Entrevista – Marcelo Ferroni

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O título do novo livro do escritor paulistano Marcelo Ferroni sugere uma alegoria social: Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam; os escombros de uma história social de injustiças – racismo, opressão, intolerância – que se repetem, se atualizam. É uma imagem que indica as forças do segundo romance do autor: comentários sobre o momento da sociedade brasileira, o gradual recrudescimento ideológico de grupos conservadores que possuem poder econômico, a relativa falta de sensibilidade nas relações entre classes, a raiva como sentimento decisivo, o conflito como resposta inevitável. O livro apresenta um protagonista-escritor que passa o fim de semana na casa da família da namorada, uma propriedade que parece insinuar segredos de conquistas baseadas em regras selvagens de disputa. Aos poucos, o enredo se transforma numa narrativa policial. Nesta entrevista, o autor fala sobre técnicas e construção de personagens coerentes com o confuso período atual.

 

HUGO VIANA – Gostaria que comentasse a ideia sugerida no título, uma alegoria sobre hierarquia social; parece uma primeira imagem forte e sugestiva.

MARCELO FERRONI – O título veio junto com a ideia do livro. Queria um título grande, um pouco incomum, que soasse estranho como a história que eu tinha em mente. E sim, há uma questão social já embutida aí. As pessoas se divertindo, bebendo, rindo, enquanto os escravos estão emparedados nessa casa antiga.

HV – Como foi a construção desses personagens? Parecem representar crises contemporâneas, atualizando a ideia de “crítica a classe média” através de caricaturas.

MF- Eu os fui construindo aos poucos, conforme fazia as versões do romance. Queria que fossem todos muito parecidos na forma de pensar, mas ao mesmo tempo em que tivessem características próprias, que não fossem confundidos pelo leitor. Aos poucos, fui afinando a personalidade de cada um.

HV – O protagonista do livro é um escritor; quais as possibilidades narrativas que surgem ao colocar, num enredo de ficção, um autor? Ele representa em algum sentido suas ideias sobre escrita e mercado?

MF – Acabei colocando um escritor porque queria narrar o livro em primeira pessoa e, ao mesmo tempo, que essa pessoa visse o mundo como um acolchoado de citações literárias. E só um personagem obcecado por literatura poderia fazê-lo. Inicialmente, o personagem não seria um escritor, e o livro era apenas uma vaga ideia na minha cabeça. Quando defini quem narrava – ou seja, quando decidi usar um escritor insatisfeito, que se julga acima dos demais, e no entanto incompreendido – o livro todo se tornou viável, e comecei de fato a escrevê-lo. Mas não é o que eu penso da escrita ou do mercado; é mais um exagero de situações e pessoas que acabo encontrando no mercado.

HV – Gostaria que comentasse o ritmo do livro: na primeira metade é crescente a ideia de que algo vai acontecer, o suspense e a gradual tensão social. Como foi o processo de escrita no sentido de conceber e estruturar essa espécie de jogo?

MF – É um livro partido em duas partes. A primeira é um pouco mais realista, mas com sinais de devaneio. A segunda é puro devaneio e delírio do narrador, com mudanças no tempo verbal e no foco narrativo. Decidi quebrar a narrativa policial clássica, uniforme. Quis colocar um ruído, e que o leitor ficasse tão perdido naquele casarão quanto o narrador. Não me interessava fazer só um policial, seguindo todas as regras do jogo, inclusive as de clareza.

HV – Aos poucos a história se torna um enredo policial; o que te instiga nesse gênero? Acha de alguma forma complementa a ideia de crises sociais?

MF – Alguns dos grandes escritores americanos do século XX são autores de romances policiais: Dashiel Hammett, Raymond Chandler, Patricia Highsmith, para citar apenas três. Eles podem ser enquadrados dentro de um gênero considerado menor, mas são, cada um à sua maneira, geniais, e cada um deu uma importante contribuição à literatura contemporânea. E o formato do policial é um ótimo veículo para se falar de outras coisas. No caso do meu livro, falar de certa classe dominante que adora alardear a própria ignorância e preconceito, como se isso fosse mostra de inteligência.

HV – Seu livro, talvez mesmo sem pretensão, parece comentar uma certa classe média-alta brasileira que nessas eleições ganhou notoriedade pelo discurso raivoso. Como percebe sua esse momento do Brasil? A literatura pode afetar essa realidade?

MF – O momento político no Brasil é um massacre das ideias, tanto de um lado quanto do outro. As pessoas brigaram, se ofenderam e gritaram, e no final não estavam fazendo nada mais do que JOGAR, umas nas outras, pedaços do cérebro dos marqueteiros. Não sei se a literatura pode ajudar. Mas pelo menos podemos tratar disso.

Serviço

Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, de Marcelo Ferroni
Companhia das Letras, 272 páginas
Preço médio: R$ 42 | e-book R$ 29,50

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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