbárie, da desumanização total. ”

Marco Polo Guimarães, no Suplemento Pernambuco, em 5 de agosto de 2014.

(http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/component/content/article/4-mercado-editorial/1222-livro-de-prosa-entre-moscas-de-everardo-noroes-mantem-a-linguagem-precisa-que-ele-ja-exercia-em-seus-poemas.html)

“Ernest Hemingway dizia que a escrita deveria ser como um iceberg, do qual só se via uma mínima ponta, enquanto toda sua potência teria que ser adivinhada sob as águas. Já Ricardo Piglia diz que todo bom conto tem, sob o texto aparente, um subtexto que flui como um rio subterrâneo. Esse tipo de qualidade, que obriga o leitor a ser um leitor ativo, mergulhador, escavador, em busca do ouro real, é uma das qualidades do livro de contos Entre moscas, do cearense radicado no Recife Everardo Norões (foto) ”

Manoel Ricardo de Lima, na Revista Pessoa, em setembro de 2014.

(http://www.revistapessoa.com/2014/09/entre-moscas-o-homem/)

“Por isso também é pouco pensar que Entre Moscas é apenas um livro de contos. A tabulação bibliográfica se interrompe diante de algo um pouco mais projetado, o que se apresenta como texto tem a ver com uma constituição rigorosa: pensamento. E é o que ainda tem uma aposição de pensamento, me parece, que se difere e que desmonta esse desenho do que é só palavra e plano visível.”

Roberto Cagiano, no Estado de São Paulo, em 27 de dezembro de 2014.

(http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,contos-de-everardo-noroes-recortam-a-realidade-social-imp-,1612527)

“Na escritura de Everardo subjaz o peso dos pequenos dramas e dilemas com uma mirada kafkiana sobre as perversidades, a insolência e os absurdos que emergem das malhas da (con)vivência. Seus contos desaguam em desfechos surpreendentes, arrematados pelo requinte da linguagem, pela intertextualidade e uma sutil simbiose com outros autores e obras, cuja dicção une as pontas da tradição e da modernidade. Além disso, o trânsito simbiótico entre o Recife e outras cidade do mundo, com alusões e referências a ambientes e atmosferas, incorpora uma experiência pessoal e afetiva, ajudando a compor um caleidoscópio narrativo que desnuda o caos e o submundo (os exteriores e os psicológicos), às vezes afrontosos e imperceptíveis. Eis um autor que diz, com cristalina economia de meios, mas sem rodeios nem floreios, sobre o essencial do mundo que (o) habita.”

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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