Entrevista – Everardo Norões

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en-poemasPOEMAS (2000)

FÁBIO ANDRADE – O Poemas talvez tenha mais poemas de forma fixa que os seus outros livros de poemas, é possível que ele ainda marque uma forma de fazer poesia da qual você foi se desconectando gradativamente?

EN – Não tenho preferência por formas fixas, porque acho que cada poema pede uma forma precisa. O soneto, por exemplo, é uma espécie de prisão, na qual cada prisioneiro deixa sua marca na parede. Mas às vezes pode ser interessante escrever um soneto, aprisionar uma forma enquanto exercício. Encaro a escrita poética como um trabalho, que pode ser comparado ao do pedreiro ou ao do ferreiro. São bons para o poeta os exercícios que o levam a conhecer melhor as possibilidades e também as dificuldades de sua língua e de seu ofício. Escrevi poemas de formas fixas, mas não quero ficar refém, nem desconectado delas. Quero que cada poema seja independente, pois o leitor deve sentir que só naquela forma era possível expressar o que foi escrito. Além disso, ao meu ver, a forma fixa e repetitiva burocratiza o poema.

FA – O Poemas é um livro bem heterogêneo, é possível dizer que ele reúne sua poesia de até então?

EN – Você pode pensar que Poemas não é um livro de maturidade. Ser heterogêneo pode ser uma qualidade. Mas você é crítico e coloca a mão na massa e, de fato, o Poemas pode ser considerado desigual, uma espécie de antologia do que fiz antes e não publiquei. Claro que eu não faria de novo muitos dos poemas que escrevi, mas esse foi o caminho. Sou dos que brigam com a gaveta, sou crítico acerca do que faço e gosto da crítica, como a sua, que ajuda a erguer a escrita. É tempo de autor deixar de querer ser ator, de dar mais importância ao texto. O que ele escreve não precisa de palco e publicidade. Precisa da crítica franca, contundente, que o ajude a progredir no seu trabalho. Quando recebi o Portugal Telecom disse que dedicava o prêmio a Sônia, minha mulher, que era minha leitora mais cruel. Porque o simples elogio, dizia García Lorca, é flor jogada no túmulo do poeta.

FA – Nele já se sentem algumas das principais características da sua poesia: a questão da memória, um certo compromisso com o olhar crítico sobre o mundo… esses traços parecem ter se intensificado nos livros seguintes. Você vê dessa maneira também?

EN – Vejo, sim. Eu me considero um poeta preocupado com a nossa condição de gente e de bicho sobre a Terra. Até porque, antes de mais nada, somos animais, com nossas necessidades vitais. Mas, enquanto gente, precisamos tornar nossa vida mais agradável, mais lúdica, para suportar melhor o ofício de viver. E a arte, a poesia, pode nos ajudar a recompor essa teia de sentimentos que nos torna humanos, a participar daquela humanidade de São Francisco acolhendo os passarinhos ou de Vieira discursando para os peixes. Quando a poesia retomar seu papel na sociedade, ninguém terá razão de se envergonhar de ser político, como está acontecendo agora. Porque só haverá política verdadeira quando a poesia for incorporada aos seus estatutos. Não estatutos burocráticos, mas os que lapidam os caminhos do Homem. E aí a memória tem seu lugar, com seus pequenos heróis, os humilhados e ofendidos, os que fazem uma história escondida que só a escrita é capaz de resgatar.

en-padre-inglesA RUA DO PADRE INGLÊS (2006)

JOSÉ JUVA – Em A rua do padre inglês, é possível perceber um ser humano em trânsito: deambulando entre casas, cidades e investigando o universo. De que maneira o poema possibilita uma mediação entre estas esferas?

EN – Em toda a história da literatura essa tem sido a função principal do poeta, inclusive descer aos infernos, como fez Dante, ou deambular pelas passagens de Paris, como Baudelaire. Mas essa deambulações – não são simples passeios ou vagabundagens – têm um sentido profundo. Quando Baudelaire escreve o poema A uma passante, não apenas relata a visão fugaz de uma mulher que chamou sua atenção e que ele nunca mais verá. Detrás disso, como pano de fundo, ergue-se o panorama da grande metrópole moderna que se constrói desumanizando as relações entre as pessoas. Um simples soneto desvela o que viria a ser a vida nesses aglomerados imensos, aquela que gera o desencontro entre o funcionário e a dançarina da música de Chico Buarque.

JJ – Os poemas presentes em A rua do padre inglês estão prenhes de vida própria e alheia, há um constante diálogo com outros autores, a exemplo de João Cabral, e forte presença de outros artistas (como os franceses Baudelaire, Rimbaud, Satie, Camus, Villon, etc.). Diante do poeta há sempre o outro? Poesia é encontro, uma ponte possível?

EN – Gosto de uma frase do poeta Maurício Mota que diz ser o poema o recado que a alma dá posto de certa forma. O artista é um elemento sensível que capta nossas inquietações e as exprime de forma diferente e é essa diferença que abriga o mistério da criação. O que você chama de diálogo entre autores é, nesse sentido, a participação numa espécie de catarse coletiva e inconsciente. Falo aqui da catarse num sentido aristotélico, de purificação das almas, através do drama, do poema, da música. Então, quando faço minhas catarses gosto de estar acompanhado daqueles que nos deram o prazer de suas criações.

JJ – Há nos poemas de A rua do padre inglês uma dinâmica dialógica de sombra e luz, sol e escuridão, chão e céu: tudo impregnado pela palavra poética na raiz do silêncio. Qual a importância do silêncio para a organização e respiração dos poemas?

EN – Tudo importa num poema: o silêncio, o sinal, a respiração que nutre o intervalo entre as palavras. Gosto da dinâmica dialógica, conforme você fala, talvez por ter uma formação dialética que ajuda a perceber que alguma coisa pode ser sempre o seu contrário. Tento levar isso para o poema em si. Por exemplo, às vezes não uso ponto ou vírgula, nem maiúsculas, na esperança de que o leitor dê sua própria forma ao poema, sua entonação, seu respirar, seu recorte de palavras. Acho que se ele fizer assim se apropria melhor do texto. O poema é algo especial que não é feito apenas para comunicar, é feito também para transformar e ser transformado pelo leitor singular. Quando isso acontece, o leitor até aprende o poema de cor, desse cor que vem do latim e significa coração.

en-retabuloRETÁBULO DE JERÔNIMO BOSCH (2008)

FA – Por que logo um pintor medieval vai motivar o título de seu livro de poemas? O que lhe interessa nele? A fusão do sublime com o grotesco?

EN – Não apenas a fusão do sublime com o grotesco, que é a primeira impressão quando observamos os quadros de Bosch. Sobretudo a capacidade de síntese, ao colocar num único quadro uma quantidade de informações e de articulações susceptíveis de traduzir todo um universo. Além disso, a carga simbólica de cada detalhe, de cada traço, como se um quadro fosse sua própria esfinge, a solicitar a decifração. Então, o poema para mim deveria ser como um pequeno quadro de Bosch, que através de suas engrenagens o leitor pudesse ser obrigado a procurar o significado do grande no pequeno. Como na escrita do Walter Benjamin.

FA – A poesia é uma oportunidade de reaver o passado? Muitos dos poemas do Retábulo de Jerônimo Bosch parecem consistir em lembranças revisitadas (recriadas).

EN – Se você tem uma vida carregada de episódios, alguns deles vão pesar na sua memória e certamente servirão um dia como matéria prima de algum texto, mas não como um recurso de nostalgia. Não gosto de falar do passado, mas acho importante ter tido uma vida que me trouxe algumas surpresas, boas ou más, pouco importa. Essas surpresas devem estar flutuando em algum lugar do meu subconsciente. Não se trata de passado, de simples lembranças. São instantâneos, como nas fotos do Cartier-Bresson, aquelas em que ele captou numa fração de segundo, o momento supremo, irrecuperável. Talvez por isso goste de Cartier-Bresson e não sinta afinidade com a fotografia de um Sebastião Salgado. Ou seja, não se trata de memória, mas da maneira como a tratamos, como a trabalhamos decifrando instantâneos, seja na escrita ou na fotografia.

FA – Qual o compromisso político da poesia hoje?

EN – Gosto de um termo inventado pelo poeta francês, Jean-Claude Pinson: poetariado. Ele, que foi militante nos anos 60, trabalhou em fábrica e tornou-se professor de filosofia numa universidade francesa e crítico literário, resumiu, nesse conceito, o sentido de um certo tipo de poesia: tentar tornar nosso mundo mais habitável, fazer com que a poesia desperte em nós sentimentos que estão sendo gradativamente destruídos. Um exemplo simples: construir uma casa não é suficiente para tornar alguém feliz, porque casa não é apenas um módulo ou um abrigo, ela é um lugar de existência, um território que se faz através de uma presença. A falta dessa visão política, e ao mesmo tempo poética, resulta na forma como o poder público constrói casas populares, a cargo de empreiteiras que se comprometem apenas com planilhas e coeficientes. O resultado está aí, aglomerados frustrantes, geradores de droga e violência, como os do bairro da Torre e de outros lugares da cidade e do país. São lugares onde as pessoas ficam, mas não moram. Não são lares, até porque Lares para os romanos eram os deuses da casa, da família. E, no caso, a maior parte das pessoas vive no inferno. A mesma coisa acontece com a literatura, que não pode ser uma atividade egoísta, de exclusiva promoção do autor e para a lucratividade fácil. Literatura não é política literária.

en-poeiras-na-restiaPOEIRAS NA RÉSTIA (2010)

CRISTHIANO AGUIAR – Em um texto sobre Poeiras na réstia, o crítico Fábio Andrade afirma que sua obra como um todo é uma “poética da memória”. Você poderia comentar essa afirmação?

EN – Meus poemas não são feitos apenas se valendo da memória. Em muitos deles trato de coisas do cotidiano, que nos tocam. Mas a memória é nosso arquivo e ela sempre alimenta a escrita do poeta, mesmo quando ele trata do hoje. O problema é que na nossa tradição a memória é quase sempre relacionada à saudade, a uma espécie de nostalgia. Não é o caso da minha escrita. Em Poeiras na réstia fui buscar elementos da memória para tentar reabilitar pequenos heróis que nunca são avistados, porque o nosso olho comum tem sempre um filtro social que relega o que não faz parte do que é chamado ‘conveniência’ e, no fundo, é discriminação. Então fiz vir à tona o entregador de leite, a prostituta ou a dona do café para dizer mais ou menos assim: esses são os pequenos heróis que ninguém considera, mas são os que tornaram nossa vida bem mais interessante, os que para nós são mais importantes do que o Duque de Caxias.

CA – Seu livro é dividido em 5 partes. A última consiste em poemas seus traduzidos para outros idiomas, mas gostaria de saber o seguinte: por que dividir o livro em partes e quais critérios você utilizou para posicionar os poemas em cada uma delas?

EN – A divisão em partes sugere uma pequena mudança de foco em cada uma delas. O livro abre, por exemplo, com uma réstia sobre algumas dessas vidas que poderiam ser chamadas de vidas minúsculas, para usar a expressão de Pierre Michon, romancista francês. E fecha, como você observa, com alguns poemas reinventados em vários idiomas, inclusive o quíchua. É claro que cada poema tem sua identidade própria, sua personalidade, eu diria. Deixo ao leitor o prazer – ou o desprazer – de descobrir alguma razão para esse trabalho de composição. O livro deixou-se ficar assim, cinco cadeiras ocupadas por pessoas iguais e diferentes ao mesmo tempo, a observarem um entregador de leite morrendo de cirrose ou ouvindo o som de uma quena dos Andes pedindo um pequeno lugar no meu vão de escada.

CA – Já no caso da última parte, na qual encontramos poemas traduzidos, como se deu o processo de tradução? Houve uma das línguas, por exemplo, na qual traduzir os seus poemas se tornou particularmente difícil? Sabemos que você é um tradutor habilidoso, algo da sua experiência como tradutor ajudou na tradução dos seus próprios poemas?

EN – Não interfiro nas traduções de meus poemas, porque isso seria me intrometer na leitura do outro. Como a poesia geralmente é traduzida por poetas, essa tradução acaba sendo uma reinvenção. Nessa reinvenção, o tradutor, de certa forma, acaba se apropriando do texto, compartilhando nosso universo. A tradução pode até melhorar, ou guardar a força do original. Um exemplo disso é a conhecida tradução do Noturno, de José Assunción Silva, feita por Manuel Bandeira. Se o tradutor é um bom poeta, escreve outro poema. Cecília Meireles traduziu poetas chineses, certamente sem saber a língua, via francês ou inglês, mas o resultado deixaria feliz a Li Po.

CA – No poema Orquídeas, você escreve o seguinte: “antes de nascer/morremos”. Temos, claro, o nascimento biológico, mas creio que seu poema fala de um segundo nascimento, mais simbólico. Poderia falar qual o sentido desse nascer?

EN – Cultivo algumas orquídeas, sem ser colecionador, apenas pela beleza. Algumas levam anos para florir e não duram muito tempo. Então acho que essas experiências nos tornam mais próximos da realidade, fazendo com que a ideia de morte não seja uma coisa tão estranha. Há, hoje em dia, entre as pessoas, um sentimento de eternidade, o planejamento da vida excluindo o acidente, o fracasso jogado para debaixo do tapete. Há uma contradição que se aprofunda e me parece estranha: as pessoas vivem como se fossem eternas . E isso enquanto tudo passou a ser cada vez mais descartável. Com a literatura ocorre o mesmo: de milhares de textos poucos sobreviverão. Então o poema é um pequeno lembrete sobre o efêmero. Esse efêmero que ninguém quer admitir e que é a lição da orquídea.

CA – Há um aspecto político na sua poesia, mas isso nunca recai para o óbvio, ou o panfletário. Gosto muito da ironia de Outubro, 2008 ou do senso de cotidianidade do drama palestino em Menos que zero. Poderia nos falar um pouco sua perspectiva a respeito da relação entre poesia e política?

EN – A poesia panfletária empobrece o poeta e desvirtua sua própria intenção. Os grandes poemas que nos tocam são sempre políticos, se entendemos como política a vida na Cidade, o lugar utópico da convivência que todos perseguimos. Quando o poeta apreende o cotidiano em que vive, a razão política de seu poema passa a existir. Por isso, um poeta palestino como Mahmoud Darwich nunca é panfletário, por mais que seu texto seja incisivo. Mas se eu escrever algum poema em torno da questão palestina ou sobre um momento de crise da bolsa, meu viés tem de ser outro. Por isso, aquele toque de ironia do poema Outubro, 2008, que lhe chamou a atenção. Se não fosse assim, o Tristes de Ovídio não seria um clássico, tratando do exílio. Nem tampouco os poemas de García Lorca, do livro O poeta em Nova Iorque, quando tratou da grande crise de 1929.

en-wbW.B. & OS DEZ CAMINHOS DA CRUZ (2012)

THIAGO CORRÊA – Pelas referências que encontramos no poema, descobrimos que o W. B. do título é o pensador Walter Benjamin. Por que essa homenagem? Qual a importância das ideias de Benjamin para você, enquanto poeta, intelectual e cidadão?

EN – Walter Benjamin foi um escritor e filósofo singular, dotado de uma escrita de rara beleza e que conseguiu articular sua filosofia de origem marxista com um viés esotérico, além de ter conseguido enxergar a problemática de nossa sociedade pela observação de pequenos fenômenos e objetos. É quase como se tivesse virado o marxismo de cabeça para baixo e decidido descobrir as engrenagens da exploração e da alienação através de um prisma quase lúdico. Sua escrita fez dele um grande poeta da linguagem. Aliás, chegará o dia em que o próprio Marx será admirado também como um grande escritor, sobretudo por algumas de suas passagens do primeiro livro de O capital, ao tratar, por exemplo, das condições de trabalho na Inglaterra de sua época. Mas, hoje em dia, quase ninguém lê Marx, nem mesmo os que se proclamam marxistas, mas cuja leitura de Marx não foi além do Manifesto comunista.

TC – Cada poema aborda um aspecto da vida e das ideias de Walter Benjamin, como a política, a academia e a indústria cultura (livrarias, cinema). Como foi o processo de escolha desses tópicos?

EN – Pensei assim: como se comportaria W. B. nesse mundo absurdo em que vivemos, onde, por exemplo, o mérito do livro é vender mais edições e não a qualidade da obra, o professor precisa publicar e contar pontos pouco importando o número de discípulos que formou, o homem público educa seus filhos na escola privada e contribui para a grande decadência da escola pública e o médico dá consultas para pagar equipamentos sofisticados sem pensar na cura do doente etc. Então, imaginei W. B. entre nós e procurei entender como ele reagiria em relação a determinadas situações que nos parecem “normais” e, na verdade, são totalmente absurdas.

TC – Em poemas como Na livraria e Sob a marquise fica evidente que você faz um exercício de viagem no tempo, trazendo Walter Benjamin para o Recife de hoje, numa tentativa de tentar pensar aspectos do nosso cotidiano através da perspectiva de Benjamin. Como foi esse processo? Que cuidados você tomou para não distorcer os pensamentos de Benjamin? Esses poemas retratam o pensamento de Benjamin ou de Everardo?

EN – Não tive essa preocupação porque poemas são situações imaginadas e as reações não traem, assim espero, a maneira que ele tinha de, a partir de pequenos fragmentos, conseguir desmontar a lógica brutal do dinheiro, naquela sua mistura de marxismo e de elementos esotéricos. Estudei Walter Benjamin e estudei Marx. O marxismo faz parte de minha formação, mas não sou dogmático, porque, como diz meu amigo Lourival Holanda, o dogma é a morte do pensamento. Daí meu fascínio por Walter Benjamin ou por Gramsci. Se alguém achar que distorci o pensamento dele ou não fui fiel aos seus ensaios, que são de um brilho inconfundível, vou dizer: Não estive à altura de interpretá-lo. Mas o poema não é um atestado de fidelidade filosófica, serve para outras coisas. No caso, quis simplesmente dizer assim: Se um certo W. B. chegasse hoje à nossa cidade iria reagir como o filósofo inconformista, capaz de estudar um brinquedo de criança e de transformá-lo num elemento de compreensão de nosso universo, com o objetivo de tornar nossa vida coletiva um pouco melhor. Por isso, acho que os poemas não retratam pensamentos, os poemas procuram produzir um choque para que os leitores acordem, despertem, interpretem. Se não conseguem nada disso, ficam como uma pequena homenagem.

en-entre-moscasENTRE MOSCAS (2013)

CA – Você acaba de ganhar o prêmio Portugal Telecom por Entre moscas. Poderia compartilhar conosco como você se sente a respeito dessa premiação?

EN – Fiquei feliz porque o livro foi bem acolhido pelo grupo de escritores que compõe o núcleo julgador do Portugal Telecom, a exemplo da leitura crítica feita por Luiz Costa Lima nas páginas da Valor Econômico. E que foi criticado, no bom sentido, por um escritor e crítico como Manoel Ricardo de Lima. Ou seja, o que guardei de melhor desse prêmio foi o reconhecimento de pessoas cujo trabalho no campo da literatura se reveste de uma dignidade e de uma seriedade incontestáveis. Se escrevo com bisturi, conforme observou Luiz Costa Lima, vou continuar com essa responsabilidade.

CA – Há um elemento forte do ensaio e/ou da crônica em muitas das narrativas de Entre Moscas. Tenho inclusive a impressão de que alguns trechos você publicou primeiro em seu blog, ou estou enganado? Por que misturar ficção e outros gêneros?

EN – Não tenho intenção de misturar gêneros, mas tenho a compreensão que nem as pessoas, nem os livros, devem ter carimbos. Uma prosa pode ter mais conteúdo poético do que um poema. Uso elementos de ensaio quando o texto assim o pede, às vezes até de forma inconsciente. Quando leio Montaigne penso o quanto aquela sua despretensão conseguiu inaugurar os ensaios como textos literários preciosos.

CA – Me chama muita a atenção o quanto o Recife aparece em seus contos enquanto um espaço degradado, urbana e moralmente. Poderia falar um pouco sobre isso?

EN – Um amigo negro namora uma moça branca que mora num edifício de luxo de Boa Viagem. Certo dia, no elevador, o jovem encontra um morador do prédio, branco e ‘bem vestido’ que o encara com ar de poucos amigos e a quem o jovem faz uma pergunta do gênero que botão devo apertar para ir ao térreo. Ao chegar no térreo, o senhor branco e ‘bem posto’ diz: É aqui mesmo e seu lugar é na rua. O jovem vai à praia, chora, se banha, e volta com a namorada para bater na porta do dito cujo e dizer: o senhor vai ser processado. Isso não é um conto. É uma pequena história que faz parte das entranhas dessa Recife colonial, que se esforça para esquecer sua origem, que não gosta de preto, nem carrega embrulho. Dessa cidade que às vezes me faz pensar na Argel de Frantz Fanon, no tempo em que aquele país ainda era uma colônia da França. Mas isso não acontece somente aqui. Alguém observou a proximidade entre meu livro e o filme Relatos selvagens, que trata do mesmo universo de desumanização. Mas, convenhamos, há poucos lugares no mundo onde, por exemplo, um médico – teoricamente formado para salvar vidas – mata outro médico por razões subalternas. Será que essa cidade não estaria acometida de alguma doença e ninguém descobre quais são os seus micróbios?

CA – Em Um certo padre Gomes e Um certo goês, você incluiu em um livro de contos dois poemas inclassificáveis, que vou chamar de “narrativos” por falta de uma classificação mais adequada. Poderia falar um pouco como surgiram e por que você decidiu compilá-los em Entre Moscas?

EN – Embora os personagens sejam reais, a narrativa desses dois textos não tem compromisso com a história. São matéria-prima de uma escrita que considera que não são acontecimentos reais ou imaginários que determinam sua qualidade. Concordo com Luiz Costa Lima, quando ele escreve que os acidentes que distinguem cada vida são secundários e o narrador é “o acidente indispensável para que haja um relato de qualidade”. Além disso, como disse em relação ao poema, também acho que a prosa solicita uma forma que não aprisione, não sufoque. No caso, os dois personagens mereciam ser contados assim, à luz de uma persiana menos ofuscante, mais mediada pela poesia.

 

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