Entrevista – 10 anos de Interpoética

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THIAGO CORRÊA – O que levou vocês a criarem o Interpoética?

INTERPOÉTICA – Em 2005 havia um vazio grande de publicações de literatura na internet e a literatura pernambucana quase não tinha difusão nesse meio. Sennnor Ramos, que é da área de informação e tecnologia, se propôs a fazer um site pessoal para Cida Pedrosa e ela fez uma contraproposta para que ele fizesse um site coletivo, com o intuito de divulgar a poesia produzida em Pernambuco, principalmente a literatura dos jovens, invisíveis, excluídos, malditos, independentes, populares e os grandes autores esquecidos. O site foi para a rede em outubro de 2005 com poemas de Frei Caneca, Audálio Alves, Severino Filgueira, Arnaldo Tobias, Orley Mesquita, Almir Castro Barros, Celina de Holanda, Maria da Paz Ribeiro Dantas, Maria do Carmo Barreto Campelo, Lenilde Freitas, Waldemar Lopes, Louro, Dimas e Otacílio Batista, Jó Patriota, Cancão, Ascenso Ferreira, Tobias Barreto, Leandro Gomes de Barros, Helder Herik, Paulo Gervais, Chico Espinhara, Erickson Luna, Miró, França, Samuca, Odile Cantinho, Aline Andrade, dentre tantos outros que estrearam na internet pela via do Interpoética.

TC – O projeto Interpóetica surgiu com a proposta de abrir espaço para a publicação de poesia pernambucana. Considerando o contexto atual, que envolve a facilidade de publicação através de blogs e redes sociais, como vocês enxergam hoje a pertinência desse projeto? Que mudanças foram feitas em relação ao conteúdo do site ao longo dessa primeira década de atividades?

I – Digamos que a fase inicial foi de vertiginosa expansão e a partir de 2009 foi a fase de contabilizar e sistematizar o conteúdo. A partir de 2009 também passamos a contar com Raimundo na editoria (ele era colunista desde 2005) e isso trouxe também mais agilidade na editoração, pois o trabalho ficou dividido em três, e não mais em dupla. As entrevistas também tomaram um rumo mais amplo, e algumas tornaram-se memoráveis. A prosa foi incluída definitivamente como seção, assim como a seção de textos traduzidos. E reforçamos a linha editorial buscando os inéditos ou resgatando os autores esquecidos. Isso tudo, claro, passou por uma mudança de design da nossa página – três mudanças, ao todo. Agora a nossa principal meta é comemorar os nossos 10 anos com um layout mais enxuto, mais adequado às propostas atuais de acessibilidade e interação com outras mídias.

TC – O Interpoética se tornou o primeiro ponto de cultura virtual de Pernambuco. O que isso significou, que mudanças isso trouxe ao projeto?

I – Foi uma mudança radical para o bem e para o mal. De bem ganhamos a possibilidade de fortalecermos a nossa parceria e relação afetiva com a Biblioteca Comunitária de Caranguejo Tabaiares com a implementação de atividades de sensibilização para leitura e para a escrita do texto literário (lá realizamos recitais, encontros e belíssimas oficinas de poesia, cordel, memória, narrativas curtas…) e entregamos computadores, câmaras de vídeo e de fotografia, projetor etc, para incrementar as atividades da biblioteca. Alargamos nossas atividades para a comunidade de Brasília Teimosa com a biblioteca do Centro Escola Mangue e trabalhamos um pouco na Ilha de Deus, no Centro Saber Viver. De bom, também, a possibilidade de editarmos livros em formato papel e a reedição do Interpoética em 2010 com novo designer. De ruim a angústia de conviver com uma burocracia infernal que nos levou a nos dispersar, nos angustiar, a termos que bancar toda a estrutura com recursos nossos, pois os parcos recursos do MINC só podem ser investidos em atividades fim. Em virtude disso pedimos distrato do convênio com a Fundarpe/Ministério da Cultura em 2014 e voltamos a ser independentes.com.

TC – Em 2013, o Interpoética expandiu suas atividades para o conteúdo impresso, publicando livros como Miró até agora; Tempo nublado no céu da boca; Os de cá, com os de lá; Uma dose de lirismo; a coletânea Mosaico e a antologia poética Sub 21. Como foi essa migração?

I – O projeto do Ponto de Cultura nos permitiu isso. Existia uma rubrica (um numerário, uma grana específica) destinada exclusivamente a modestas publicações de autores locais. Com essa grana fizemos um malabarismo de orçamentos e outros milagres e finalmente conseguimos publicar alguns títulos. E o resultado final ficou bastante interessante.

TC – Existe uma linha editorial que guie as ações da editora Interpoética? Que tipo de livros a editora se propõe a publicar?

I – Temos muito interesse em publicar a nova literatura pernambucana e o critério é que seja de qualidade e que não tenha espaço em editoras tradicionais. Também, desde o início, sempre abrimos espaço para novos autores no acervo virtual do Interpoética. Esperamos que surjam novas parcerias para levarmos adiante nossos projetos na área de editoração e com isso ajudar um pouco a divulgar os novos talentos – que não são poucos.

TC – A publicação desses livros foi viabilizada através de emendas parlamentares do então deputado estadual, hoje vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira. Como se deu esse processo de negociação? Dada às dificuldades encontradas no Estado para a publicação, esse é um caminho viável para a publicação de livros?

I – Nós fomos procurados pela assessoria do então deputado estadual Luciano Siqueira, que já foi um colunista do Interpoética, sobre a vontade dele aportar a emenda para a publicação de livros de autores pernambucanos. Achamos muito bom, principalmente por ser uma atitude diferente; os deputados, normalmente, fazem emendas para shows bregas e bandas de incitação à violência. Quando a emenda saiu fizemos uma parceria com a Coordenadoria de Literatura da Secretaria de Cultura do Estado para publicarmos os livros e criarmos o Prêmio Pernambucano de Literatura. A primeira edição do prêmio foi bancada com os valores dessa emenda. Acho que foi uma experiência muito válida e gostaríamos muito que outros parlamentares fizessem o mesmo.

Ao todo, publicamos 10 livro. Com recursos próprios saíram miúdos de Cida Pedrosa (2011) e dizCrição de Miró (2012). Com recursos do Ponto de Cultura: Mosaico contos de Cícero Belmar, Cleyton Cabral, Gerusa Leal, Lucia Moura e Raimundo de Moraes (2013); Uma dose de lirismo de Kerlle de Magalhães (2013); Sub 21 – coletânea de poesia com André Monteiro, Bárbara Nunes, Clareira, David Henrique, Francisco Pedrosa, Gleison Nascimento, João Gomes, Luna Vitrolira, Penélope Araújo, Yago Santana e Zé Vitor (2013) e Os de cá, com os de lá de Jorge Filó (2012). Com recursos da emenda parlamentar apresentada pelo deputado estadual Luciano Siqueira foram: As filhas de Lilith de Ésio Rafael (2013); tempo nublado no céu da boca de Cleyton Cabral (2013); Ficção em Pernambuco de Pedro Américo de Farias (2013); Miró Até Agora com toda a obra do poeta Miró da Muribeca (2013); e O rio que não passa pesquisa feita por Alexandre Ramos, Cida Pedrosa, Inácio França e Tuca Siqueira e Sennor Ramos que percorreu o Rio Pajeú entrevistando poetas (2013).

TC – Com a experiência que vocês acumularam a frente do Interpoética, observando e vivenciando de perto a literatura em Pernambuco; que diferenças vocês veem na cena literária que havia em 2005 e a que a gente encontra hoje em 2015 – tanto em relação ao mercado como a produção artística?

I – Naquela época enquanto grupo tínhamos as Quartas Literárias de Silvana Menezes e o Eu poeta errante, de França, que faziam a festa da poesia em Olinda. Em Recife o Interpoética puxava o cordão. Depois surgiram muitos grupos, muita gente nova na poesia, muita gente nova na prosa, muito escritores já firmados foram premiados, as edições estão mais fáceis, e as mídias sociais se consolidaram definitivamente como opção de divulgação para autores estreantes e os já consagrados. É bom ressaltar também o surgimento, no Recife, de alguns grupos que se dedicaram à recitação. Infelizmente a maioria se extinguiu. Outro dado interessante, que vale ser dito, é a formação de grupos para estudo dos próprios autores em si. A antologia Mosaico, por exemplo, foi um produto dos encontros do grupo Autoajuda Literária, formado por Cícero Belmar, Cleyton Cabral, Gerusa Leal, Lucia Moura e Raimundo. Eles continuam a se reunir e o grupo esse ano completa quatro anos de existência. Presenciamos atualmente uma certa efervescência, mas também uma pulverização de propostas e possibilidades. E isso, só o tempo vai poder aquilatar. Por isso vamos continuar a publicar os bons e manter o nosso bordão: Interpoética, um site plural.

CRISTHIANO AGUIAR – O Interpoética está muito ligado à poesia, embora outros gêneros sejam contemplados no trabalho de vocês, claro. Gostaria que vocês compartilhassem conosco quem são os seus poetas de cabeceira.

SENNOR RAMOS – Augusto dos Anjos, Chico Pedrosa, Gregório de Matos, João Batista de Siqueira, João Cabral de Melo Neto, Leandro Gomes de Barros, Miró, Patativa do Assaré, Rogaciano Leite.

CIDA PEDROSA – Ferreira Gullar, a quem carinhosamente chamo de vovô. Ligo para ele convidando-o para participar das programações do SESC Pernambuco, só para ouvir sua voz, sabendo de antemão que ele não vai aceitar, pois não quer mais viajar de avião. Fico quieta, ouvindo-o falar, meu coração batendo, um alumbramento!

RAIMUNDO DE MORAES – Pra mim é difícil dizer, porque às vezes um poeta que me trazia um certo encantamento hoje não me inspira mais. Mas continuo a gostar de Ana Cristina César, Adília Lopes, Cecília Meireles, Eliot, Hilda Hilst, Alejandra Pizarnik, Gullar, Bandeira, alguma coisa de Drummond e Murilo Mendes.

CA – Gostaria que também pudessem falar um pouco sobre crítica literária: é algo que vocês costumam ler? Quais seriam os críticos e/ou livros de crítica importantes para vocês?

CP – Do ponto de vista formal e sistêmico (livros, teses, estudos etc.) leio muito pouco. Leio revistas como a Continente, O Pernambuco, Cult, jornais, blogs e revistas virtuais, hoje acho que isso deixa um buraco na minha formação. Em contrapartida devoro livros de poesia e prosa.

RM – Todas as minhas referências sobre crítica literária rementem aos ilustres do século passado, alguns já bateram as botas. Não tenho formação acadêmica, mas quando era mais jovem li alguma coisa de Antonio Cândido, Alfredo Bosi, Carpeaux, Pound (fiquei horrorizado depois quando soube suas preferências políticas), Merquior, Umberto Eco. Me aventurei no Cânone Ocidental, de Harold Bloom e nele parei. Nunca mais li crítica literária. Recentemente recebi um exemplar (para divulgação) de Poesia Brasileira Contemporânea, de Renato Rezende. Talvez eu leia ainda este ano, se sobrar tempo.

SR – Leio muitos livros de teoria, registros e histórias da poesia popular, não costumo ler tratados críticos de literatura.

CA – Por fim, que autores contemporâneos em Pernambuco ou em outros lugares vocês poderiam indicar para os nossos leitores, autores cuja obra vocês consideram que deveria ter mais atenção e leitores?

SR – Nesses 10 anos de andanças pelo Estado todo acredito que alguns poetas fora do circuito da capital precisam ser lidos e conhecidos, a exemplo de Arlindo Lopes, de São José do Egito que faz sonetos, cordéis e versos livres; David Henrique de Belo Jardim que passeia pela poesia curta, poesia rimada, metrificada e versos livres; Helder Herik de Garanhuns que faz uma poesia atualíssima e de fôlego; Philippe Wollney de Goiana que desconstrói a poesia e a prosa; e Virgílio Siqueira nascido em Ouricuri e residente em Petrolina cuja poesia precisa ser estudada.

CP – tem escritores que eu gosto muito e eu indicaria pelo menos uns 50 (vários premiados, editados, conhecidos, badalados), mas vou me ater a escritores que precisam ser mais lidos e vistos com urgência: Lenilde Freitas, Delmo Montenegro, Jussara Salasar, Wilson Araújo de Souza, Cícero Belmar, Almir Castro Barros, Raimundo de Moraes, meus queridos Alberto da Cunha Melo, Audálio Alves e Chico Espinhara. Minha amada Cecé, Celina de Holanda, que faz 100 anos no dia 18 de junho. E tem tantos mais, meu Deus! Uma ruma que precisavam ser lidos com voracidade.

RM – Há uma avalanche de novos títulos e novos autores, é quase impossível dar uma peneirada sem esquecer alguns nomes. Na poesia recomendo com muito entusiasmo Adília Lopes (grande poeta portuguesa, mas já encontrei professor universitário que nunca leu), Antônio Cícero, Horácio Costa, Jussara Salazar e Samarone Lima. Na prosa Adrienne Myrtes (seu livro A mulher e o cavalo é maravilhoso), Cícero Belmar, Índigo, Lula Falcão (gostei muito de Todo dia me atiro do térreo). Alguns poetas jovens estão resgatando um pouco a mise-en-scène e a oralidade daqueles agitados anos 1980, entre eles André Monteiro e Luna Vitrolira. E acho isso muito bom.

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