Entrevista com Helder Herik, sobre O menino mais estranho do mundo

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Entrevista com o escritor Helder Herik. Em bate-papo, ele fala sobre o seu primeiro livro infantil O menino mais estranho do mundo, publicado pela Cepe em outubro de 2019. Com o livro, ele conquistou o IV Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria infanto-juvenil. Nesta entrevista, ele fala sobre o processo de construção do livro, contextualiza o livro em sua obra, relembra a infância com os avós, fala da experiência de ser pai e aborda a dificuldade que ele teve ao escrever para o público infantil. A entrevista foi realizada no dia 3 de março de 2020, uma semana antes do início do isolamento social.


O menino mais estranho do mundo é o seu primeiro livro infantil, mas de certa forma você já vinha explorando esse universo, essa estratégia de enxergar o mundo pela perspectiva infantil em livros anteriores, como A invenção dos avós e Rinoceronte dromedário, por exemplo. Queria que tu falasse sobre essa tua trajetória, teu interesse pelo universo de livros infantis. Embora os outros não sejam infantis, eles têm uma perspectiva, um olhar infantil pra descrever o mundo, a inocência.

HELDER HERIK | Quem me alertou sobre isso foi uma professora, lá na faculdade, chamada Giselda, numa apresentação de trabalho. Eu apresentei o trabalho e, quando terminou, ela pediu atenção de todo mundo e disse: “vocês viram o que Helder fez?”. E eu: “o que é que eu fiz de errado?”. E ela foi falando: “Helder tem um jeito, uma fala que ilustra muito pra criança, a fala dele é muito esclarecedora”. Naquele momento eu não estava compreendendo, achava que era uma crítica dela, que ela achava meu trabalho infantil e que não alcançava um nível acadêmico da universidade. Depois, os amigoS disseram: “tu visse o elogio que a professora te fez?”, e eu: “qual?”. Aí eles disseram: “ela falou que tu tem uma habilidade de ilustrar, de falar pra criança”. Aquilo ficou na minha cabeça. Na mesma noite, quando cheguei em casa, comecei a rabiscar alguma coisa, que seria um livro sobre jabutis, jabutizinhos que perdem a mãe e saem pra procurar a mãe. E nunca fui adiante. Quer dizer, ele tinha umas 60 páginas e aí desisti, pela questão da linguagem. Se tem uma coisa que é difícil, é escrever pra criança. Porque eu fui na ilusão da professora, que eu conseguiria, e não consegui. Desde a faculdade que venho tentando escrever pra criança. Por que eu não consigo? Porque ora fica um coisa muito didática, subestimando a inteligência da criança e criança não é boba, criança é inteligente. Só que se criança não é boba, eu quero fazer uma coisa mais inteligente, só que esse elevado já foge do universo da criança. Aí até eu acertar a mão… eu só consegui de fato nesse livro aqui. Mas você está certo, nos outros livros já ensaio alguma coisa até pela linguagem e pela temática, sobretudo pela temática, porque sempre tem algo relacionando aos avós e alguma coisa da infância e sempre tem uma fala inocente, de alguém que está descobrindo o mundo, descortinando, de alguém que não entende. E eu faço questão, tanto no livro infantil como nos demais livros, que essa minha visão de mundo seja de quem está tentando entender. Eu nunca quero ter a visão de quem sabe, porque quando sei de alguma coisa, me desinteresso por ela. Eu quero é a visão de quem está enxergando agora pela primeira vez.

A gente falou um pouco da A invenção dos avós e nesse livro encontrei pelo menos dois links que remetem a O menino mais estranho do mundo. Logo no início, o poema que inicia essa parte diz que o avô deu um sapo ao menino para que ele o adestrasse. Tem também a história da mágica de juntar as orelhas e elas voarem como borboletas, que você reaproveita. Isso já era  um embrião? Isso de fato é uma memória que aconteceu com você?

HELDER HERIK | Minha relação com meus avós é muito forte. E ela até lembra o Gabriel García Márquez, que tinha essa coisa com os avós. É porque é assim, pequeno, eu perdi meus pais, aí fui criado pelos avós. E depois eu perdi os avós. Eu saí perdendo referências. De modo que, o período mais confortável, dinâmico, mais engraçado da minha vida é a infância. Então em todo livro eu resgato a infância. Nesse livro aqui, As plantas crescem latindo, tem coisas que casam com o que está no livro Rinoceronte Dromedário. E tem coisas de Rinoceronte Dromedário (que caso com coisas) aqui (O menino mais estranho do mundo), e tem coisas d’A invenção dos avós que saí colocando aqui (O menino mais estranho do mundo). São pedacinhos, né? Eu fui criando esse link pra fazer esse apanhado. Até então, pra fazer esse livro, eu não tinha a noção se ele seria em prosa ou em poesia. Aí eu: “não, eu não sou prosador, sou poeta”. Fui pegando essas poesias pra criar, ir construindo. Se você analisar direitinho, há sempre uma conversa, uma ligação de um com o outro. No princípio, eu achei que era muita cafajestagem minha, porque eu estava transcrevendo. Só que percebi que, no que você vai pegando, já são fragmentos desse livro que estão aqui, que já estava nos outros. Então peguei, separei, coloquei e acrescentei esse menino estranho. O menino estranho já estava fragmentado, distribuído nos outros livros. Aí vieram pra esse. Mas tenho essa coisa: “será que é certo?”. Mas os escritores dizem isso, né? Que ficam escrevendo o mesmo livro, o mesmo tema. E eu percebo assim, meu primeiro livro foi sobre a morte, reflexões sobre a morte. Os outros são sempre sobre infância, ou infância ou morte. Tem sempre esses dois temas, ou infância, ou morte, o princípio e o fim.

E tem alguma coisa que seja da tua infância mesmo? Algo que você usa nesses livros?

HELDER HERIK | Tem, agora é a minha infância revisitada e pincelada. Não é literal, é só uma fagulha que me permite criar outras coisa em cima. Eu até tenho um cuidado para que não fique muita invencionice. Que tenha um pouco de invenção, claro, de trato literário, mas que tenha um pouco de realidade também. Porque seria muito fácil só inventar, sabe? Eu procuro que tenha referências, mas que seja uma criação também, pra não ser só uma transcrição da memória, como diria Manoel de Barros, é uma memória reinventada.

Manoel de Barros chega a ser uma referência pra você? Porque ele tem muito disso, do olhar da criança e tentar explicar uma coisa que parece ser óbvia, de uma perspectiva de criança, criando uma poesia, um novo mundo, inclusive criando novas palavras, como passarinhar.

HELDER HERIK | Antes da Cepe, cheguei a conversas com outras editoras fora de Recife, de São Paulo. E esses editores se interessaram pelo projeto e chegaram a sugerir várias modificações. Essas modificações foram incorporadas, agradeço a eles. Mas quando mostrei a eles já estava pronto, bastante avançado. Já tinha um livro pronto pra ser lançado. Quando chegou na Cepe, já tinha não só o livro pronto, mas alterações que eu fiz por sugestões desses editores e de amigos pra quem mostrei. E as modificações que a Cepe sugeriu foram muito mais de gramática, coisas de texto, de revisão ortográfica, do que de conteúdo mesmo, de ação. A gente não precisou mexer muito nos desenhos, não. Quase nada.

Como foi trabalhar com teu pai? Eu lembro que você editou uns quadrinhos dele, ainda pela Livrinho do Papel Finíssimo, mas eram histórias que estavam prontas, já haviam sido publicadas. Como foi esse processo de elaboração? Houve diálogo, alguma coisa que você mexeu por sugestão dele, ou o contrário também?

HELDER HERIK | Duas referências que eu tenho é Manoel de Barros, principalmente em A invenção dos avós, e é uma influência, e interferência, que eu tive até de me livrar. Porque eu percebi que estava literalmente copiando, não é assim. Tem algumas passagens que eu via como cópia, vale como exercício, mas não era o Helder. É sempre assim, né? No começo sempre tem uma referência. Então tem essa referência dele, de quem sabe o que é o mundo, que quer aprender, inventa palavras e não respeita as regras, nem as gramáticas. E tem também a minha avó, que foi a pessoa mais sábia do mundo, embora fosse analfabeta, mal sabia escrever o nome, a mão tremia e tal. Mas era uma pessoa que a fala dela era poesia. Eu tinha um caderno. A noite, a gente conversando, e ela falava alguma coisa e eu corria pro caderno e escrevia, porque era poesia pura. Eu pensava assim, um dia vou publicar isso aqui, digo que é meu, mas era da minha avó. Tem muita coisa aqui em As plantas crescem latindo dessa referência da minha avó. Esse caderno se perde, mas o que acontece? Quando estou escrevendo, que eu engancho, penso assim: como é que minha avó diria isso? E a minha avó era uma  Gabriel García Márquez de Garanhuns, ela dizia que levava coices de pulga. Quando a água chegava, que dava pra ouvir pelos canos, ela dizia que a água vinha galopando. Aí eu ficava pensando, como é que ela diz isso? Analfabeta e tal. Eu aprendi com minha avó que poesia não é erudição, é imagens, criar imagens. Coice de pulga, isso não é intelectual, isso é imagético. Então poesia é criar imagens, é a imaginação. Em Manoel de Barros tem muito disso. Outra referência, João Cabral (de Melo Neto), já numa poesia mais dura, mais sólida, mas a poesia de João Cabral é visual, totalmente visual, a cabra, o ovo. Aí fui percebendo isso, minha obra não será construída por erudição, até porque eu não tenho essa erudição, o conhecimento que eu tenho de poesia é mais pelo cheiro, pelo faro, de que alguém que está feito uma traça nos estudos. Não que eu não estude, sou professor de literatura. Mas a ideia é assim, quando faço poesia, tiro tudo o que é erudição. Não quero poesia erudita, puxando pra filosofia. Quero criar esse mundo da imagem, até porque tenho dislexia. Tenho essa coisa de não entender palavras que não geram imagem. Quando a palavra gera imagem, eu seguro ela pelo rabo e vou adiante.

Isso, de certa forma, está n’O menino mais estranho do mundo e a dislexia já é tema de outros livros seus, está no Rinoceronte Dromedário, n’A invenção dos avós, onde você troca as letras lá, e aqui tem a questão das letras que são formigas e caminham, e isso está representado como uma imagem.

HELDER HERIK |Eu procuro criar a seguinte imagem. Para mim, o livro é como se fosse um formigueiro e cada letra é uma formiguinha. Então a ideia é mais ou menos essa, livro não deixa de ser um formigueiro. E por que formiga, por que essa imagem? Eu só aprendi a ler com 12 anos, por causa da dislexia. Eu tinha essa dificuldade, como se as letras estivessem caminhando. Como se elas se locomovessem, como se fossem formiguinhas mesmo, que sai de uma lado pro outro e você tem que forçar a vista pra ver se consegue ler. Aí dessa imagem, da formiga caminhando, formando as palavras, é que veio a ideia do livro ser o formigueiro.

Essa experiência agora, de ser pai da pequena Laura Beatriz e já na expectativa pela chegada do próximo filho, tem ajudado ou atrapalhado na criação das histórias? Já tem coisa nova na fila?

HELDER HERIK |

Até então toda a criação literária veio sem a experiência do ser pai. Veio da criança que eu fui. Mas enxergo agora, da minha filha, um pouco do que eu fui. Tem hora, um momento ou outro, que eu me desligo, me desconecto do nada, até dirigindo. Vou confessar aqui, já atropelei um mototaxista, eu me desligo. Não foi nada grave, não. Inclusive era um mototaxista que pegava quando não tinha grana, não tinha carro. E eu percebo que a Laura, foi não foi, entra no mundinho dela, e aí percebo: “sou eu”. Isso aqui da sobrancelha de Laura parece muito comigo, a sobrancelha fica pesada e eu me vejo. Olho pra Laura e me imagino. E já tem um livro que é inspirado em Laura, as observações de quem é Laura. É como se me reencontrasse, ela me faz reencontrar com a infância. Se tivesse um botão aqui, que você pudesse escolher seguir pra frente ou voltar pra infância, antes de Laura nascer, eu apertaria o botão pra voltar pra infância, porque meus heróis, minhas referências, meus pais, todo mundo que estava vivo, que me cuidava, estava na infância. Só que, com o nascimento de Laura, e desse outro ou dessa outra criancinha que vem aí, eu não quero mais voltar, quero acompanhar o desenvolvimento de Laura. Eu quero ser pai agora, sou pai. Eu tenho esse apego muito forte, mas agora não preciso voltar na memória, porque posso enxergar em Laura essa infância.

Além de pai, você é professor de literatura e de filosofia, dá aulas em cursinhos pré-vestibular e colégios. Esse contato com adolescentes te ajuda como escritor?

HELDER HERIK | Eu dou aula a alunos que alguns já me conhecem de livros, porque são aqueles que já gostam de livros. Mas, em termos percentuais, é um público muito pequeno. Mas tem o aluno que não gosta de livro, mas gosta do professor. E, por gostar do professor, passa a gostar do livro. Você vai conquistando. Agora assim, não é lá uma grande conquista, é um ou outro perdido. Mas me alegra, me envaidece quando entro na sala e o aluno está com um livro meu, fica olhando pra mim, mostra o livro e eu vou lá, dou uma palavrinha com ele. Isso me envaidece muito. Essa relação de dar aulas pro aluno gostar de literatura acontece da seguinte forma, eu procuro sempre nas aulas ser o menos erudito e o mais popular. Eu gosto da erudição, mas acho que, pra literatura, você precisa ser popular, adaptar sua fala pra que o jovem identifique e pegue ali alguma coisa que é sua referência. Então estou sempre tentando fazer um link com a realidade, com o atual, uma série, um filme, uma discussão, sempre fazendo esse link. Acho que a aula fica, de certa forma, atrativa, divertida. Eu procuro sempre fazer a alegria dos meninos e acontece. Agora eu percebo que, enquanto professor, se eu não fizer o link da literatura com a realidade, ela fica chata. Ela  pode ficar interessante pra mim, como eu fiz, eu já dei aula que eu achei “nossa, que coisa”, mas pro aluno não, ele não estava entendendo. Agora faço com que os dois se divirtam, trazendo essa ilustração. De vez em quando uso um poema meu pra ilustrar, eles perguntam como tive essa ideia e tal. A experiência de professor ao longo dos anos me mostra que você tem que adaptar a fala, não rebaixar, à realidade do aluno. Aliás, é tudo né? Você estudar uma coisa que não tem link e nem relação nenhuma com sua vida, que negócio mais sem sentido.

Entrando mais n’O menino mais estranho do mundo. Ele ganhou o Prêmio Cepe Nacional de Literatura de 2018. Essa é uma história que você já tinha escrita ou veio naquele esquema de escrita meio na correria, por conta do estímulo e do desafio do prazo do Prêmio Cepe?

HELDER HERIK | O que eu tinha era o seguinte, eu tinha alguns poemas, mas que não dava a quantidade de páginas. E quando passei a ler, aí que não deu mesmo, porque saí tirando muita coisa. Então fiz esse livro pro prêmio, sempre lembrando as referências dos outros livros. Mas eu tinha, acho que mais dois livros pra criança, só que sempre me batendo naquela coisa: essa linguagem é pra criança? Helder acha que era pra criança, os outros livros inclusive são em prosa, estou sempre revisitando esses livros, sempre alterando e cada alteração acho que melhora, mas quando volto, acho que está pior. Mas acho que é o meu futuro, tenho essa pegada. Não vou deixar de escrever pra adulto, de forma alguma, só que escrever pra adulto não exclui escrever pra criança. Tem essa ligação. Uma senhora disse pra mim que a neta estava lendo meu livro, que era As plantas crescem latindo. Isso me deixa alegre, porque mostra que alcança as pessoas. Mas eu penso que  minha pegada agora vai ser escrever pra criança. Mas é sempre isso, não conseguir, não ter acertado a mão na linguagem. Mas eu gosto disso, da busca. Quando você acha a fórmula, você se acomoda. Quem me chamou a atenção também, com o Rinoceronte Dromedário, foi Walther Moreira Santos, ele disse: “olhe, você tem uma pegada boa pra criança”. Já é um cara que escreve pra criança, que tem prêmios e que não é muito comum, escritor tem sua vaidade, né? E ele ter chegado, procurado e perguntou se eu tinha alguma coisa. A gente tem até uma parceria, ele ilustrou alguns poemas meus. Eu gostei muito disso, de uma pessoa que já é uma referência, dizer “tu consegue”. Por influência dele, eu decidi ir adiante.

E voltando ao livro, como foi o processo depois da conquista do prêmio, em termos de edição. Alguma mudança foi feita depois? Você chegou a participar da escolha da ilustradora, houve esse contato, esse diálogo entre você e a Luísa?

HELDER HERIK |O livro sofreu alterações, eu coloquei alguns poemas pra dar uma encorpada. Tanto é que ele é um livro infantil, mas é meio gordinho. Eu estava com esse medo, por ser um livro que a pessoa lê em dois minutos. Então acrescentei algo, tirei, mas mais acrescentei que tirei. Tempos depois chegam as ilustrações, só que aí é um choque, porque o meu menino era diferente desse (aponta para o livro). Eu tive que aprender a conviver com esse. Percebi uma coisa importantíssima, no livro infantil não tem um autor, são dois. Embora o ilustrador construa a partir do texto, ele é tão artista quanto quem criou, quem escreveu o texto. É um trabalho de parceria e eu tive que aprender que, sendo uma parceria, a coisa não é minha. Pedi uma alteraçãozinha ou outra, porque a coisa fugiu demais. Mas no geral ficou como a Luísa criou. Eu conheci ela, em Recife. O grande aprendizado nesse livro foi essa coisa da parceria, era uma coisa que eu sabia, mas na teoria. Porque sempre que eu leio um livro infantil, primeiro eu vou pras imagens, depois que vou pro texto.

Com O menino mais estranho do mundo você venceu o Prêmio Cepe Nacional de Literatura 2018, na categoria infanto-juvenil. É o seu segundo prêmio, né isso? Antes, você tinha ganho o antigo Prêmio Pernambuco de Literatura, hoje Prêmio Hermilo Borba Filho, com o Rinoceronte Dromedário. Esses prêmios fazem a diferença, em termos de interesse de público, grana, reconhecimento da obra? Dá pra sentir alguma mudança em relação a experiência com a u-Carbureto?

HELDER HERIK | Acho que dá mais visibilidade, uma vez que a editora tem os canais, tem os meios para escoar e fazer chegar. Muda que fica mais profissional, mas não que o que a gente editasse não tivesse um nível, mas você percebe que é outra coisa, mais profissional. Você trabalha menos, é só a questão do texto, não fica no vai e vem, da capa, da correção. E uma grande diferença é que, não editando, você não fica com os livros. Você recebe uma parcela pequena e os livros ficam pra lá. Quando você publica, você fica com os livros, você dá pros amigos. O ruim é que você fica com os livros em casa, muitos, tá entendendo? Aí a mulher olha assim: “meu deus do céu, que tanto livro é esse?”. E junta uma poeirinha, precisa encadernar. O bom da editora é que eles ficam com os livros, abrem canais, oportunidades, é o que eu queria. A gente começou a u-Carbureto com a intenção de estar publicando, já que a gente não tinha nenhuma experiência de publicar fora, (e queria publicar) algo publicável, que tivesse valor literário. Só que a gente percebeu que tinha chegado num estágio, ou nível, que podia ser editado por editoras. A gente nunca mandou pra nenhuma editora, essa é a verdade. E veio a ideia de participar de prêmios. O bom de participar de um prêmio é que, de tantos, o seu foi escolhido, o seu tem qualidade. Se você se publica, você acha que tem qualidades, é um livro, mas se fui eu quem publicou, foi pela minha grana, pelo meu crivo, pelos meus conceitos. E se eu me submetesse? O bom é isso, você percebe que está num caminho por uma editora. Diferente de você se autopublicar, onde você cria um caminho. Pela editora, esse caminho já existe.

Você falou que precisou aprender a conviver com o novo Dário, que surgiu das ilustrações da Luísa. Quem era o seu Dário? Foi alguém que você chegou a conviver? E se esse nome tem algum significado especial?

HELDER HERIK |O Dário tinha outro nome no princípio, mas era um nome muito modinha, americanozinho. Acho que era Mike, então achei que precisava ser uma coisa mais forte: Dário, mais forte. O meu Dário tem algo em torno de 5 ou 6 anos, e a imagem que eu tenho é a de um irmão, tem uma foto antiga em casa dos meus dois irmãos, quando eu não era nascido ainda, e esse Dário era como se fosse meu irmão do meio, que era inclusive meio galeguinho, tem os olhos verdes, era gordinho, rechonchudinho. O meu Dário é um menino que está na infância mesmo, o Dário aqui já é mais taludinho, maiorzinho. O meu Dário está descobrindo o mundo mesmo, se surpreendendo, mas estou convivendo com esse Dário aí.

Quando fui ler O menino mais estranho do mundo, me veio uma lembrança muito forte de um clássico da literatura infantil, que é O menino maluquinho, de Ziraldo. De certa forma ele foi uma referência pra você? Porque, de certa forma, fala das estripulias do menino.

HELDER HERIK | Não, eu li O menino maluquinho, mas foi na adolescência. Agora, tudo o que a gente lê vai ficando numa gavetinha e pode saltar. Se foi, foi uma coisa inconsciente. Toda criança é sem vergonha, né? A minha menininha, por exemplo, ela já faz as safadezas, as sem-vergonhices, as traquinagens. Então eu vou pegar essas traquinagens de Dário e colocar aqui, mas sem essa referência consciente d’O menino maluquinho. E o título era “Criançaria”. Inicialmente ia se chamar “Livro de criançar o mundo”, mas depois eu resolvi sintetizar pra “Criançaria”. Ganhei o prêmio com o nome “Criançaria”, só que o editor, Wellington (de Melo) disse assim: “muda porque já tem criançaria”, era um site, alguma coisa assim. Aí tive que mudar, fiquei pensando, e veio O menino mais estranho do mundo. Agora você falando nisso, eu nunca tinha criado esse link.

O que me chamou atenção não foi nem a relação entre os títulos, mas pela história mesmo. A criança peralta, que fica inventando as coisas, cheia de causos.

HELDER HERIK | Tem uma coisa assim, que é do Manuel Bandeira: “O verdadeiro poeta é a criança”. E tem uma crônica da Rachel de Queiroz, que o menino chega pra mãe e diz “tô com vontade de lágrimas”. A mãe corrige: “não, você está com vontade de chorar”. Aí, vontade chorar é o correto, mas não é o poético. Na mesma crônica, ela diz que o menino estava com fome e não queria feijão, queria feijinho. Aí você percebe, feijinho é o estranho e o estranho é que é o poético. Aí vem essa coisa estranha, daí o menino estranho. O poético, pra mim, é essa coisa do estranho, do visual. O lógico, pra mim, não vira poesia.

Talvez esse seja seu primeiro livro narrativo, que tem uma sequência. Mas ao mesmo tempo é uma reunião de causos e invencionices do Dário, e que não segue uma narrativa tradicional, que é apresentação, conflito e resolução. Queria que você falasse um pouco sobre essa experiência de contar uma história, narrativa mesmo, ao invés de poemas separados.

HELDER HERIK | Esse que foi o grande quebra-cabeça. É como se cada poema fosse um micro-capítulo, aliás, é como se cada poema fosse um caso isolado, que pode ter ligação com um outro, ou não. A experiência foi até assim, tinha poema que eu vi que podia dividir em dois, um podia ser o começo e o outro o fim. E foi nessa experiência de pegar poema, dividir poema, de criar poema, de construir baseado naquele, de criar essa coisa mais prosaica. Eu fico me batendo nisso, a dificuldade é essa, a prosa é muito diferente da poesia. Meu pensamento vai tropicando, ele não segue como a prosa. Eu penso já sintetizando, eu não tenho esse pensamento que se alonga. A dificuldade foi essa, porque a prosa precisa ter uma sequência, e eu precisava achar essas sequências. Mas como são mais casos, historinhas, foi mais fácil, deu pra construir. A partir desse (livro), eu percebo que os outros estão ficando mais homogêneos, não um amontoado de poemas, é a prosa mesmo. Só que fazendo essa prosa, eu a faço no estilo poema. Eu não faço como prosa, eu faço poesia, depois que eu tiro o ENTER e fica a prosa.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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