Guerra Civil – Mark Millar e Steve McNiven

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PRÓLOGO

Autores: Mark Millar nasceu em 1969, CoatBridge, Escócia. Como roteirista, já colaborou com a DC Comics, Icon Comics e Marvel Comics. Foi nomeado quatro vezes ao Prêmio Eisner. É o criador de Kick Ass e da série Nemesis.

Steve McNiven nasceu em 1967, em Halifax, no Canadá. É ilustrador e tem realizado importantes trabalhos para a Marvel Comics. Além de Guerra Civil, entre seus trabalhos mais significativos estão Velho Logan e Nemesis.

Livro: Edição luxuosa de capa dura de Guerra Civil, que reúne as sete revistas do eixo principal da série mais vendida dos últimos dez anos. No Brasil, ela foi publicada entre julho de 2007 e janeiro de 2008.

Tema e Enredo: Para alavancar a audiência do seu reality-show, os Novos Guerreiros decidem enfrentar vilões poderosos e o ataque resulta numa tragédia registrada pelas câmeras de televisão e transmitida ao vivo. Com a repercussão negativa do caso, o governo americano decide aprovar a Lei de Registro de Super-humanos, o que coloca os super-heróis uns contra os outros.

Forma: Originalmente, a trama foi espalhada em 102 revistas – onde histórias paralelas à Guerra Civil se ramificaram compondo um caleidoscópio de pontos de vista, onde cada exemplar foi trabalhado sob a perspectiva individual do personagem em questão. Esse caráter plural de olhares, no entanto, perde parte da sua força original na compilação publicada pela Panini, que se restringiu apenas às revistas do eixo principal da série.

CRÍTICA

Penumbras do baile de máscaras

O mundo dos super-heróis no universo da Marvel Comics passou por uma revolução a partir de julho de 2006. A exemplo do que lemos todos os dias nas manchetes dos jornais, a série Guerra Civil mostrou que as noções de justiça e crime, de certo e errado também são frágeis no mundo dos quadrinhos. Publicada no Brasil entre julho de 2007 e janeiro de 2008, a obra do roteirista Mark Millar e do desenhista Steve McNiven ganha uma nova chance de ser apreciada com a publicação do volume Guerra Civil pela Panini, numa edição luxuosa de capa dura, que reúne as sete revistas do eixo principal da série mais vendida dos últimos dez anos.

Demonstrando sintonia com o mundo real, o estopim da crise que leva o confronto entre os mascarados adquire um viés crítico em relação ao mundo das celebridades. Para alavancar a audiência do seu reality-show, os Novos Guerreiros decidem enfrentar vilões poderosos e o ataque resulta numa explosão perto de uma escola em Stamford, matando cerca de 900 pessoas, na sua maioria crianças. Uma tragédia registrada pelas câmeras de televisão e transmitida ao vivo. Com a repercussão negativa do caso, o governo americano decide aprovar a Lei de Registro de Super-humanos.

O recurso de exigir a revelação das identidades secretas para colocar heróis em caminhos contrários não chega a ser novo no mundo dos quadrinhos, já foi explorado pelos clássicos dos quadrinhos Watchmen de Allan Moore e David Gibbons (1986) e O cavaleiro das trevas de Frank Miller (1987). Mas em Guerra Civil, o tema ganha um novo sentido, sai das discussões em torno da Guerra Fria e se contextualiza no debate da Guerra ao Terror, após os eventos que resultaram na destruição das Torres Gêmeas no 11 de Setembro, quando a liberdade dos cidadãos passou por outra série de cerceamentos.

A nova lei causa um racha entre os mascarados. De um lado estão os que acreditam na necessidade do estabelecimento de limites na atuação dos mascarados para evitar tragédias como a de Stamford; e do outro estão os que, além de temerem pôr em risco seus familiares com o fim das identidades secretas, receiam em colaborar com o governo e serem usados como soldados em ações questionáveis que envolvem a política americana.

Nesses sete capítulos reunidos no livro, mocinhos viram bandidos e vilões passam a colaborar com o Governo dos Estados Unidos na captura dos seus arquiinimigos. Heróis históricos como Capitão América e Homem-de-Ferro, antes colegas no poderoso grupo Os Vingadores, aparecem em posições opostas na linha de combate, cada um liderando seu grupo de mascarados. A ironia (talvez pensada pela Marvel como uma forma de diminuir o peso patriótico do personagem, numa época em que a política externa americana foi motivo de protestos mundo afora) é o fato do Capitão América, criado como arma secreta do exército dos EUA para combater o nazismo de Adolf Hitler na 2ª Guerra Mundial, voltar-se contra o governo e virar o principal opositor da Lei de Registro de Super-humanos.

O mérito do enredo proposto por Millar está na sua capacidade de enxergar as gradações de cinza que existem no espaço entre o branco e o preto, fazendo com que cada personagem responda à sua própria noção de ética. A estratégia dá um caráter humano à história, evitando o tradicional dualismo do bem contra o mal das narrativas de super-heróis. Para aumentar ainda mais a complexidade do enredo, a história investe em personagens dúbios como o grupo de ex-vilões Thunderbolts e do sempre polêmico Justiceiro. Como fiel da balança aparecem em destaque o Homem-Aranha (que revela em cadeia nacional ser o fotógrafo Peter Parker) e Sue Storm (a Mulher Invisível, do Quarteto Fantástico), que se mostram oscilantes durante o conflito.

Esse caráter plural de olhares, no entanto, perde parte da sua força original na compilação publicada pela Panini, que se restringiu apenas às revistas do eixo principal da série. Originalmente, a trama foi espalhada em 102 revistas – onde histórias paralelas à Guerra Civil se ramificaram em títulos como O incrível Homem-Aranha, Wolverine, Quarteto Fantástico, Mulher Hulk, X-Factor e Pantera Negra –, compondo um caleidoscópio de pontos de vista, onde cada exemplar foi trabalhado sob a perspectiva individual do personagem em questão. E é de se lamentar, sobretudo, a exclusão das 11 edições da revista Front Line, que conferia mais complexidade humana à narrativa por abordar o conflito através do trabalho de jornalistas encarregados de cobrir o assunto, retomando a ideia da série Marvels (1994), escrita por Kurt Busiek e desenhada por Alex Ross.

Lido em setembro de 2010
Escrito em 01.10.2010


Relação com os autores: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

Guerra Civil
Mark Millar (roteiro), Steve McNiven (desenhos)
Tradução de Jotapê Martins
Panini Books
1a. edição, 2010
210 páginas

TRECHO

“(Homem-Aranha) – Vai saber! Mas se estão forçando todo mundo a trabalhar pro Tio Sam, acho que um monte de gente vai pendurar os colantes. (Sue Storm) – Identidade secreta não é tão importante assim. O Quarteto Fantástico é conhecido do público desde o começo. E isso nunca foi uma grande preocupação. (Homem-Aranha) – Sei, sei… Não é até o dia em que eu chegar em casa e encontrar minha esposa empalada num braço do Dr. Octopus ou a mulher que me criou suplicando pra não ser morta.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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