Eram duas as janelas, (ou, sobre mapas)

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Para C.

Nem de perto era possível sucumbir às travessuras daquelas linhas imaginárias que forjavam a separação de um lugar e outro. De memória, eu revia o mapa que por anos adormecera ao lado direito da minha janela que dava prum pedaço de praça e fragmentos de ruas e avenidas que se continuavam até onde a vista não podia mais. Reinventava meu mundo como se pudesse me transportar para dentro daquele retângulo pensado por tracejados cartesianos que se deixavam rasgar por linhas indisciplinadas. Se a linha era azul, eu insistia em me mergulhar um tanto mais. Havia de descobrir o que de silêncio e histórias submersas eram feitos aqueles rios. Mas se, ao invés da linha, o azul borrava no mapa e me metia medo. Não deve ser coisa simples atravessar oceano.

Por detrás de minha própria humanidade, que se forjou sob tantas dores, há uma arrogância latejando sua existência sempre que tenho oportunidade de vislumbre daquilo que é infinito. Tenho por certo que é esse risco de que tudo um dia se perca de modo inevitável que a alma finge humildade e empatia com as coisas fugidias. Sim, fingimento. A alma sempre deseja as coisas impossíveis. Anela a ubiquidade. Não é afeita ao corpo em matéria densa. Mas matéria porosa, esparsa, quase impalpável – quer ser como vento. O fim da madrugada é o descansar daqueles pensamentos que pulsam apenas quando ainda há escuridão por todos os lugares. Eram incertas as maneiras que ela encontrava para equilibrar essas três ou quatro dimensões daquilo que se parece ser. E parece que o mais vulnerável e bobo desses estados de existir é o corpo. É nele que tudo dói, tudo sofre, tudo apavora. É quase um estado de loucura esse corpo-vivo que se vela sob o pretexto de sobreviver. O que chamamos vida é apenas um estado da morte? E o corpo, um aniquilador de sonhos? Quem é esse que ousa sonhar acordado?

Eram os sapatos que eu achava inadequados. Me faziam calos nos calcanhares, e nas pontas dos penúltimos dedos. Se os pés suavam demais, as meias molhadas incentivavam as bolhas de sangue. O caminhar passava de um cansaço consentido para um martírio medonho. Precisava chegar. Ainda que as marcações do que parecia ter sido uma rua fossem vívidas, meus passos pendiam para outras marcações menos óbvias. Ela sempre me pareceu real demais para ser real. Nada nela escapava de um raciocínio preciso. Em relação a ela era possível vislumbrar o absurdo, mas nunca a contradição. Acho que era exatamente por isso que me fez sentir tragado para dentro da sua existência. Para seu modo de se colocar no mundo de maneira concisa, sem firulas ou lacunas. Tudo nela tinha o quê de materialidade, por assim dizer. Me desculpe, eu não sou mesmo bom com as palavras. Às vezes acho que poderia ter levado uma vida inteira sem ter que ter dito um substantivo sequer. Há sempre um zumbido que me lembra a vida sempre em estado de recomeço. Ela e eu era a mais doce impossibilidade. Sessenta por cento do meu dia acontecia em forma de um aperto no peito que me paralisava: o que dela poderia me escapar?

Talvez eu tenha voltado demasiadamente minhas atenções aos ritmos das coisas, e isso desde criança, então a linguagem da música me é mais fácil de entender. Uma vez que se aprende como as notas se abraçam em acordes todo o resto parece apenas querer salmodiar ou corromper esse abraço. Então, foi assim que me vi compondo com Helena uma elegia. Mas para ela, tudo tomava corpo. Tudo era como um rasgo. Ela tinha mais prazer em descobrir verdades do que lidar com a própria vida. Ou seria ao contrário? Talvez, se importasse demais com o significado das coisas e isso lhe era a própria vida. Ainda que lhe custasse a alegria. O prazer do deleite das coisas simples. De todo o tempo que passei ao seu lado, jamais pude saber se foi feliz. Felicidade era uma palavra que não cabia no seu vocabulário. Não me lembro uma única vez se dizendo feliz com algo ou alguém. Quando a vi umas poucas vezes falar em felicidade, era como palavra a ser investigada. Era como se a felicidade não existisse em si. Mas o que estava por detrás da palavra era onde estava todo o sentido. Como se a felicidade fosse algum tipo de artimanha humana para fugir de algo.

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