Entrevista – Mario Prata

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Em Mario Prata entrevista uns brasileiros, o autor mineiro imaginou encontros com personalidades da história nacional – conversas informais sobre traições, sexo e política com figuras como Pedro Álvares Cabral, Padre Anchieta, Aleijadinho, Dom Casmurro e Xica da Silva. Mario parece interessado nas possibilidades do humor: tanto as piadas fáceis e nem sempre engraçadas – talvez uma certa herança de um humor popular e decadente – quanto uma ironia que sugere o equilíbrio entre esculhambação e posicionamento político. O autor parece apontar as bases de certas contradições e absurdos que repercutem no momento atual do país, um pouco como um tipo engajado de literatura de entretenimento. Nesta entrevista, Prata opina sobre a imprensa brasileira, a vontade de lançar um novo livro de entrevistas e a maneira como enxerga a relação entre ficção e história.

HUGO VIANA | Seus perfis parecem estruturados nas pesquisas e na versatilidade de sua imaginação. Como foi o equilíbrio entre esses tons distintos, realidade histórica e ficção? 

MARIO PRATA | Só o fato de entrevistar um morto já é ficção. Tem muita coisa que escrevi pra dar molho pro texto. Por exemplo, quis entrevistar Dom Pedro I num bar que adoro em Lisboa. Teve uma hora em que ele tirou um papel do bolso, um pedaço de um discurso de 1830 em que defendia o final da escravatura. Isso é verdade, eu não ia inventar uma coisa dessas. O livro passou pelo crivo de quatro historiadores. Depois de publicado, soube que só tinha um errinho, um personagem que não tinha sobrinha.

HV | O conceito do livro parece amplo o bastante para pensar em novos volumes – e, dependendo da seleção dos entrevistados, um novo olhar sobre a história do Brasil. Pensa em escrever novos textos?

MP | Esse livro começou como uma encomenda da revista Brasileiros  depois de uns oito ou nove a editora Record bancou a ideia de um livro. Não tenho planos de fazer outro livro de entrevista com brasileiros. Tô pensando em fazer um com estrangeiros. Já entrevistei seis: Cleópatra, James Dean, Marilyn Monroe; tô tentando falar com Hitler, mas tá difícil, porque quero fazer via Skype e no buraco onde ele se escondeu não pega sinal, e agora não sei se vou conseguir. Não me lembro dos outros.

HV | O humor é fundamental no livro, desde a maneira como você conduz as entrevistas até como recurso político para comentar a história do Brasil. Como percebe o humor na literatura?

MP | Outro dia falei no Roda Viva que a imprensa brasileira perdeu a porra-louquice. Hoje não existe mais jornal de humor, a imprensa é muito séria e carrancuda. As pessoas ficam assustadas quando chega um livro assim. É porque não estão fazendo mais humor. Tá faltando esculhambação na imprensa, tá tudo muito ruim. Por exemplo, todos são contra Dilma, todos são contra Cunha. Não tem mais jornalista fazendo reportagem. As pessoas são de polos opostos. Fora José Simão, que eu acabei de ler agora, que é muito engraçado. As pessoas levam essas coisas muito a sério, mesmo os corruptos.

HV | Com os perfis, você acaba falando sobre questões urgentes ainda hoje: o lugar rebaixado da cultura no ambiente nacional, a corrupção. Como vê a relação entre a realidade atual e seu livro?

MP | A gente precisa criar pessoas íntegras, gente boa. A escola devia primeiro ensinar o cara a ler, depois a escrever. Não devia se preocupar com caligrafia, se a letra do aluno é bonita. Se o Brasil tá hoje desse jeito é porque não se combatem as causas. Se aumenta a criminalidade, aumentam as cadeias. Alguém falou que cada escola aberta é um presídio fechado. É isso. Tá tudo invertido. Então só tirando sarro, só fazendo humor. Algumas pessoas levam muito a sério a profissão de ladrão. Nós como amadores preferimos rir. Recebi muitos e-mails de professoras dizendo que vão adotar o livro nas escolas. Achei do caralho. Porra, isso pra mim vale mais do que qualquer crítica.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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