Histórias que nos sangram – Geraldo de Fraga

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Terror enlatado

Embora a preocupação de Gilberto Freyre fosse mais antropológica, de documentar os relatos sobrenaturais que eram contados como passatempo noturno dos recifenses, o livro Assombrações do Recife Velho tem catalisado algumas experiências literárias de terror na cidade. O novo rebento dessa linha é Histórias que nos sangram, livro de estreia do jornalista Geraldo de Fraga.

Colaborador do site O Recife assombrado, onde escrevia resenhas de histórias em quadrinhos e já experimentava a forma dos contos; Geraldo de Fraga começou a trabalhar no livro há dois anos. Editado pela Multifoco, o livro reúne sete contos inéditos, que exploram mitos sombrios da cidade como o Papa-figo, as maldições das botijas, lobisomens e ambientes misteriosos feito a Praça Chora Menino e a Cruz do Patrão, antigo cemitério de escravos.

Os textos são datados, seguem uma ordem cronológica, o que permite aos leitores uma viagem histórica entre 1694 e 1940. Nos primeiros contos – Sua cabeça como um troféu e Quem ama não tem coração – o sobrenatural vem envolto em histórias sobre escravidão e piratas. Depois elas assumem um caráter mais urbano.

Em Os dentes dos mortos, por exemplo, fala-se sobre as conspirações políticas da Revolução Pernambucana e, em Eu levo comigo apenas o que mereço, sobre a ambição humana revelada na busca das botijas. A trajetória termina com A lua cobra seu preço, onde cavaleiros fazem patrulha atrás de um lobisomem, já evidenciando a influência da globalização nas histórias de terror.

Para contar esses causos, Fraga usa uma linguagem direta, baseada na ação, tentando jogar névoas de mistérios para prender o leitor. O resultado é uma escrita sem muitas preocupações com a estética literária. Fica só no fulano fez isso e depois aquilo; descrições mecânicas de quem apenas consegue enxergar o que aparece aos olhos. Uma estratégia que termina prejudicando o ritmo das narrativas, afinal para contar uma história de terror, é preciso imaginação na hora de criar a fantasia por meio de palavras.

Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2009
escrito em 29.06.2009

: : TRECHO : :
“O chão estava todo coberto de areia vermelha. Junto com a terra, havia sangue. Restos de corpos humanos completavam o cenário. Muitos ossos, alguns ainda com carne.” (p. 34, conto: Quem ama não tem coração).

: : FICHA TÉCNICA : :
Histórias que nos sangram
Geraldo de Fraga
Multifoco
1a. edição, 2009
112 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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