Entrevista com Cristhiano Aguiar

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Como parte da nossa estratégia de divulgação, fizemos uma entrevista com o escritor Cristhiano Aguiar sobre Trilogia da Febre, livro de contos que dá sequência à Coleção Solidária. Nessa conversa, o autor contextualiza o novo livro em relação à sua obra, explica o papel da ficção na tentativa de explicar o real, analisa seu interesse por narrativas de ação e fala sobre o desafio de voltar a escrever histórias sobre o Nordeste.


Como você contextualiza a Trilogia da Febre em relação à sua obra? Você considera que esse novo livro é uma continuação/aprofundamento daquilo que você já vinha experimentando em Na outra margem, o Leviatã? Ou você acha que ele representa uma ruptura, a escolha por um novo caminho?

CRISTHIANO AGUIAR | Recentemente uma leitora me disse que achava meus livros (não que sejam muitos) bem diferentes uns dos outros. Concordo, talvez porque eu admire criadores que se metamorfoseiam bastante. Saindo da literatura, eu admiro alguém como Kubrick, ou bandas como Blur, Radiohead, cantores como Bowie ou Caetano Veloso, justamente porque eles se reinventam bastante.

Trilogia da Febre é um projeto bem específico para a Vacatussa. Esse livro não existiria sem o convite da editora para participar da Coleção Solidária. O livro tem um tom, uma atmosfera, muito peculiar, uma tentativa minha de dar conta da crise que vivemos atualmente. O e-book possui três contos, cada um deles retirado de um projeto de livro no qual estive trabalhando nos últimos três anos e meio. Acho que meu estilo continua o mesmo, mas há algumas diferenças fundamentais em relação ao livro anterior: eu abraço bastante o fantástico, volto, depois de anos, a escrever sobre o Nordeste… Por fim, acho que Na outra margem, o Leviatã é um livro bem intimista, “de dentro pra fora”. Já Trilogia da Febre – assim como meu próximo livro, que devo publicar em 2021 – é um projeto “de fora pra dentro”, ou seja, meus personagens têm uma influência mais ativa no confronto com o mundo que os cerca.

O que costura os contos num conjunto é a ideia da febre, que é trabalhada de diversas formas, representando um certo mal que ronda os personagens. O que seria essa febre?

CRISTHIANO AGUIAR | Desde o momento em que a Vacatussa veio falar comigo, pensei nessa palavra, “febre”, como o conceito principal. Eu sempre trabalho dessa maneira, criando algum conceito, alguma ideia que amarra as narrativas. A febre em Trilogia da Febre tem uma conotação ligada à ideia da doença, sem dúvidas, porque os dois primeiros contos do livro possuem alegorias sobre contaminação, isolamento social, pandemia, medicina (às vezes, uma medicina fake). Não é um livro sobre a COVID-19, não conseguiria fazer isso de maneira eficaz, mas é um livro sobre nossa época de pandemia. A febre também é uma imagem para o delírio, que pode ser existencial, religioso, político. Esse aspecto do delírio, da loucura, me fascina e pode conectar Na outra margem, o Leviatã com Trilogia da Febre. Nós vivemos esse estado de crise permanente no Brasil, como se fosse uma febre crônica. Ao longo dos três contos, mas em especial no último, chamado de Firestarter, eu ponho as narrativas em diálogo com esse segundo tipo de crise. Posso te dizer, com muita sinceridade, que há um exorcismo existencial com esse Trilogia da Febre, porque tentei falar sobre temas que tem mexido comigo a partir de um ponto de partida no qual me sinto com as mãos atadas. Mas eu tentei, por outro lado, tomar o máximo de cuidado para que as narrativas tivessem vida própria, sem que precisem do contexto atual no qual vivemos para ser apreciadas pelos seus possíveis leitores.

Nessa trilogia, as narrativas têm movimento, elas se desenrolam durante cenas de ação, com ritmo, tensão, clímax, anticlímax. E ao mesmo tempo, os contos revelam reflexões, questionamentos e críticas. Como equilibrar isso? Como você enxerga o papel da ação nesses contos?

CRISTHIANO AGUIAR | Como disse na primeira resposta, Trilogia da Febre, assim como meu próximo livro, é um passo na direção de uma narrativa mais marcada pela ação, pelo desdobramento de um enredo, até mesmo por um senso de aventura. O que acontece comigo é o seguinte: eu tenho uma formação que se alimentou muito de obras pautadas por experimentalismos da linguagem, introspecção psicológica, denúncia social engajada, realismo. Mas tenho também profunda admiração por formas mais populares de contar histórias, em especial as histórias em quadrinhos e a poesia de cordel, assim como por narrativas arcaicas, como a Bíblia e a poesia homérica, muitas vezes distantes das culturas moderna e contemporânea. Durante anos tentei sufocar isso, mas agora quero buscar um maior equilíbrio.

Em Na outra margem, o Leviatã havia um ou outro conto que buscava esse equilíbrio, mas a partir de agora tento aprofundar isso. Descobri, inclusive, um prazer recente em fazer cenas de ação, ou de construir uma tensão do suspense, coisas que não praticava desde a época da minha adolescência. Mas não acho que a ação seja suficiente. Eu gosto, por isso pratico, de literatura reflexiva, analítica, que propõe um mergulho nas personagens e na linguagem. Tem esses dois narradores que curto construir, um deles, em primeira pessoa, é sempre meio louco e não muito confiável; o outro, em primeira ou terceira, tem uma visão irônica de tudo e narra com uma lupa na mão.

Nos contos você usa elementos do horror e da ficção científica, mas o mundo que você descreve, ainda que em diferentes épocas, acaba falando sobre o nosso mundo atual. Queria que você falasse sobre a função narrativa desses elementos irreais, de imaginação, como forma de abordagem para tratar temas da nossa vida cotidiano.

CRISTHIANO AGUIAR | A imaginação é minha forma de escapar do realismo. Eu amo narrativas realistas, acho que o realismo moderno é uma conquista fundamental para a literatura, mas existem alguns becos sem saída para mim quando eu percorro demais esse caminho. A imaginação e o fantástico geralmente foram uma forma de acrescentar um tempero nos meus contos, porém com Trilogia da Febre eu abraço o fantástico com mais vigor e acho que não o solto mais. O meu fantástico não é tanto o de Kafka, ou o de Borges, mas o fantástico pulp do horror, da fantasia e da ficção científica, em primeiro lugar, e o fantástico nebuloso, cheio de sombras e culpas veladas, de um Poe ou Hoffmann. O sensacionalismo, o folhetinesco, tenho adorado pegar algum ingrediente daí e misturar com outras referências. O horror e a ficção científica são para mim uma ferramenta que acentua o que quero dizer com meus contos, ambos dão um polimento às imagens que construo e às minhas obsessões.

Entre autores do Nordeste sempre pesa uma sombra de ter sua obra classificada como regionalista. E nos contos da Trilogia da Febre você enfrenta isso, com referência a símbolos como o cangaço e paisagens (sertaneja, do engenho), ainda que de uma forma diferente, que procura atualizar esses símbolos. Esse rótulo de regionalista te preocupa? O que te fez encarar esse desafio agora?

CRISTHIANO AGUIAR | Eu desencanei totalmente disso, embora na verdade não lembre de ter sido chamado de regionalista antes. Quando, por exemplo, meu conto Teresa saiu na antologia da Granta, em 2012, as críticas a ele nem foram tanto de regionalismo (boa parte do conto se passa no agreste pernambucano), mas de diluição do realismo maravilhoso… Recentemente entrevistei Josélia Aguiar e ela me apontou algo importante, o quanto certa crítica, em especial do Sudeste, olhava escritores e escritoras nordestinos que escreviam sobre o mundo rural e as cidades pequenas e tentavam rebaixá-los com o rótulo de “regionalismo”. Havia em nossa crítica uma ideia de que escritores que falavam sobre o espaço social do interior do Brasil faziam parte de uma etapa “subdesenvolvida” da nossa literatura, a ser superada por um suposto “cosmopolitismo” da vida urbana “universal”, universalidade esta que por um milagre coincide com Rio de Janeiro e/ou São Paulo ou, sei lá, Nova Iorque.

Se por regionalista você entende um projeto ideológico de construção de uma identidade nordestina, fechada, celebratória, não me vejo assim. Mas se alguém quiser chamar de “regionalistas” meus três contos de Trilogia da Febre, por se passarem na zona rural e em cidades pequenas, não vejo problema.

Eu voltei ao Nordeste primeiro porque sou do interior da Paraíba e, embora tenha vivido em tantos outros lugares, Campina Grande e Recife serão sempre minhas bússolas. E para fazer algo diferente do que foi Na outra margem, o Leviatã, um livro muito impactado pela minha mudança de Recife para São Paulo. Agora, tenho sentido vontade de voltar para casa.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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