Entrevista com Julio Cavani, sobre Polinização

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Entrevista com o jornalista, crítico, cineasta e escritor Julio Cavani. Em bate-papo, gravado em fevereiro de 2020, ele fala sobre a graphic novel Polinização, que tem roteiro seu e arte do seu pai, o artista visual Cavani Rosas, e foi publicada pela Cepe em novembro de 2019.


Polinização foi lançado em novembro de 2019, mas sei que é um projeto antigo. Inclusive vi, em algumas matérias que saíram, que ele nasceu como um projeto de animação. Queria que tu contasse essa trajetória, do início da concepção do projeto até a sua publicação. O que mudou? Por que deixou de ser um projeto de animação pra virar uma história em quadrinhos?

JULIO CAVANI | A ideia surgiu bem naturalmente, começou a crescer aos poucos na minha cabeça. O livro é protagonizado por animais, todos os personagens são bichos. Quando tive a ideia inicial, eram humanos mesmo, como se fosse o mundo real numa realidade alternativa, uma espécie de distopia mesmo. Depois percebi que se transformasse em animais, os acontecimentos ficariam ainda mais distantes de personagens e quaisquer acontecimentos reais. E aí eu gostei de fazer esse reforço na fantasia. Primeiro a ideia era fazer um curta de animação mesmo, aí soube de um concurso de quadrinhos de uma editora do Rio de Janeiro e percebi que, se fizesse uma versão em quadrinhos, poderia ser interessante como primeiro passo para depois fazer o filme. Essa editoria pedia pra inscrever o projeto junto com quatro páginas já prontas e o roteiro já pronto. Foi aí que coloquei o roteiro no papel e o desenhista Cavani Rosas, meu pai, topou fazer essas quatro páginas rapidamente. Inclusive essas páginas originais estão no livro, foram reaproveitadas. Eu não sei exatamente que ano foi isso, mas acho que foi em 2010, faz uns 10 anos. Mas a história já estava na minha cabeça desde antes de 2010. Com o roteiro pronto, não desisti de fazer a animação. No Funcultura tem uma categoria de desenvolvimento de projeto pra longa-metragem, que, se você for aprovado, você recebe uma verba pra montar o projeto do filme, não pra produzir o filme, mas pra produzir o roteiro do filme. E como era um filme de animação, coloquei no orçamento pra produzir um storyboard. E esse storyboard é o livro Polinização. É um storyboard que usa a linguagem de quadrinhos. O projeto  permitiu que o desenhista pudesse fazer todas as páginas com alguma remuneração e assim eu pude concretizar um livro tão grande. O livro tem uma vida própria, independentemente do filme existir ou não. Mas eu pretendo, paralelamente, com a repercussão do livro e seus desdobramentos, enriquecer o projeto do filme pra deixar ele mais potente, com mais força, pra poder captar (recursos) não só no Brasil, como fora. O livro vai ajudar muito, principalmente nesse momento atual totalmente desfavorável pra produção de cinema no Brasil. Então esse primeiro ano do livro vai ser oportuno para que eu espere as coisas melhorarem e enriqueça ainda mais o projeto do filme.

Tu lembras quando foi o projeto do Funcultura?

JULIO CAVANI | Acho que foi em 2016.

Você fechou o roteiro nessa época? Pergunto porque parece a História do Brasil, ultimamente.

JULIO CAVANI | Tem muitas coincidências. Personagens que eram macho, virou fêmea. Tem coisas que aconteceram no Brasil que foram incorporados e outras que já estavam no roteiro e aconteceu no Brasil ou em outros países. Desde a ideia inicial, ainda não havia sido legalizada a cannabis no Uruguai, por exemplo. Quando legalizaram, aproveitei alguns elementos dessa experiência uruguaia pra enriquecer as cenas, os diálogos, os dados. Tudo ali é ficção, é ficção científica, mas eu extraía algumas coisas da realidade. Entrevistas… por exemplo, tem uma entrevista com um ministro que foi muito inspirada numa entrevista que um ministro uruguaio deu à imprensa.

A partir da chegada da Cepe, como foi esse trabalho editorial lá? Houve mudanças a partir dessa conversa com a Cepe?

JULIO CAVANI | Antes da Cepe, cheguei a conversas com outras editoras fora de Recife, de São Paulo. E esses editores se interessaram pelo projeto e chegaram a sugerir várias modificações. Essas modificações foram incorporadas, agradeço a eles. Mas quando mostrei a eles já estava pronto, bastante avançado. Já tinha um livro pronto pra ser lançado. Quando chegou na Cepe, já tinha não só o livro pronto, mas alterações que eu fiz por sugestões desses editores e de amigos pra quem mostrei. E as modificações que a Cepe sugeriu foram muito mais de gramática, coisas de texto, de revisão ortográfica, do que de conteúdo mesmo, de ação. A gente não precisou mexer muito nos desenhos, não. Quase nada.

Como foi trabalhar com teu pai? Eu lembro que você editou uns quadrinhos dele, ainda pela Livrinho do Papel Finíssimo, mas eram histórias que estavam prontas, já haviam sido publicadas. Como foi esse processo de elaboração? Houve diálogo, alguma coisa que você mexeu por sugestão dele, ou o contrário também?

JULIO CAVANI | Eu e meu pai somos apreciadores de histórias em quadrinhos, desde sempre. Ele sempre comprou, é colecionador de quadrinhos. E eu sempre tive esse sonho, acho que ele também, de ter um livro de quadrinhos dele publicado. Mais de 10 anos atrás, através da Livrinho, encontrei uma maneira de fazer uma publicação barata, de baixo custo, que reunisse algumas histórias em quadrinhos dele que já existiam, prontas, algumas inéditas ou que já haviam sido publicadas há muito tempo, nos anos 1990. Então fizemos O argonauta, uma espécie de fanzine, com 5 histórias desenhas por Cavani Rosas, (escritas por) autores diferentes. E lançamos nesse esquema da Livrinho, bastante informal, sem nenhum tipo de patrocínio, tiragem pequena. Foi interessante porque fez com que as pessoas soubessem que ele é um grande quadrinista brasileiro. Além de ser um bom desenhista, ele também domina a narrativa visual, dos quadrinhos, da arte sequencial, de maneira muito original e eficiente, envolvente, com ritmo e recursos de enquadramento. Ele realmente é um quadrinista completo.

E teve também a animação que vocês fizeram juntos.

JULIO CAVANI | Uma dessas histórias, que estava nesse livrinho, era Deixem Diana em Paz. Essas histórias eram curtas, de quatro páginas. E eu achei que elas poderiam render curtas-metragens e Deixem Diana em paz poderia ser o primeiro experimento. Porque, além de quadrinhos, ele sempre teve a vontade de trabalhar com cinema de animação. Coisa que a gente também acompanha e consome desde sempre. Através da produtora Deby Brennand, a gente ganhou a oportunidade de conseguir patrocínio através do Funcultura. Ela assumiu a função de produtora e fizemos a animação Deixem Diana em paz. Eu sou o diretor e meu pai é o desenhista, Marcos Buccini e Eduardo Padrão, dois amigos, designers que trabalham com animação, assumiram a animação, e fizemos esse primeiro filme, com 10 minutos. Foi lançado no Festival de Brasília e participou de outros festivais no Brasil e no exterior também, como o Festival de Toulouse, Cinelatino, na França. Trabalhar com ele (Cavani Rosas) é um exercício de paciência que mistura vida cotidiana e familiar com vida profissional. Quando se mistura isso, as vezes a paciência que você precisa ter é maior, porque ele tem o ritmo dele e, principalmente nesses esquemas de edital, no caso do filme, os editais ainda não estão bem amadurecidos pro cinema de animação, eles são mais pensados pra filmes com câmeras live actions mesmo, documentários, ficção. E o ritmo é outro, os prazos vão chegando, estourando. E aí você vai ter que ampliar, é um exercício de paciência mesmo. Ele é um desenhista muito detalhista e eu respeito isso. Se permitir, ele vai continuar fazendo isso pra sempre, mas tem uma hora que a gente tem que tirar da mão dele o desenho pra poder publicar, porque senão ele vai ficar aperfeiçoando pra sempre. E eu entendo. Tem várias páginas no Polinização, que eu vejo um fundo branco que sei que ele gostaria de colocar um céu. A gente poderia ter deixado mais, mas iria correr o risco de nunca terminar também. Foram muitos anos, entendeu? Cada vez que voltava pra mão dele um original, ele ajeitava um detalhe. Até que chegou um momento que resolvemos parar, cortar aqui e lançar como está. Isso faz parte do processo artístico, em vários contextos, dificilmente o artista vai estar plenamente satisfeito. Eu também, se fizer outra edição, talvez eu mexa em alguma fala ou diálogo.

Na história, você falou que resolveu usar animais. Isso veio de alguma inspiração, de alguma outra obra? Quando li, identifiquei muito com Maus e A revolução dos bichos. Mas é diferente deles, em relação a associação das espécies com as funções sociais dos personagens. Em Maus, os judeus são os ratos, o nazistas são os gatos, os americanos são os cachorros. Em A revolução dos bichos, os cachorros exercem essa função de força de repressão, os porcos são os políticos. Já em Polinização não tem muito essa característica dos animais, é uma sociedade mais diversa, embora algumas personagens tenham essa relação. Os policiais são cachorros, como em A revolução dos bichos. Mas em Polinização é mais variável. Queria que tu falasse um pouco sobre a escolha dos personagens e a espécie dos animais.

JULIO CAVANI | Esse tipo de narrativa em que animais são vistos como seres humanos é uma escolha clássica, que você encontra desde a Disney, com Pateta, Pato Donald, Patópolis, Tio Patinhas…; até em coisas mais underground, como por exemplo Fritz, the cat de (Robert) Crumb ou Blacksad, que é uma série em quadrinhos que a gente também gosta muito, em que o personagem é um gato detetive. Você vê isso em filmes como Zootopia, pra citar um exemplo mais recente. Em relação às espécies animais, a gente resolveu fazer uma coisa bem livre, meio que baseado na ideia de que todo mundo parece com algum bicho. Apesar da teoria da evolução da espécie dizer que o humano veio principalmente do macaco, você conhece gente que parece com um pássaro, pessoas que parecem com répteis. Acho que a gente pensou mais nisso. Em alguns casos têm motivo pra essa escolha. Cachorros serem policiais é porque tem o K9, cachorros realmente são usados na polícia, é uma associação mais direta. Mas nos outros foram muito intuitivos mesmo. A escolha do bicho-preguiça ser escolhido como o personagem principal foi um pouco da intenção de escolher um animal mais brasileiro, que inclusive acho que tem na Mata Atlântica, daqui da região.

Tem o caso do Chacal, que é bem óbvia a associação. E a dos cordeiros, que representam a parte religiosa.

JULIO CAVANI | É, tem algumas. Mas é tudo livre, mesmo essas associações são bem livres. Eu falei essa coisa dos cachorros, mas é tudo livre. Por exemplo, os helicópteros em forma de libélula, porque você vê uma libélula e lembra do helicóptero.

E tem um policial que acho que é hipopótamo, uma parte que é formada por morcegos, não é só restrito aos cães.

JULIO CAVANI | Exatamente. E tudo isso é muito intuitivo. No roteiro, eu já dava algumas indicações de que animal seria cada personagem, mas ele (Cavani Rosas) também teve liberdade de escolher, principalmente os figurantes, aqueles personagens que aparecem ao redor dos personagens, das ações principais. Por exemplo, as bandas, Porcos Corpos é uma referência a um filme pernambucano e aí misturei com Samba Clube, que é uma banda pernambucana; e nesse caso teria que ser porcos. A Mangue Bangue é formada por caranguejos, numa espécie de referência ao Movimento Mangue. Mas, no geral, foi tudo muito intuitivo, criados na hora mesmo.

Inclusive, tem bichos que não existem, né? Tem um macaco com orelhas de coelho e tem tipo um gorila com olho de ciclope. Então tem essa liberdade de imaginar o além.

JULIO CAVANI | O personagem principal é um bicho-preguiça e a namorada é uma ursa, então a gente imagina: se eles cruzarem e tiverem um filho, será que vai nascer um bicho-preguiça? Um urso? Ou a mistura entre os dois? Por isso que numa cena aparece um macaco com orelha de coelho. Quem perceber esse personagem e achar que tem alguma coisa estranha nele, pode chegar a essa conclusão, que é resultado do cruzamento de um macaco com coelha, coisa que não existe na natureza, mas que a gente tomou essa liberdade poética. Inspirado também no livro O hipopocaré, com ilustrações de Cavani Rosas e texto de Antônio Guinho, que é sobre um animal que é a mistura de hipopótamo com jacaré. O que você falou que tem um olho só é o mapinguari, um personagem mitológico das florestas do Brasil que é um mamífero, que só tem um olho e com uma boca no meio da barriga, em algumas versões. No nosso caso, a boca dele é enorme, mas não fica no meio da barriga, não.

Deep River, que é a cidade onde se passa a história, foi inspirada em algo específico?

JULIO CAVANI | A cidade tem elementos que lembram o Recife, por exemplo, uma praça na beira de um rio, que lembra bastante a Praça do Marco Zero. Mas em outras cidades do mundo têm praças nesse estilo, inclusive a Praça do Marco Zero foi inspirada em outras cidades, como a Praça de São Marcos, em Veneza, que tem essa figuração, mais ou menos. E tem uma periferia em Deep River que é um pouco inspirada na Cidade do México, apesar de nunca ter ido lá, mas vimos fotos, uma massa enorme, sensação quase infinita, de casas. E o rio que fica em frente à cidade tem elementos que lembram o rio São Francisco, que existem realmente ilhas, mas também é muito inspirado numa viagem que eu fiz a Belém do Pará, pra Ilha do Marajó, no final do rio, onde tem arquipélagos dentro do rio, onde você não vê o outro lado do rio, que parece um oceano mesmo. Tem uma cena em que eles viajam pra um festival de música, no interior, a vegetação e a geografia são inspiradas no Agreste de Pernambuco. É uma combinação, com inspirações reais e criações do zero também.

E queria também que você falasse do tempo, da localização, porque a história tem um viés místico, que é o do consumo do pólen, com uma sociedade mística que o Zero acaba descobrindo; mas, ao mesmo tempo, o visual dos veículos tem algo meio futurista. Fala um pouco sobre essa composição do cenário e da influência disso na narrativa.

JULIO CAVANI | Não necessariamente futurista, mas é um design novo de veículos, de prédios e objetos. Não existe uma marca, uma fábrica que faz um carro como esse daqui, como o helicóptero também. E como é uma realidade paralela, a gente pode ficar livre pra criar essas coisas de design de objetos da maneira que a gente quiser, combinando coisas de design real com coisas mais fluídas, já fazendo uma espécie de proposta que poderia funcionar na sociedade.

Em relação à narrativa, boa parte da história você acompanha o Zero, mas também você se utiliza do recurso do coro do Teatro Grego, basicamente através da televisão, pra contextualizar o histórico. Qual a importância dessa ferramenta do coro e até que ponto se deve usar ou não?

JULIO CAVANI | Isso a gente se inspirou, mais do que no Teatro Grego, por exemplo, em filmes de Martin Scorsese, em que há uma narração em off de um personagem, depois entra outra personagem em off e no meio para a narração, vira só ação, depois volta a narração. A gente se inspirou também no Cavaleiro das Trevas, o quadrinho de Frank Miller, que ele usa muito o recurso, onde o quadrinho assume a forma de tela da TV, com um apresentador de telejornal ou repórter dando uma notícia que se confunde com a narrativa do próprio livro. E especificamente sobre Polinização, são praticamente quatro capítulos, o primeiro é narrado pelo próprio Zero, em determinado momento você descobre que essa narração ele está fazendo pros alunos na sala de aula. Depois, um pouco de ação sem narrador, sem off. Depois entra uma narração do apresentador do telejornal, que é um leão-marinho. E depois volta pra uma narração normal, que parece um narrador invisível, que não é nem o apresentador, nem Zero, é só uma descrição, complemento da ação. Então a gente exercitou esses tipos de narração.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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