A ilha

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Na malha urbana de prédios e avenidas do centro do Recife encontra-se uma ilha de comércio literário, escondida por entre os conhecidos edifícios Pernambuco, Continental, Santo Albino, edifícios garagem abandonados e outras construções de cidade. Transeuntes desavisados pelo quadrado formado entre as avenidas Guararapes, Dantas Barreto, a Rua da Praça da República próximo ao teatro Santa Isabel e a Rua do Sol que margeia o Rio Capibaribe, podem jamais dar-se conta da existência ali mesmo de uma alta árvore barriguda num canteiro envolto por círculos de pedras portuguesas de uma praça rodeada de um lado por livros e de outro por mesas amarelas que acolhem boêmios, trabalhadores e artistas. Para chegar nesse espaço, é preciso percorrer ruelas a dentro desse recorte de cidade. Deparar-se com a lanchonete do Mate, para quem vem pela Rua Siqueira Campos, os chaveiros e vendedores ambulantes para quem vem da Av. Guararapes, o mural de propagandas em lambe-lambe para quem alcança a Rua da Roda pela Av. Dantas Barreto e vislumbra aí o vão verde, heterogêneo e humano no entre-prédios dessa ilhota urbana. Deparar-se com a estátua do poeta Mauro Mota, feita pelo artista pernambucano Demétrio, é quem sabe lembrar de seus versos de saudade de Carlos Pena Filho e do Bar Savoy. Para conhecer uma terra é preciso adentrar seus meandros, entender seus discursos na organicidade de seus eventos rotineiros, as pessoas com seus medos, anseios e como se colocam no mundo. Essa é a única maneira de efetivamente se chegar e estar na Praça do Sebo.

Construída em 1981, a praça destinou-se a abrigar livreiros irregulares de sebo que comercializavam seus livros sobre tábuas frente ao banco Safra no centro do Recife. Os livreiros foram levados a esse vão urbano que costumava acomodar o lixo proveniente dos edifícios que estão todos de costas para ele. O vão foi recuperado e nele, além de uma praça, foram construídos 18 quiosques doados àqueles livreiros, como Severino Augusto Silva, que ocupa os quiosques centrais desde a fundação, há mais de 30 anos. Augusto trabalha como livreiro desde que se entende por gente. Começou ainda criança, ajudando familiares entre as tábuas em frente ao banco Safra onde, posteriormente, viria a ocupar seu próprio espaço. Seu gosto por livros se deu pela convivência. Inicialmente, quando criança, os vendia por estar ali com a família e depois, já mais velho, para conseguir algum dinheiro. Hoje, Augusto tem um memorável acervo de livros de história, filosofia, biografias e, por mais que durante a semana gaste suas tardes em livrinhos de caça-palavras, dedica algumas horas do seu fim de semana à leitura. Quando lhe pedi alguns autores com os quais se identifica, ele citou Joseph Murphy, Hemingway, Nietzsche e Sartre. Augusto me pareceu um pouco tímido, quase não mantinha contato visual enquanto conversávamos e balançava uma das pernas um pouco inquieto, apesar de estar muito solícito a dar informações que esta estranha lhe demandava. Reparei que ele carregava no pescoço um terço enquanto ele me confidenciava que esse dia era justo o aniversário de sua filha e que ele só lembrou disso depois dela ter saído de casa apressada durante a manhã. Ela estava fazendo 31 anos. Ele já tem netos e tudo mais.

Enquanto eu conversava com Augusto, um senhor apelidado Jacaré chegou ávido por contar do possível lançamento de um livro sobre o pesquisador e escritor Liêdo Maranhão, que se daria nesse sábado, dia 25, no evento Abril Pro Livro, a acontecer na própria praça. Antes de Jacaré, Liêdo já havia sido citado por Carlos, proprietário do quiosque 18, como um dos patronos da praça. Carlos disse que Liêdo sempre chegava por lá para contar de suas putarias e do que acontecia pelo Mercado de São José, e que o escritor vivia assim, da praça pro mercado e vice-versa. Quando chegava na praça, os livreiros lhe separavam caixas repletas de livros com os quais o pesquisador gastava tardes. Entrecortando seu discurso, Carlos rapidamente me apresentou a vários títulos do autor e fiquei com o pesos de todos esses livros sobre meu colo enquanto ouvia sobre o envolvimento de Liêdo com a cultura urbana e popular do Recife. Houve uma hora que Carlos me puxou pelo braço para mostrar a xérox de uma matéria sobre o escritor colada no muro de um dos edifícios que cerca a praça. Datava de 2014 e falava de seu falecimento. Dos livreiros que conversei, todos expressaram uma vontade de que a praça fosse renomeada Praça Liêdo Maranhão e, ao falarem do escritor, o cantinho da boca todos eles guardavam um sorriso pela lembrança marota e escandalosa autor. A verdade é que não consegui saber se haverá mesmo ou não o lançamento de tal livro. Ou mesmo se é um livro, um cordel ou um filme, porque cada livreiro me contou uma história diferente. Mas todos confirmaram, além de o nome do autor desse dossiê sobre Liêdo ser um tal  Rodrigues, um carinho presente pelo boêmio escritor.

Jacaré, ou Josias seu nome de batismo, que ávido trouxe a notícia controversa sobre Liêdo, já foi proprietário de um dos quiosques da praça. Mas não o têm mais, vendeu. Disse que prefere a rua e está com outros livreiros ambulantes que se multiplicam pelas calçadas da avenida Guararapes. Mas desde que o conheci, ano passado, em uma intervenção artística que fizemos na praça através do olho.coooletivo com Danilo Galvão, Jacaré transita entusiasta por entre os quiosques, vira e mexe com uma camisa bonita e gasta escrito Praça do Sebo. Outra entusiasta da praça é Cátia Sales, proprietária do quiosque 13 de nome Recanto dos Alfarrabistas. Cátia também conheci ano passado, na mesma intervenção artística que me apresentou Jacaré. Ela, simpática e cicerone de seu espaço, trouxe-nos logo para perto e começou a explicar sobre tudo ali. Cátia se diz leitora assídua e, segundo ela, lê de tudo. É evangélica, ciclista, mãe de duas meninas, frequentadora de espaços culturais da cidade como museus, praças, dentre outros tantos, e no seu quiosque vi títulos que vão de cordéis locais – único quiosque com cordéis, na verdade – a Guerra e Paz de Tolstói.  Ela falava com muito amor sobre a praça e da importância de se trabalhar com o que se gosta pois é no trabalho que se gasta a maior parte de horas do dia. Disse que lê de um tudo, pois também tem todo tipo de cliente e precisa dialogar com todos eles. Ela acredita que todo livro tem seu dono, e não importa o tempo que demore na estante, um dia ele chega.

A praça, heterogênea, recebe diariamente pessoas diversas que, nas suas diferenças, convivem no mesmo lugar. Os livreiros sejam elesevangélicos, anárquicos, defensores do governo, contra o governo, leitores, meros comerciantes, consumidores assíduos de revistas com palavras cruzadas e sudoku, homens, mulheres, os pioneiros, os que vieram depois. Os consumidores que vão de estudantes, pesquisadores e leitores a meros curiosos. As pessoas que usam os bancos da praça para pensar, fumar um cigarro, namorar, ler um livro. Os mendigos que usam os mesmos bancos e se aproveitam das copas das árvores para tirar um cochilo. O engraxate que atende aos advogados e políticos que transitam entre as sedes governamentais do estado e município que se localizam pelos arredores. Os artistas que descem dos seus ateliês no edifício Pernambuco e de outros espaços da cidade para uma cerveja ou um mate. Os trabalhadores do centro. Os vendedores ambulantes. As pessoas. As pessoas. As pessoas. Ao sentar em um dos bancos da praça, igual ao fumante, o pensador e o mendigo, subir o olhar pelos muros de concreto das costas dos edifícios que cercam essa ilha urbana e depara-se, aqui e ali, com o brilho verde da luz que incide sobre uma planta nascida da umidade das caixas dos ar-condicionados faz com que, como um parêntese de esperança, um reconhecer da vida, uma energia de natureza invada. Sempre gostei dessas plantas que nascem autônomas no concreto das cidades. Sempre.

Ensaio completo aqui:

http://cargocollective.com/danilogalvao/Sebo

Abril Pro Livro 2015:

https://www.facebook.com/events/826377340767283/

 

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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