Histórias em quadrinhos d’O Recife Assombrado – André Balaio e Roberto Beltrão (org.)

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

hq_recife_assombradoAutores: André Balaio e Roberto Beltrão são os editores responsáveis pelo site O Recife Assombrado. O projeto é inspirado no livro Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre e é dedicado às histórias de horror e seres sobrenaturais.

Livro: O livro reúne oito histórias em quadrinhos, escritas por André Balaio, Leonardo Santana e Milson Marins. Os desenhos são de Téo Pinheiro, Rafael Pinheiro, Arnaldo Luiz, Luciano Félix e Rafael Portela.

Tema e Enredo: As histórias são ambientadas em paisagens pernambucanas e se apoiam na loucura, em maldições e lendas como a da Monga, mulher gorila.

Forma: Narrativas em quadrinhos que exploram o gênero do horror, seja ele fruto de assombrações ou de distúrbios psicológicos.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Assombrações de uma sociedade doente

 Numa cidade como o Recife, histórias de terror já fazem parte do cotidiano de seus moradores. Ao invés de fantasmas, mortos-vivos ou monstros do além, a desigualdade social e o histórico de violência já são suficientes para desencadear pesadelos. Diante do impacto das imagens vistas durante a greve da Polícia Militar em Pernambuco, chega a ser inevitável deixar de pensar no livro Histórias em Quadrinhos d’O Recife Assombrado sem relacionar as cenas da realidade com as narrativas reunidas na edição que agora sai em versão impressa pela Bagaço, com incentivo do Funcultura.

Organizado por Roberto Beltrão e André Balaio, que assina quatro dos oito roteiros do livro; Histórias em Quadrinhos d’O Recife Assombrado traz ainda narrativas de Leonardo Santana e Milson Marins. Com desenhos de Téo Pinheiro, Arnaldo Luiz, Luciano Félix e Rafael Portela; as histórias são ambientadas em paisagens pernambucanas e assumem o papel fundamental de usar o poder da arte em função da construção de um imaginário e da preservação da memória.

Por um lado, a recorrência no uso de cenários locais expõe a colonização cultural a que o Recife é submetido, despertando um certo estranhamento durante a leitura ao nos fazer reconhecer tais ambientes. Por outro, ao localizar as narrativas num casarão de Olinda, na Rua da Aurora, no Açude do Prata e na antiga Fecin (Feira da Indústria e Comércio do Nordeste, que ocupava a área que hoje abriga o Parque da Jaqueira); o livro assume seu papel de agente da memória, trazendo para si o debate sobre a perda de identidade provocada pela especulação imobiliária.

No plano temático, porém, o efeito não é eficiente. De acordo com o professor Julio Jeha da UFMG, no artigo Monstros como metáfora do mal, as metáforas são uma forma de tratar sobre determinados assuntos através de seres ou fatos que fogem à realidade. Assim, por mais fantasiosas que sejam, as narrativas partem de um plano real e o elemento sobrenatural deveria ser utilizado como uma forma de discutir problemas que de fato existem, sintomas da sociedade em que se encontram.

Por trás dos fantasmas de Tesouro da judia (com roteiro de Leonardo Santana e desenhos de Téo Pinheiro) e de Como matar um fantasma (também de Santana e com ilustrações de Milson Marins), por exemplo, até é possível encontrar homens que, de tão ambiciosos, distorcem os valores morais, passam por cima de amores e amizades apenas para se dar bem. Em A vindita (roteiro e desenhos de Marins) e A maldição circular (roteiro de André Balaio e ilustrações de Luciano Félix), também vemos o passado sendo evocado através do sobrenatural para descortinar o histórico de conflitos do campo, de intolerância e rigidez familiar da sociedade.

O problema é que essa é uma discussão menor, que passa pela tangente nessas histórias. No aspecto temático, o vínculo com os sintomas do real é apenas circunstancial, usado mais para fundamentar a história do que como tema central das narrativas. Os fantasmas aqui se sobressaem ao real, o que acaba por enfraquecer o efeito crítico das narrativas, virando leitura de entretenimento, incapaz de gerar reflexões mais profundas.

 E, em alguns casos, as próprias narrativas não se sustentam enquanto histórias, tropeçando em excessos e em roteiros ingênuos. Um sinal que se evidencia dentro do próprio livro, não apenas pela comparação entre o cenário e o tema, mas em relação aos diferentes níveis de narrativas reunidas na mesma edição. Ao equipará-las, expõe-se defeitos como a estrutura simples de causo de Adeus Carminha e o excesso de explicações na parte final de O tesouro da judia. No outro lado da moeda, essa junção também revela méritos na construção narrativa – no uso de elementos do terror (como os bonecos se mexendo durante o jantar do casal em Presente macabro), na evolução da sequência inicial das lanternas em O tesouro da judia, na contradição entre o texto e as imagens de Como matar um fantasma, nos movimentos da arte de Téo Pinheiro em Olhos vermelhos, e na agilidade para vencer as voltas ao passado em A maldição circular.

 Ainda assim, no fim, todas essas histórias não deixam muito a dizer além da história contada. As narrativas, que se pretendiam assustadoras, ganham contornos de metáforas ingênuas diante do cenário em que vivemos. Não por acaso, a exceção é a narrativa O homem que ria. Com roteiro de André Balaio e arte de Téo Pinheiro, a história demonstra maturidade, conseguindo se equilibrar entre o sobrenatural e a loucura até o fim, num desfecho que nos leva à descoberta de que o mal está dentro de nós, igual às imagens vistas durante a greve da PM.

Lido em maio de 2014

Escrito em 20.05.2014

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[author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Próxima. Sou amigo pessoal de André Balaio. Roberto Beltrão já entrevistei duas vezes para o Café Colombo. [/author_info] [/author]

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[learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Histórias em quadrinhos d’O Recife Assombrado

André Balaio e Roberto Beltrão (Org.)

Editora: Bagaço

1ª edição, 2014

132 páginas

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[learn_more caption=”EPÍLOGO” state=”close”]

Adaptação

Como todas as histórias já haviam sido publicadas no site O Recife Assombrado, o processo de migração do digital para o papel merecia um cuidado maior. A mudança expôs deficiências de resolução, prejudicando o visual de Presente Macabro.

Recife

Ao situar as histórias no Recife e em Olinda, o livro assume seu papel de agente da memória, trazendo para si o debate sobre a perda de identidade provocada pela especulação imobiliária.

Poemas

Como epígrafes de cada história, foram inseridos trechos de poemas de Joaquim Cardozo, Augusto dos Anjos, Jayme Griz, Ascenso Ferreira, Carlos Pena Filho, Manuel Bandeira, Mauro Mota. Em comum, os poemas escolhidos trazem o sobrenatural.

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[learn_more caption=”CURIOSIDADES” state=”close”]

Site

As histórias em quadrinhos são fruto da segunda fase do projeto O Recife Assombrado. No início, o site tinha a preocupação em registrar causos de lendas e assombrações, além de publicar artigos sobre o universo fantástico. No retorno, em 2012, a página teve a proposta reformulada, com uma preocupação mais artística na construção de histórias.

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[learn_more caption=”LEIA TAMBÉM” state=”close”]

Links relacionados

O Recife Assombrado: site

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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