Heroína e rock’n’roll – Nikki Sixx e Ian Gittins

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O diário da autodestruição

Natal de 1986. Enquanto os católicos se reuniam após a ceia para assistir à Missa do Galo, o baixista e principal compositor do Mötley Crüe, Nikki Sixx, acordava nu, com uma agulha enfiada no braço, debaixo da árvore de Natal montada em sua mansão em Van Nuys, distrito de Los Angeles. Sozinho, sem amigos ou familiares por perto para compartilhar sua angústia, Nikki Sixx começa a fazer anotações num diário, que 22 anos depois é publicado como livro no Brasil. Heroína e Rock’n’Roll: o diário de um ano devastador na vida de uma estrela do rock sai pela editora Larousse, com a contribuição do jornalista Ian Gittins.

A edição é luxuosa, em capa dura, papel couchê, diagramação modernosa, repleta de fotos e ilustrações, que contribuem para dar ao livro um tom pop, amenizando o conteúdo pesado dos textos. No intervalo de um ano, o volume de 447 páginas registra o processo de autodestruição de Nikki Sixx, facilitados pelo cerco de traficantes de olho na mina de ouro de uma estrela de rock, resultando em surtos paranóicos escondidos no closet e culminando numa overdose na antevéspera do Natal de 1987.

Os relatos do diário vêm acompanhados de comentários feitos por gente que fazia parte do círculo de amizade de Nikki Sixx e do próprio baixista, após ter se recuperado do vício de cocaína e heroína. O recurso é organizado no mesmo estilo de Mate-me Por Favor, livro escrito por Legs McNeil e Gillian McCain que virou a bíblia do movimento punk. As revisões históricas ajudam a documentar e contextualizar as situações, oferecendo novos pontos de vista através de discursos diretos dos entrevistados, além de revelar o processo de transformação que as personagens envolvidas passaram nessas duas décadas.

As mudanças mais abruptas podem ser percebidas no tom moralista do discurso de Nikki Sixx em relação às drogas e principalmente nos comentários religiosos de Vanity, uma ex-dançarina de Prince que se envolveu com o baixista numa relação tumultuada e hoje louva a Deus. Já as anotações originais se alternam entre a devoção ao efeito de expansão da mente das drogas e o de desespero pela necessidade de continuar se injetando, como uma forma de esquecer o sentimento de abandono criado pelo descaso da mãe durante sua infância.

Mas nem tudo diz respeito ao vício. O livro também serve como registro de um momento de rock que já não existe mais, como bem resumiu Randy “Carneiro” Robinson, personagem de Mickey Rourke no filme O Lutador, dizendo que após Kurt Cobain a música perdeu o caráter de diversão. Em meio ao turbilhão de prazeres e depressões potencializados pela droga, é possível ter uma amostra do amor de Nikki Sixx pela música, entender seu processo criativo, o desgaste nas relações internas entre os integrantes do Mötley Crüe, os bastidores da gravação de Girls, Girls, Girls e da turnê do disco. Tudo com direito a bebedeiras, orgias e confusões em hotéis, um comportamento comum às grandes bandas até a década passada, que era financiado pelos montes de dinheiro que circulavam na indústria fonográfica, quando o Guns N’ Roses ainda batalhava para ser o sucesso que foi e nem se sonhava com internet.

Thiago Corrêa
lido em Jan./Fev. de 2009
escrito em 03.03.2009

: : TRECHO : :
“Não sinto minha alma. Essa escuridão tem sido minha única amiga. Minha nova mania é tomar litros de água antes de injetar coca e, então, vomitar tudo na bacia até minha cabeça explodir. Por quê? Por que não? Estou no ritmo de uma dança da morte nessa casa…” (p. 80).

: : FICHA TÉCNICA : :
Heroína e rock’n’roll: o diário de um ano devastador na vida de um astro do rock
Nikki Sixx e Ian Gittins
Tradução: Denise S. Rocha da Costa
Larousse
1a. edição, 2008
445 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

7 Comentários

  1. Cristhiano Aguiar em

    legal. li um livro no mesmo estilo no mês passado, o título é algo do tipo Um temporada no inferno com os Rolling Stones, sobre as gravações do disco Exile on main street. Nunca curti muito este hard rock dos anos 80 e acho que Kurt fez um bem danado, hahaha (Randy vai me matar por causa desse comentário).

  2. Pra quem viveu os ’80 como eu, conhecendo essas histórias, ler esse livro é uma viagem do bem pra um passado que não existirá igual..Amo Nikki..fico feliz por ele ainda estar conosco e poder compartilhar sua dor e seu “renascimento”.. Long live rock’n’roll!!!!!

  3. Antonio Botan em

    Li duas vzs esse livro. Chocante, ver como uma pessoa q tem td cai num fundo de um posso profundo, esquecendo até mesmo da propria higiene. Otimo livro. Recomendo. Motley Rocks!!!!!!!!

  4. JESUS LOVES YOU em

    li uma pagina desse livro numa livraria, e fiquei impressionado, o SUBtitulo era [coisa que nunca faria] e era o seguinte, uma cara dizia para o nikki se ajoelhar e pedir para Deus ajudar ele a se livrar do vicio, e ele disse que naum…

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