Entrevista com Diogo M. de Almeida

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Como parte da nossa estratégia de divulgação, fizemos uma entrevista com o escritor Diogo M. de Almeida sobre Restos de Família, livro de contos que inaugura a Coleção Solidária. Nesse bate-papo, o autor fala sobre suas referências literárias, contextualiza o novo livro em relação à sua trajetória, explica seu interesse pelo tema da família e comenta suas experiências de publicação em redes sociais e autopublicação.


Pra começar, seria bom você contextualizar a produção dos contos reunidos em Restos de Família. Quando você os escreveu? Por que a opção de publicá-los em redes sociais? Qual a repercussão dessa experiência?

DIOGO M. DE ALMEIDA | Escrevo há muitos anos, mas só comecei a publicar os textos no Facebook a partir de 2018. Tenho um blog no Blogger, tentei manter uma página no Medium, mas nessas plataformas sempre me senti afastado de potenciais leitores. Ali reina uma espécie de “pega-pra-capar” literário, os likes parecem ser mais valorizados do que a qualidade do texto e das ideias. Então, escolhi publicar exclusivamente em meu perfil pessoal no Facebook. Apesar do público ser bem menor, o retorno é mais imediato e o contato com o leitor, mais estreito. E isso também me força a publicar quase todo dia, como se fosse uma coluna de jornal de mentirinha.

A repercussão tem sido boa, alguns amigos elogiaram os textos, mesmo que não tenham lido. Não faço distinção entre elogio de quem lê e quem não lê, gosto de qualquer jeito. Outros disseram que eu deveria tentar voos mais altos. Mas sou mais um escritor “de fim de semana”, preguiçoso, então penso em ficar nos meus continhos curtos, mesmo. Já tentei começar dezenas de romances, mas enjoo depois de 15 páginas, então é nos contos onde me encontro.

Algo mudou entre a versão publicada nas redes sociais e a que entrou no livro?

DIOGO M. DE ALMEIDA | Muito pouco. Foram retiradas algumas menções a fatos “do momento”, a produtos, etc., para tornar o texto mais atemporal e evitar processos por direitos autorais. Não tenho direito nem para ganhar um processo, que dirá perder. É meio clichê dizer isso, mas a qualidade do texto independe do meio, ele vai ser bom ou ruim, não importa se publicado na Internet ou em livro. Por isso, não fiz muitas alterações.

O que te atrai no tema da família?

DIOGO M. DE ALMEIDA | A família é o começo de tudo. Trata-se do lugar afetivo onde você dá seus primeiros passos, começa a apreender o mundo, a se expressar. Para o bem e para o mal. E não estou falando apenas da família biológica, mas também da família estendida que você vai construindo ao longo da vida, os amigos, relacionamentos amorosos, etc. Existe um repositório inesgotável de histórias esperando para serem contadas sobre o seio da família. Os textos de Nelson Rodrigues, Raduan Nassar, Clarice Lispector e Luis Fernando Verissimo mostram isso muito bem. A família é o primeiro lugar onde você encontra o paraíso e o inferno, às vezes simultaneamente. Gosto de pegar as peculiaridades que você encontra em toda família e esticá-las, distorcê-las, até transformá-las em algo bizarro, mas com o qual você pode se identificar.

Restos de Família é o seu segundo livro. Como você avalia a experiência/repercussão com o Eu ando só, publicado em 2012? É possível estabelecer relações (temáticas, de forma, gênero) entre eles?

DIOGO M. DE ALMEIDA | Eu ando só não teve repercussão nenhuma, foi uma experiência que fiz em autopublicação na Amazon. Acho que arrecadou uns R$ 0,10 em direitos autorais, deu pra comprar um chiclete. Não me arrependo, foi bom tirar aqueles treze contos do meu sistema, apesar de que, relendo-os, eu mudaria um monte de coisas. Acho que, de lá pra cá, comecei a tratar o texto com mais cuidado. Mas no Eu ando só tem alguns temas interessantes, como o tempo circular, a obsessão, o insólito, a perversidade, que também estão presentes no Restos de Família. A frase curta, do Rubem Fonseca, do Nelson Rodrigues, estão lá também. No primeiro livro, são contos mais longos. Acho que, ao longo do tempo, fui dando uma enxugada, tentando reter o essencial. A vida é uma grande escola, né.

No livro encontramos elementos de diferentes vertentes literárias, do horror, da ficção científica, da fantasia. Queria que você explicasse como se dá essa escolha? Ela tem a ver com o tema a ser trabalhado?

DIOGO M. DE ALMEIDA | A escolha vem naturalmente, não é só com o tema da família. Eu não tenho a menor condição de escrever grande sobre as coisas pequenas da vida, como Rubem Braga ou Drummond, que tiravam poesia de um raio de sol, de uma venda de passarinho. Quando eu tento escrever sobre um namoro inocente, dali a pouco me vêem ideias de assassinatos, invasão de alienígenas, de “body horror”, tipo, cresce um braço no lugar da perna e coisas assim. Isso tem a ver com minha “dieta” cultural desde pequeno, com filmes de ação e terror dos anos 80, filmes dos dois Davids (Lynch e Cronenberg), livros de ficção científica de Philip K. Dick e Asimov, contos de terror de Poe, mas adaptados pra o contexto brasileiro, comezinho, das pracinhas de Fernando Sabino, das intrigas de classe média suburbana do Nelson Rodrigues. Gosto de enxertar o insólito em tudo. Acho que não tenho paciência para a realidade.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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