Entrevista com Julio Cavani

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Como parte da nossa estratégia de divulgação, fizemos uma entrevista com o escritor Julio Cavani sobre O coelho e o leão, livro infantil que marca sua estreia na literatura. Nessa conversa, ele fala sobre como surgiu a ideia do livro, a diferença de se escrever para crianças, a importância de oferecer opções num mundo dominado por telas e o desafio de escrever uma história sabendo que ela será ilustrada.


Como surgiu a ideia de escrever O coelho e o leão?

JULIO CAVANI | É uma história baseada em fatos reais. Em 2013, durante as filmagens do meu curta-metragem História Natural (disponível no Vimeo), conheci a história de Leo, o leão do Parque Dois Irmãos, o zoológico do Recife. Ele nasceu no Circo Vostok e foi transferido para o horto. Enquanto filmava o curta, percebi que os veterinários e biólogos do zoológico colocavam pequenos animais dentro da jaula de Leo para fazer o leão desenvolver hábitos selvagens de caça, talvez como um processo de pré-adaptação para a possibilidade de libertá-lo na natureza. O leão ficava intrigado diante dos bichinhos, sem saber o que fazer, e demonstrava também medo. Na vida real, isso ocorreu com um coelho e com uma galinha. Aí percebi que essa situação poderia render uma boa história infantil, não só para um livro, mas também para contar para as crianças.

É diferente escrever pra criança? Que cuidados, em termos de linguagem, você tomou para escrever para esse público?

JULIO CAVANI | Procurei fazer um texto bem curto, simples, direto e de fácil compreensão para pessoas de todas as idades e para crianças bem pequenas também. Quando escrevi, achei que poderíamos usar apenas uma frase por página e dedicar mais espaço para as figuras. Inseri também uma frase entre parênteses para as crianças conhecerem esse recurso textual.

É diferente escrever já pensando que haverá o complemento das imagens? Como se deu o diálogo com as meninas da Lorota no desenvolvimento do livro?

JULIO CAVANI | Criei a história em si sem planejar as imagens. O texto funciona como conto, mesmo sem figuras. Contei a história verbalmente para Juliana Calheiros, da Lorota, e elas decidiram fazer o livrinho. Não fiz nenhum direcionamento no trabalho delas, que tiveram liberdade de criação total. Quando me convidaram para fazer o projeto, a história estava apenas na minha cabeça e aí transcrevi para elas com sugestões de divisão de páginas de acordo com as frases.

Talvez a grande lição da história seja o de não julgar os personagens pela aparência. Você pode comentar a importância dessa mensagem, considerando o mundo que vivemos hoje?

JULIO CAVANI | O livro começa com “Era uma vez” e termina com uma variação do formato “E todos viveram felizes para sempre”. Em muitos filmes e histórias infantis, existem embates, brigas, pancadas e lutas. Não acho interessante que as crianças tenham contato com essas ideias de violência, mesmo quando parecem leves, inofensivas ou inocentes. Sou contra esse tipo de naturalização da violência desde a infância. Defendo que as crianças não se acostumem com isso. Procurei inverter essa expectativa de conflito e criar um desfecho que estimule a amizade, o respeito e o afeto entre todos. Quis mostrar também que alguns animais aparentemente ameaçadores não necessariamente são agressivos e podem sentir medo do desconhecido, independente de diferenças de tamanho.

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