Entrevista com Diogo Guedes sobre o selo CepeHQ

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Entrevista com o jornalista Diogo Guedes, que assumiu a função de editor na Cepe. Nesta conversa, gravada em fevereiro de 2020, ele fala sobre o CepeHQ: o surgimento do selo voltado à publicação dos quadrinhos, as especificidades de se trabalhar com o gênero e as intenções que a editora tem com a nona arte.


Queria que tu falasse sobre o surgimento do selo CepeHQ, que surgiu no fim de 2019 com o lançamento de dois títulos: O obscuro fichário dos artistas mundanos, organizado por Clarice Hoffman e Polinização, de Julio Cavani e Cavani Rosas.

DIOGO GUEDES | Entrei na Cepe logo que o projeto do selo CepeHQ já estava encaminhado. Eu finalizei esses livros, mas eles foram editados pelo editor anterior, Wellington (de Melo). Foi um nicho, acho que nicho não é nem bem a palavra porque quadrinhos já ultrapassou isso, é uma linguagem que há muito tempo a Cepe já começava a observar, já tinha uma relação com isso através dos quadrinhos na Revista Continente, resenhas, matérias sobre isso, já tinha até um quadrinho publicado antes, que é sobre o 1817; mas que nesse momento viu que tinha uma geração de quadrinistas, um certo talento que Pernambuco sempre teve, mas que agora estava se precisando de um meio pra dar margem a essa produção, como também uma vontade (da Cepe) de participar disso, não só de receber essas produções, mas de propor coisas. Acho que Pernambuco sempre teve isso, desde Aloisio Magalhães, o pessoal que fazia arte gráfica editorial, o pessoal sempre teve um grande talento, sempre foi um grande expoente na arte gráfica do Brasil e os quadrinhos sempre estiveram muito próximo disso. José Cláudio já tinha feito pra Hermilo (Borba Filho) umas coisas, publicamos isso agora no Agá, e outros exemplos que vinham fazendo isso de forma independente, como a própria Ragú, o pessoal fazendo a Plaf… e a Cepe viu esse contexto e decidiu trazer o padrão editorial da Cepe, de qualidade gráfica, e pegar essa cena que já acontece de certa forma.

A ideia é que fique só em graphic novels, narrativas mais longas, com histórias mais profundas, ou abrir para tirinhas, ou outros gêneros dentro da linguagem dos quadrinhos?

DIOGO GUEDES | O foco principal são livros. A gente não está pensando em publicações muito curtas. A princípio, não veio nenhuma ideia de fazer tiras, mas não é uma coisa que está fechada necessariamente. O que a gente pensa é que a coisa precisa ter uma substância editorial, uma coletânea de autores, que precisa ter um caminho, a preocupação com a ideia. A gente tem espaço para publicações mais curtas, mas a ideia é pensar em publicações que sejam mais livro, obras mais longas.

No caso, os dois títulos lançados já existiam. O obscuro fichário dos artistas mundanos veio de um projeto do Funcultura e o Polinização também era um projeto que já existia, e eles foram apresentados para Cepe para fins de publicação. Existe a possibilidade também de vocês verem só o argumento ou o roteiro, para que o pessoal apresente e, a partir daí, surgir a publicação, acompanhar mesmo o processo de feitura e mesmo de financiar essa parte, considerando que esse trabalho da arte demanda muito tempo e dedicação?

DIOGO GUEDES | O quadrinho tem essa singularidade mesmo. Na produção às vezes é separado, mas às vezes é o próprio roteirista que desenha. É um processo que demanda muito da pessoa, é mais de uma ilustração por página. A ideia da Cepe é trabalhar com material que chega também. Em Polinização a gente, de certa forma, também trabalhou na produção. Era um argumento que já existia, eram desenhos que já existiam, mas a gente já estava trabalhando com eles há muito tempo. Teve coisas que foram produzidas a partir desse diálogo. N’O obscuro fichário…, já tinha um projeto, mas a gente também entrou, a parceria com a Cepe permitiu ampliar. É até mais viável pra editora, tanto em questão de prazo como economicamente, publicar coisas que já estejam sendo feitas. Mas a ideia é não só trabalhar com coisas propostas, mas também propor coisas, pensar pessoas, ideias, encaixar e fazer quadrinhos a partir disso. É um pouco como a parte de livros, há casos que a gente encomenda uma biografia, por exemplo, em outros o livro chega pronto via Conselho (Editorial), há casos em que o livro chega pronto, mas tem umas imagens (que não funcionam)… Enfim, cada caso, vai seguindo sua questão.

Com relação à experiência de trabalhar com quadrinhos, é diferente nesse trabalho editorial em relação ao de livro de texto? E, se for diferente, o que é que muda?

DIOGO GUEDES | Particularmente, quando cheguei a Cepe e vi que tinha um selo de quadrinhos, fiquei muito feliz, porque eu sou um leitor de quadrinhos. Eu gosto muito. Por ter trabalhado na área de literatura, tinha até me afastado do gênero. Talvez, quando comecei na faculdade, eu estivesse mais focado em quadrinhos.

A sua dissertação de mestrado é sobre Laerte.

DIOGO GUEDES | Isso, exatamente. E aí fiquei muito feliz com a possibilidade de trabalhar com o selo na Cepe. A edição de quadrinhos tem demandas bem específicas, demandas até técnicas, como a questão do tratamento de imagens. Até revisão é algo complexo, mudar coisas que tem letreamento manual, como no caso de Polinização, a revisão vira quase um quebra-cabeça. O autor tem que fazer de novo, cobrir o que tem no balão. Às vezes a revisão mexe uma besteira, um acento, mas era uma coisa que estava no próprio desenho, um cartaz, por exemplo. É uma parte bem desafiadora, mas divertida também.  Pode ser com o artista, ou às vezes no tratamento de imagem. E tem a questão do duplo olhar também, primeiro você olha o argumento/roteiro, que pode estar até mais elaborado; e depois olha como aquilo está sendo transformado. Tem como se fosse uma outra etapa em relação a uma obra escrita, onde você intervém só num momento.

Como tem sido a recepção dos títulos já lançados? Isso já atingiu o pessoal que tem trabalhado com quadrinhos? Eles já estão procurando vocês? Como anda esse diálogo?

DIOGO GUEDES | Quando lançamos o selo CepeHQ, com lançamento tanto aqui como em São Paulo, a gente teve uma recepção legal, teve uma procura do pessoal tanto pessoalmente, mas depois por e-mail, com propostas, sugestões. Foi uma forma de apresentar a Cepe, que por algum motivo as pessoas não a viam como editora de quadrinhos, dizer que estamos editando quadrinhos e (que nos) procurem. Estamos tendo até um diálogo, não só com pessoas que produzem quadrinhos, desenhando; mas militando na área. Tem o pessoal da Ragú, da Plaf. Temos tido conversas, porque tem tido um mapeamento da produção que é muito interessante também. Acho que ainda tem um gargalo constante pra uma editora que atua no Nordeste, mesmo uma editora de médio porte, talvez até mais que isso, considerando a quantidade de títulos que a Cepe publica, que é um volume considerável pra uma editora no Brasil. Mas tem o gargalo de circular mais por outros cantos. É uma coisa mais lenta de se trabalhar, nem de circular, porque a gente está nas livrarias, mas de chegar aos críticos de quadrinhos, lojas de quadrinhos, que começamos essa negociação. Mas está caminhando bem, espero que este ano seja a consolidação dos projetos da CepeHQ, que a gente tenha novidades e que se espalhe mais.

Tem algum título que estão trabalhando? Se puder revelar…

DIOGO GUEDES | Têm títulos, a gente está trabalhando, mas é aquela coisa, como ainda não tem um contrato assinado, prefiro não revelar. Pra este ano, possivelmente serão mais dois títulos pro selo CepeHQ.  E a ideia é neste ano produzir mais coisas para que, nos anos seguintes, saia até um volume maior do que isso.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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