Gestos políticos

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A terceira edição do Festival Internacional de Poesia do Recife (FIP) terminou no domingo e deixou boa impressão. Há algo que parece evidente e talvez por isso necessário: é preciso enaltecer um evento dedicado inteiramente à poesia – gênero que nos últimos anos parece à margem do mercado editorial -, com uma curadoria que busca novos e interessantes autores pouco conhecidos pelo público.

Outro debate simbólico que o evento suscitou foi a escolha do local: a Torre Malakoff, equipamento cultural que fica no Recife Antigo, espaço em pauta nos debates recentes sobre ocupação urbana e política cultural. O FIP, assim como o Janela Internacional de Cinema, no São Luiz, sugere que é possível uma programação cultural interessante e que há público para isso; basta, talvez, um maior incentivo.

Um ponto negativo a se destacar sobre o local, talvez externo ao evento, foi o entorno: enquanto aconteciam debates e declamações, do lado de fora havia uma feirinha gastronômica, associando traços típicos da culinária pernambucana à Copa do Mundo, com cartazes que meio que bloqueavam o acesso ao FIP. Quem não ultrapassasse o amontoado de barraquinhas talvez não percebesse que um festival de poesia acontecia logo ali.

Entre os autores, destaco o paulista Leandro Durazzo e a portuguesa Matilde Campilho. Autores pouco conhecidos, que batalham para divulgar seus primeiros livros – “Jóquei (Tinta-da-China)”, de Matilde, “terra húmyda”, de Leandro. Atuei como mediador da mesa “Para reinaugurar o sagrado” com esses autores e a impressão é de escritores com algo importante a compartilhar, através de textos, performances, gestos, posicionamentos.

O FIP, em parceria com o projeto Mostra PE, trouxe ainda as Pelejas Poéticas, disputas baseadas na intensidade lírica do momento, misturando estilos e tradições, abrindo um espaço essencial para a produção pernambucana. Agora, resta torcer para que o evento continue crescendo – mantendo seu perfil de resistência cultural e abertura a novas possibilidades narrativas.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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