Feliz ano novo – Rubem Fonseca

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Tapa na cara

feliz_ano_novoO conto Feliz Ano Novo não apenas dá nome ao livro como o abre como se fosse um tiro de doze ecoando aterrorizante. É um chute arrombando a porta que nos impede enxergar a podreira do mundo que nos cerca, a lama onde nós também estamos enfiados.

Mostra um mundo que fingimos não existir porque não queremos nos deparar com a nossa responsabilidade. Não matamos nem roubamos como eles, mas também somos filhos da puta. Mas por que, o que foi que fizemos? Nada, isso mesmo, não fizemos nada. Seguimos nossas vidinhas hipócritas desprezando aqueles homens. Nós que os criamos, ou melhor, deixamos que se criassem como bichos, sem acesso a educação, emprego, oportunidades. E agora, quando se organizam reivindicando o que são deles, baseados em suas próprias leis, ficamos amedrontados com o nosso Frankenstein.

A selvageria evidenciada através da violência gratuita, do matar por matar, mostra que aquele não é um simples assalto, mas os primórdios de uma revolução. Não querem apenas nosso dinheiro e nossas jóias, querem vingança, demarcando território com merda em nossas camas, estuprando nossas mulheres, matando por diversão. O grande trunfo de Feliz Ano Novo é tratar a violência com frieza, naturalidade, como se fosse algo bastante corriqueiro, o que a torna ainda mais cruel.

O livro só pelo primeiro conto já valeria, mas ainda há muito de Rubem Fonseca nas páginas que restam. É bem verdade que os outros contos não seguem o ritmo, até mesmo porque depois da paulada de Feliz Ano Novo, poucos seriam capazes disto. Uns decepcionam (Corações Solitários; Agruras de um jovem escritor; O Campeonato), outros ficam no purgatório (Abril, no Rio, em 1970; Botando pra quebrar; Nau Catrineta) e alguns surpreendem (Passeio Noturno; Dia dos Namorados; O Outro; O Pedido; Entrevista; 74 Degraus; Intestino Grosso).

Dividido em duas partes, Passeio Noturno fala sobre um homem que, para aliviar o estresse e extravasar a monotonia de sua vida burocrática, passeia de carro procurando pedestres para atropelar. O melhor de Passeio Noturno encontra-se na segunda parte, onde ocorre o encontro deste homem com uma mulher que ele conheceu no trânsito. A partir desta situação, Rubem Fonseca sugere o mistério através das inúmeras possibilidades que existem em torno do desconhecido, algumas delas perigosas.

Isto também é a força motora dos contos Entrevista e O Outro. Porém, nestes o mistério é potencializado, pois o leitor só tem acesso a um dos personagens, ficando exposto a apenas um ponto de vista, enquanto que o outro permanece envolto de mistério. Além disso, em O Outro se pode observar o retrato do momento em que vivemos, violência, paranóia com segurança, a nossa vulnerabilidade e alienação.

A história de Dia dos Namorados já seria interessante, mas torna-se ainda melhor por conta da sua montagem. Rubem Fonseca quebra o que poderia ser contado de forma linear, “dividindo” a história em duas e alternando-as de maneira semelhante ao que ocorre em O Outro Lado da Meia-Noite de Sidney Sheldon.

Pelo mesmo motivo destaco 74 Graus. Aqui o autor mostra habilidade técnica ao compor uma história através de vários personagens, promovendo um rodízio entre eles na narração da história. A alternância dos narradores é dinâmica como um diálogo, mas permite o acesso a informações que vão além da fala e das expressões corporais, chegando ao que fica escondido no pensamento. Esta técnica é utilizada em Os Sinos da Agonia de Autran Dourado e também se pode observá-la no cinema, em filmes como Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempo de Violência e Jackie Brown do diretor Quentin Tarantino.

O livro é fechado por Intestino Grosso, onde Rubem Fonseca cria seu próprio Rubem Fonseca, criando um autor que usa a sujeira, a violência, a miséria e escatologias – tudo o que há de mais desagradável – para compor sua literatura. Ele se expressa justamente através do que as pessoas mais desejam esquecer. Intestino Grosso é o posfácio transformado em conto.

Thiago Corrêa
lido em Jan. de 2004
escrito em 05.05.2004

: : TRECHO : :

“A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha uma anel que não saía. Como nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela”. (p. 18, conto: Feliz Ano Novo).

: : FICHA TÉCNICA : :

Feliz Ano Novo
Rubem Fonseca
Companhia das Letras, 2a. edição, 1999
174 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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