A estrada que dá para Vau, parte II

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Para Bebeto

Nada me parecia mais robusto do que aquela fragilidade que ele me descreveu. De quando se viu atirado naquele pedaço de infinito que se meteu em busca de alguma história mineira guardada em seus habitantes mais ternos. Esses que moram nos pés de montanhas e aprenderam a amanhecer o dia com cheiro de café fresco.

Ele andava com uma picareta na mão na esperança de que deixassem cavar buracos em seus quintais. Eram dos objetos que encontrava na terra revirada que as histórias ganhavam mágica. Como se voltassem a existir não como lembrança, mas passagem aberta no tempo que possibilitava sentir o cheiro dos gestos que haviam ficado sufocados nas camadas dos anos.

*

Foi com ele que aprendi a ouvir estrelas. É que desde cedo soube de mim como alguém em quem a existência não tem a paciência de chama de vela, mas de fósforo que queima ávido entortando o que deixa para trás. Sempre sobraram, em mim, ansiedades. Essas estocadas que, de vez em quando, acontecem de dentro para fora doendo a iminência das coisas que nem sempre acontecem.

Quando a vida por vir dói por dentro da gente não há silêncio que ajude a ouvir o céu. Porque daqui para lá é passado. E passado em gente inquieta não sabe se conduzir em mansidão. Tem sempre um grito, um lamento, algo que sangra o vazio das perdas.

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Eu era como vau, quando ele me acolheu em sua casa. Esse trecho esquálido de rio em que mal se pode molhar os pés. Nunca tinha sido tão rasa no afeto. Eu passava o dia entre a varanda e a cama esperando ele voltar do trabalho. Entre as leituras, as escritas e des-desejar um alguém que já não tinha, debruçada sobre suas plantas curativas, tentando enxergar o fim daquela paisagem de pedra.

Ao alaranjar da vida do lado de fora do quarto, eu me dava conta do sossego que antecedia sua chegada. Ia tomar banho porque logo mais haveria o tempo da beleza. Os dedos de prosa, o café forte, o pão quentinho, o queijo meia cura e depois as músicas que aprendíamos a enxergar de olhos fechados.

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Naquela viagem que fizemos, paramos numa beira de estrada para ser das estrelas. Foi a primeira vez que as ouvi. Acho que já havíamos subido montanha acima suficiente para estar mais perto do céu. Ou era em mim que o passado tinha aprendido a ficar calado? Não sei. Sei dos beijos que elas me deram, e dos sussurros no pé do ouvido me falando da calma que é saber atravessar distâncias.

Quando chegamos em Diamantina, não pude acreditar nos meus olhos. Uma canção estrondosa ecoava por entre os veios da cidade. Das sacadas das casas dezenas de músicos entoavam melodias, do meio das ruas as pessoas cantavam a plenos pulmões sem se importar com escala tonal. Acompanhados de um copo de vinho, tudo era harmonia.

Encontramos abrigo numa singela pousada que oferecia uma sopa quente aos viajantes noturnos e café da manhã generoso aos que ficavam. Naquela manhãzinha, ele me tirou o sono antes do meu tempo de querer acordar para ver os dourados que banhavam as casas seculares e os verdes-azuis que se misturavam confundindo o que era céu, nuvem e montanha.

Seguimos viagem rumo a Milho Verde. Quando nos perdemos no caminho em que para ele tudo era Vau.

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No momento em que ele me contava daquela sua jornada sob a lua e me falou do corpo que latejava tantas distâncias percorridas por sobre a estrada de areia branca, soube que nessa vida são raros os sorrisos que trazem a densidade de cachoeira caudalosa. Risos que se riem à toa não sabem por que caminhos vieram por isso não conseguem preencher espaços.

Ali, entendi sobre jornadas e passei a não mais me afligir com esperas. E parece mesmo que estou sempre à espera. Sempre na esquina de algo ou alguém. Sem saber o que vem lá, mas querendo que venha. Porque quando vem é que a vida aparece e a gente aprende a reescrever paradeiros.

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Esses dias ele me escreveu saudades, falou que meu sorriso ‘tava igual a cheiro de mexerica espalhado pela casa.

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