A estrada que dá para Vau

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Para Bebeto

Foi uma caminhada de quase nove horas debaixo de um céu estrelado, ele dizia. O frio era imenso, mas ignorado pelo quente do sangue e o muito cansaço. Não havia iluminação que não fosse a da lua naquela estrada branca. A subida tinha um jeito de nunca. Cada três quilômetros contados arrefeciam as vontades.

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Quando cheguei lá, era alguém sedenta de um lugar que pudesse me inundar de muitas águas. Fugida de mim mesma, vivia o oco de um coração em frangalhos. Como era mesmo que se seguia sorrindo sincera sem o constrangimento de ter nada para dar? Me reinventei ali, no seu abraço estreito. Nas suas palavras doces de rio que segue calmo, sem temer a seca. Sobrevivi ao caminho que por pouco me levara para um abismo, enquanto ele me conduzia sempre manso para horas de prosa, cigarros de palha e chás feitos de plantas recém colhidas. Sua medicina morava na varanda. Uma horta suspensa que, de onde eu me sentava para avistar, quase sempre ao amanhecer, era ela mesma, em seus verdes-dourados, um belo horizonte. Esse caminho para o abismo, tinha eu engendrado como tentativa de fuga de um amor mal amado, para outro que até podia ter sido amor, mas era mais maldoso ainda. De tempos em tempos, há sempre uma rota suicida. Atalhos que eu nomeio, cá dentro, de uma pessoa a outra que eu reescrevo de pouca realidade, e lembranças do último amor desamado.

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Quem inventou a linguagem foi o sol. Ele disse. Quando os raios desvendaram diante dos nossos olhos o contorno das coisas, a palavra na língua quis também delinear as coisas que existem por dentro da gente. Já ouviu a pele? Perguntou. Eu vi a voz. Lhe falei. Vi monstros de insinceridade na fala de quem jurei nunca deixar. Eu dizia: – tudo tão confuso. E a voz me dizia: – não há nada para confundir. Daí eu passava para a leitura dos gestos, e esses eram encantadoramente arredios. Bom dia, mianêga! Ele me acordava cedo para que eu não perdesse de testemunhar o bonito da vida. Há café no bule azul como o céu intenso que amanheceu do lado de fora da janela. Vai lá ver. Melhor lugar para ver distâncias é ali diante do Fusca verde que não tardará amadurecer. Tem broa. Mas coisa boa é pão com a geléia de tamarindo que o primo trouxe lá da roça. Foi uma semana com ele, e o trabalho me convocou a ir morar no centro da cidade.

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Era final de semana, e decidimos refazer aquela viagem, dessa vez, de carro. Enquanto ele reconhecia encantado arbustos do cerrado, blocos de pedra e uma casa, dizia, estamos em Vau. Mas nunca era Vau. Era São Gonçalo estendida por todos os lados em suas cachoeiras e estradas de poeira bastante vermelha.

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O barulho dos dias e o nervoso dos atos, planejavam me conduzir de volta àquele desvio do sentir desejos insensatos. Até que um dia, ao me madrugar, vi dali do alto do prédio uma neblina branquíssima e densa que havia tomado toda a cidade. E naquele café com cigarro solidários com o meu estar só, me vi cartografando maneiras de usar aquela nuvem improvável para que me levasse de volta pra ele. Mal planejei meu primeiro passeio, e os raios de sol começaram a despir a paisagem. Frustrada, voltei para a cama lamentando minha própria demora. Milagres não são feitos para almas que hesitam em demasiado.

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Quando lembro que aprendi a desviar dos abismos, fecho os olhos e faço uma prece. E me recordo da areia branca por debaixo dos pés, eu em seu abraço estreito. Ele em meu sorriso largo que eu nunca soube como esconder sempre que o encontro pacato debaixo de sua barba morena.

 

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