Helder Herik e o seu Rinoceronte dromedário

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Helder Herik é fã do System of a Down e, como tal, terminou atrasando um bocado esta entrevista porque foi curtir o show deles no Rock in Rio. Apesar da viagem ter sido no meio do semestre, ele também é professor, disléxico e escritor. Escritor mesmo, dos bons, já com cinco livros publicados. Os quatro primeiros – Amorte, As plantas crescem latindo, Sobre a lápide: o musgo, A invenção dos avós – saíram pelo selo u-Carbureto, que mantém com outros dois autores da cidade de Garanhuns, Nivaldo Tenório e Mário Rodrigues. Em todos eles, Helder Herik recorre ao olhar infantil para nos presentear com versos e tiradas que desvelam o mundo sob o impacto da descoberta. Talvez por ainda guardar essa ingenuidade, ele decidiu que queria um livro costurado, não apenas colado. Por isso se inscreveu no 2º Prêmio Pernambuco de Literatura, tornando-se um dos vencedores com o livro Rinoceronte dromedário (2015), tema desta entrevista.

Capa_Rinoceronte DromedárioTHIAGO CORRÊA | Rinoceronte dromedário é o seu quinto livro. Todos os outros haviam sido publicados pela u-Carbureto, que é um projeto independente mantido por você em parceria com Nivaldo Tenório e Mário Rodrigues. Por que desta vez você resolveu submeter o livro ao Prêmio Pernambuco de Literatura?

Helder Herik | Veja bem, sou um sujeito meio falho, daí que não sei responder essa resposta direito, mas acredito em três hipóteses:

1. Pode parecer besteira, é vá lá que seja, mas eu queria muito um livro costurado. Eu queria abrir o livro sem medo das folhas se soltarem. Queria ver aquela linha de nylon furando o livro, mergulhando aqui e ali, igual um golfinho. As edições da u-Carbureto são lindas, mas os livros são colados e eu queria um livro costurado. Agora você veja bem como eu sou um sujeito falhado, ainda hoje não sei se o Rinoceronte dromedário e costurado e colado ou somente colado. Sou desse jeito, dessa maneira.

2. Eu carregava uma dor terrível, desde a infância, que era justamente nunca ter ganho nada, nunca ter sido bom em nada. No futebol, só me colocavam pra jogar por piedade, pra completar o time ou nem isso, jogavam com um a menos mesmo. O fracasso foi se estendendo por todas as áreas da vida. Sou um sujeito falhado, já disse. Acredito estar vivendo no esboço, a próxima vida é que será pra valer mesmo, esta aqui é só um treino, um ensaio. Então eu precisa ter uma gloria nesta vida. E mandei o livro e puf, fui um dos vencedores!

3. Todo mundo me perguntava se eu iria participar do Prêmio, eu dizia que não, que não tinha nenhum livro pronto, mas que achava bonito os escritores do estado se mobilizando, se inscrevendo. Aquilo me deu uma inveja danada. O prazo estava para se acabar e varei a noite fazendo uns poemas pra completar as cinquenta páginas exigidas no edital.

TC | Como você acha que Rinoceronte dromedário se relaciona com seus livros anteriores? Você considera que ele é uma continuação do que já vinha publicando antes ou ele, de alguma forma, representa uma ruptura?

HH | Acredito que ele continua alguns temas presentes nos livros anteriores. A infância é bem viva. Essa mágica da infância está presente também no primeiro e no último livro de Manoel de Barros. A infância que Paul Celan dizia ser a fonte de todo o seu fazer literário. A infância que Manuel Bandeira dizia ser a verdadeira poesia da vida. Outro tema que se faz presente é a dislexia, essa dificuldade em ler e escrever, que carrego e, curiosamente, me orgulho. Esse ver o mundo pelo avesso, esse existir de ponta cabeça, esse estar nas nuvens. Mas o livro traz um novo tema que é a loucura. O poema-dramático Malouco mostra a amizade entre uma criança e um louco. Na minha concepção crianças e loucos vivem o mais profundo estado poético. Que é aquele estado em que o faz de conta e a realidade se misturam, mas o faz de conta se sobrepõe, se poetifica.

TC | O livro é dividido em quatro partes. Queria que você explicasse como se deu essas divisões. E o que cada parte tem de particular para justificar uma divisão?

HH | Taí uma coisa que eu gostaria de deixar bem claro: sou um sujeito falhado, suponho que até me saboto, às vezes. Atraso, estouro prazos, esqueço o dia de meu aniversário, assino documentos sem ler e mais um bilhão de coisas. Mas os livros sempre me saíram bem organizados, bem dividido. Eu coloco cada loucura em seu devido galho, cada faísca na sua fogueira.

A primeira parte do livro se chama Bichos que dão da Poesia. A ideia foi ver os bichos além da criatura que eles são. Os bichos em constantes metamorfoses. Daí que as formigas se transformam em letras e, neste caso, o formigueiro seria um livro. Um sapato que foi jogado ao lixo viraria um sapo e uma casca de ferida se desprenderia da pele e viraria uma barata. E assim essa primeira parte segue.

A segunda parte chamei de humanizamento. Basicamente seria a possibilidade das coisas impossíveis. De maneira que uma criança que não tivesse irmão, nem amigos e nem brinquedos, poderia brincar com a sua própria sombra. A sombra seria seu irmãozinho gêmeo. Fiz muito isso na infância. Às vezes me intrigava desse irmão e passava o dia dentro de casa, evitando o sol. De outras vezes brincávamos por horas infinitas, até a cabeça me doer de tanto tomar sol.

A terceira parte diz respeito a Dislexia e também tem ligação direto com a minha infância, onde eu olhava para uma coisa e pensava noutra. Ainda hoje sou assim: olho para a frente e vejo o que está por detrás das coisas. Sabe CSI, the Mentalist, Sherlock Holmes? Pronto, diria que a coisa funciona mais ou menos assim. De modo que uma caneta pode tanto ser um revolver, um microfone ou um canivete.

E por fim a quarta parte que chamei de Malouco. É a parte que mais gosto e a de que menos sei falar. Sei que é a amizade entre um garoto e um louco e que um aprende com o outro o que é a poesia. Sei que o menino vai ficando louco e o louco vai ficando menino. E nisto os dois vão ficando Poetas. É uma estória bonita. Esta amizade voltará em outros livros.

TC | A dislexia é um tema que você já vinha abordando em livros anteriores, mas desta vez você optou por não trabalhar o tema a partir da grafia das palavras, como fez em A invenção dos avós. Por que a mudança? E como desta vez você passou a trabalhar o tema?

HH | Verdade, você observou bem. N’A invenção dos avós eu quis criar uma confusão na leitura, fragmentando os poemas, partindo-os, criando hiatos. Porque é mais ou menos assim que um dislexo ler. Ele cata as letras. É como se as letras fossem besourinhos que vão de um lado pro outro, de modo que as silabas se misturam e vira esse carrossel todo.

Aprendi a viver com a dislexia. Aliás, nem lembro que a tenho. Já é o meu natural. Eu me equilibro no caos. Praticamente me equilibro. Mas na infância a dislexia me foi muito sofrida. Causara-me um retardo de tal modo que ao fazer a primeira série primaria, aconselharam que eu descesse de ano. Que voltasse para a alfabetização. Fui talvez a única criança que ao meio do ano, deixei a turma da primeira série para me juntar a turma da alfabetização. E somente aos doze anos é que eu aprendi a ler. Ainda hoje eu tenho uma sensação de que estou ficando para trás.

Então no Rinoceronte dromedário, resolvi colocar a dicção disléxica, o falar ao modo que eu falava na infância, o ver as coisas como se elas estivessem se multiplicando. É um olhar sempre desconfiado, sempre achando que está ficando para trás. Sempre o olhar de quem está desenterrando a poesia.

TC | Na orelha do Rinoceronte dromedário, há a informação de que você “sonha em escrever para quem ainda está na infância”. Isso se traduz na recorrência do uso do olhar infantil na descoberta do mundo, com descrições que nos leva a enxergar o mundo de uma maneira não convencional. Como é esse processo de criação?

HH | Estou escrevendo para criança. Escrevo pensando no menino que fui e que, de certa forma, nunca deixei de ser. O processo de escrita é mais ou menos assim: eu esqueço que sou gente, que tenho uma idade e que tenho uma inteligência. Daí eu escrevo procurando aprender tudo de novo. Eu não escrevo intelectualmente, eu escrevo como quem chegou ao mundo agora. Escrevo como se fosse uma criança e um louco.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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