Selva Almada e o seu O vento que arrasa

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Vinhetas de existências silenciosas

O livro O vento que arrasa parece esconder na brevidade – na maneira aparentemente simples e natural como apresenta o enredo e os personagens – seu grande potencial de atração literária. A obra, assinada pela escritora argentina Selva Almada, tem apenas quatro personagens e um evento ordinário que os conecta: o carro do reverendo Pearson e de sua filha, Leni, de 16 anos, quebra num trecho empoeirado e abandonado no Chaco argentino, perto da oficina mecânica do Gringo e de seu ajudante, Tapioca, também de 16 anos. A trama ocorre nesse ambiente desolado, durante poucas horas.

Os personagens criados por Selva partem de rótulos reconhecíveis: o homem apaixonante e fanático; a adolescente rebelde; o trabalhador duro e silencioso; o aprendiz inexperiente. Aos poucos, ao longo da narrativa, entre miudezas e flashbacks – breves imagens de um passado nebuloso, vinhetas de existências misteriosas pelo sugerem em silêncio -, Almada oferece emoção e humanidade, contradições e dilemas. “A trama foi imprimindo em cada personagem seu caráter, creio”, diz Selva, em entrevista por e-mail. “Um leitor pode imaginar que um personagem é assim ou assado, mas ele termina de se construir através da ação, me parece. Em situações concretas”, ressalta.

A escritora ganhou destaque no mercado editorial a partir dos elogios da também autora e crítica literária argentina Beatriz Sarlo, que chamou o romance de “surpreendente” e Selva Almada de “uma narradora original”. Os elogios de Sarlo repercutem o sentimento que cresce inesperadamente durante a leitura: um romance breve cuja intensidade se dá nos silêncios, nos enigmas que indica, na maneira única como a autora constrói existências que se revelam em ações de natureza íntima. Nesta entrevista, Selva Almada comenta a construção do enredo e dos personagens, além da maneira como enxerga o mercado literário contemporâneo.

vento que arrasa_oHUGO VIANA | O livro tem uma estrutura interessante: a ação ocorre durante um dia, mas você abre pequenas janelas do passado dos personagens. Como chegou a essa estrutura? Em que sentido a memória é um tema que lhe interessa?

SELVA ALMADA | Comecei a escrever a história pensando que seria um conto. Um conto mais longo do que habitualmente eram meus relatos, mas um conto. No caminho os personagens e a história começaram a se dispersar para outros lugares, essa pequena estrutura que havia pensado (apenas algumas horas nas vidas desses personagens) começou a ficar pequena para o resto das coisas que apareciam e tinham a ver com o passado dos personagens, com as distintas circunstâncias que os haviam levado a essa reunião improvisada pelo destino. Aí apareceu a ideia dos flashbacks como uma possível solução, uma maneira de contar algo sobre eles antes desse dia particular. A memória me interessa como uma maneira de arranhar o passado dos personagens… Não gosto de contar tudo, prefiro que fiquem brancos, furos, vazios; e a memória também tem a ver com isso: com a recordação em si, mas também com o esquecimento, com o nebuloso. Não sei até que ponto foi um tema importante para você neste livro, mas me interessou a maneira como você aproximou a religião do enredo.

HV | Qual sua opinião sobre a religião em geral, em especial, na América Latina? Como a literatura pode afetar o pensamento sobre a religião?

SA | Não sou uma pessoa religiosa. A primeira pessoa a se surpreender por ter escrito um livro em que a religião e a fé estão no centro da trama foi eu. Ao mesmo tempo, creio que o livro transcende o tema religioso e vai mais além: tem mais a ver com o humano do que com o divino, ainda que o divino esteja na boca dos personagens o tempo todo. Não sei se a literatura pode afetar o pensamento sobre a religião; em todo caso, para mim que não acredito em nada, a literatura é a coisa mais parecida com uma religião que posso imaginar. A Argentina é eminentemente católica e eu, como laica, posso te dizer que esta religião faz muito mal ao país. Enquanto a igreja católica esteja no olho do poder em meu país, as mulheres seguirão morrendo por abortos clandestinos, por exemplo.

HV | Muito do enredo se passa em silêncio; é uma preferência como escritora? Que importância você dá às narrativas em que partes significativas da trama ocorrem sem explicação imediata?

SA | Creio que o tom de uma novela se define pela trama. Esta seria uma novela sobre a fé e sobre o amor, sobre a humanidade e sobre a força da natureza. Nesse sentido, penso que o tom, esses silêncios a que você se refere, têm a ver com a maneira em que eu penso que os crentes se falam a seus deuses… não farão com gritos, seria muito atrevido… Aos deuses, ou a Deus, se fala através de sussurros, se fala com o pensamento e com o coração. E esse é o tom desta novela. Gosto de livros em que não se conta tudo, onde há coisas que permanecem escondidas ou que nunca terminam de se armar. Quando um autor me conta tudo, me subjuga, me entedia, sinto que não confia em mim como leitora, que me acha estúpida.

HV | O vento que arrasa é um título que traz imagens e conceitos antes mesmo da leitura; como escolheu este nome? Que ideias pensou em compartilhar com ele?

SA | Na verdade esse não era o título original do livro, embora seja uma derivação. Não sei se ocorreu a mim ou ao meu editor que o título que eu havia escolhido era muito grande. Era um título mais raivosamente religioso, mais incendiário, talvez: “O Vento e o Fogo que iriam Arrasar o Mundo era o Amor de Cristo”. Era um título que saía da boca do reverendo Pearson, era extremo e fanático como o personagem.

HV | Como nota o mercado literário atualmente? Como encontra a fruição literária na Argentina?

SA | Acho que a Argentina está passando por um bom momento graças às editoras pequenas e médias, um fenômeno crescente desde uns dez anos. São essas editoras as que apostam nos novos escritores, as que vão formando novos leitores e circuitos. Eu edito na Mardulce, que é uma dessas editoras, e também edito em um dos grupos editoriais maiores da Argentina. Mas acho que o mais interessante dos últimos anos é publicado sempre nas pequenas editoras.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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