Indignação

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Em Indignação, Philip Roth conta a história de Marcus. Ao contrário de outros personagens que sofrem as pressões da velhice, este é jovem, e nem por isso menos trágico.

Vamos começar do começo, bem simples, não vou dizer tudo, imagino que muita gente ainda não leu e prefere ficar sabendo pelo autor, mas é preciso dizer que Marcus, o narrador, conta sua história do mundo dos mortos como o nosso Brás Cubas – isso fica patente na orelha do livro – logo, não estou adiantando nada. Pois bem, Marcus, o autor defunto é um menino de 18 anos e estava na faculdade quando tudo começou. O contexto é do início da década de 50, quando seu pai é açougueiro kosher, isto é, vende carne sem sangue para judeus. Os EUA estão em guerra contra a Coréia e Marcus, que perdeu dois primos na Segunda Guerra, morre de medo de ser convocado para ser recruta zero e morrer. E se morrer é uma coisa estúpida, morrer na guerra é mais estúpido ainda. Sua mãe diz que ele é um bom garoto, e de tão bom chega à perfeição. Seu pai, e todos os vizinhos judeus, compradores de carne kosher, também concordam. Dedicar-se aos estudos, portanto, além da única via possível de interromper a tradição de açougueiros da família, passa a ser a estratégia para driblar o Tio Sam.

Vamos lá. Ele sai de casa para fugir do pai porque o senhor açougueiro teve uma coisa, pirou, teve um surto, foi acometido pela síndrome do pânico. De repente ficou desesperado com a ideia de que algo de ruim pudesse acontecer com o filho. Único filho. E esse desespero não tinha motivos. Tudo bem que havia a guerra, mas a guerra não convocaria o Marcus, e sobravam motivos pra isso: ele não se enquadrava no perfil de bucha de canhão. Estava se graduando. Era o melhor da classe. Aluno nota dez. Graduar-se ou se casar valia uma dispensa da guerra. A fixação do pai, portanto, era doença. É a mãe de Marcus quem reconhece isso. Fica claro na conversa com o filho, quando vai visitá-lo no hospital. O homem de quem ela sempre se orgulhou, agora metia medo. Tanta é sua convicção de que o marido não é mais o dr. Jekyll, que está disposta a se divorciar dele. Mas não se divorcia, e a isso se deve o acordo que faz com o filho. Ele não devia se encontrar mais com a namorada que cortou os próprios pulsos. Em troca disso, desiste do divórcio e volta para Mr. Hide.

Pois é, há a namorada. A garota que faz sexo oral no primeiro encontro e deixa o Marcus meio desorientado. Mas nós estamos na década de 50, estamos nos EUA de maioria cristã e o Marcus, mesmo sendo ateu e dono de bom discernimento, ainda é um homem do seu tempo. Está preso a valores, mesmo àqueles que ele despreza e que, não fosse a precoce interrupção da vida, provavelmente superaria. Nós estamos – insisto – no início dos anos 50, ele só tem 18 anos e há a guerra. A famigerada guerra é a grande causadora do stress.

Pois é, o stress. Marcus não é inconsequente juvenil como Ícaro, ele não é frágil, impetuoso ou cheio de ódio – talvez um pouco de ódio – mas um ódio por ser incompreendido, por tipos como o diretor e os dois alunos com quem divide os dois primeiros quartos. Um deles, o Betram Flusser, que faz barulho e não deixa o colega estudar. Pronto, se muda e quando se muda uma segunda vez o faz por razão diversa, mas ainda assim razão: o Ewleyn Jr. ofende a menina por quem Marcus se julgava apaixonado. Deixa o quarto, procura outro, qual o problema?

O problema é que desta vez tem que se explicar com o diretor da faculdade que o convoca a seu gabinete. Tem de explicar por que em tão pouco tempo mudou-se duas vezes de quarto. Marcus tenta, mas todo o esforço é em vão. Não adianta dizer que o Betram é um vagabundo, esse sim um inconsequente, que não deseja estudar nem deixar os outros. O diretor não está disposto a levar em consideração seus argumentos. Sobre o aluno já formulou seu conceito: Marcus estaria fugindo do pai, do açougue, dos colegas de quarto, da guerra etc.

Então é a vez de Marcus pirar. É muita pressão: do pai, da guerra, dos colegas de quarto, da mãe e sua chantagem, da namorada que se decepcionou com ele, com sua reação de homem da década de 50 que não consegue encarar numa boa o fato de ser chupado no primeiro encontro e, por fim, aquele diretor Caudell e seu interrogatório despropositado, um tipo detestável de dono da verdade a quem Marcus considera supersticioso e limitado. É interessante o diálogo, quando Marcus, cansado da estupidez do outro, explode e acaba dizendo tudo o que pensa do diretor e sua maneira de conduzir a faculdade, obrigando os alunos, independentemente de suas convicções, a frequentar o culto religioso. Philip Roth, no discurso da personagem, reproduz trechos inteiros de No que acredito de Bertrand Russell.

E Marcus perde o controle das coisas e suas ações mais banais resultam no desfecho trágico. Mais do que Ícaro e sua queda provocada pela inconsequência juvenil, a queda de Marcus não é tão simples, pois carrega consigo uma boa dose das pressões provocadas por quem não quis ou não pôde entender suas razões mais simples de encarar o mundo e levar a vida.

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[author_info]Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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