Frases do Clisertão

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Entre os benefícios de eventos de literatura que reúnem escritores em debates abertos ao público está a possibilidade de conhecer diferentes mecanismos de criação, perspectivas únicas sobre aspectos gerais e específicos da literatura, do mercado editorial.

Nesse sentido, a segunda edição do Clisertão – que começou na segunda-feira, em Petrolina, e termina hoje – também pode ser visto como um estímulo à reflexão literária. Afinal, o evento levou ao Interior debates importantes no pensamento crítico contemporâneo – sobre mercado, produção, hábitos de leitura.

Na programação, destaque para a participação dos escritores Sidney Rocha, Bruno Liberal e Nivaldo Tenório, que debateram sobre a natureza do conto; e José Luiz Passos, que falou sobre sua produção literária e Machado de Assis – autor analisado no ensaio recém lançado Romance com pessoas.

Para dar uma amostra do que foi o Clisertão, separei algumas frases interessantes que ouvi por lá:

Sidney Rocha

“Um texto bom termina vingando naturalmente, independente de conto ou romance. Alice Munro é contista e venceu o prêmio Nobel ano passado. Ela não estava especialmente preocupada com isso. Quando isso se torna uma preocupação, você deixa de ser escritor e vira outra coisa”

“A definição de conto é uma catalogação acadêmica. A gente tende a categorizar demais. Nos tornamos um pouco especialistas demais na defesa da literatura quando o problema é mais embaixo. Estamos perdendo leitores e ganhando escritores. A grande dificuldade hoje em dia é o leitor”

“Venho falando em minha obra sobre decadência e morte. Como os apogeus dos artistas estão cada vez mais rápidos. Tento escrever sobre sensações humanas. Se seu texto não mexer na cabeça ou no estômago do leitor, não atingiu o alvo certo”

“Um simples gesto ou uma matéria de jornal pode inspirar. Então, transformo esse mateiral. As pessoas estão perdendo a capacidade de se emocionar. Minha literatura procurar socar pessoas que não se chocam com programas policiais e choram com novelas. Procuro transformar a realidade em algo mágico e imaginativo.

Bruno Liberal

“Meu livro é digamos inocente, não veio de um estudo de técnicas literárias. Escrevi na ingenuidade carregado das minhas leituras e referências. Pensei em criar uma forma em com o contexto certo”

“Sou otimista mas não escrevo como um otimista. Escrevo sobre o que me assusta, meu eterno medo sobre algo que está por vir. O ‘olho morto’ me perseguiu por 10 anos. Depois do livro ele desapareceu”

 “Me preocupo com o sentimento que a literatura desperta. Meu primeiro leitor é minha esposa. Ela diz se está bom. Se ela falar que não entendeu nada, eu mudo. Às vezes você quer dizer algo que compreende dentro de sua cabeça, mas transmitir para o leitor é complexo. Por isso é importante um termômetro. Gosto de me preocupar com isso, porque gosto de ler e me emocionar.”

Nivaldo Tenório

“Vivo adiando meu projeto literário. Sou a definição da procrastinação.”

José Luiz Passos

“Machado de Assis fez a transição do tipo social para a personagem e da personagem para uma personagem específica: a personagem enquanto pessoa, que é aquela em quem nos podemos identificar certo lastro mais denso, ao mesmo tempo psicológico e moral; ou seja, a personagem que aprende com seus erros, que do início ao fim do romance muda. Nem todas são assim, nem sequer nos romances contemporâneos. A maioria é sobre tipos sociais: os personagens são os mesmos do começo ao fim. Eles representam, digamos, angústias presentes da disfunção urbana. Permanecem os mesmos da página 1 à 250. Machado inventa para o Brasil o dinamismo moral da personagem. isso nos leva a uma concepção de entidade de ficção mais próxima aquilo que concebemos como pessoas. O realismo dá um passo adiante na constituição do indivíduo”

“Eu aprendi com Machado, senti mais e mais vontade de escrever por causa do fascínio que tenho pelo personagem machadiano. Não sem razão se você ler minha ficção você vai ver que ela tem uma preocupação muito grande com aspectos que destaco nos livros de machado: a dupla cronologia, personagens que estão no presente e narram coisas que estão no passado e são fundamentais para eles entenderem coisas que estão no presente. Não tenho interesse por personagens que não têm nome, que não têm memória, que não têm contradições – até inconscientes. Que as contradições sejam inconscientes para o personagem e visíveis para o leitor: isso é Machado. É a denúncia involuntária do eu. É Brás Cubas”

“Dizem: Machado era um romancista urbano, contemporâneo. Ele nunca escreveu nenhum romance sobre a sociedade contemporânea dele. As ações narradas nos romances estão no passado de 15 a 65 anos. Se fosse autor hoje, Machado estaria escrevendo sobre a década de 1970 e 80, sobre pessoas com profunda nostalgia por um Brasil que se encerrou e cujo encerramento ainda representa um obstáculo para o presente. Isso também faço na minha ficção. Não é a nostalgia do açúcar. O que há é: o problema de sujeitos para os quais o tempo pesa. Minha tradição é realista e memorialista”

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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