Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo – Chris Ware

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A timidez vista por um novo olhar

As relações familiares de pais e filhos normalmente ocupam um lugar aconchegante na memória, mas pequenos gestos, frases e silêncios entre eles atuam como ecos, ganham proporções capazes de influenciar na formação da personalidade dos descendentes. Na graphic novel Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo, que foi publicado nos Estados Unidos em 2000 e agora sai pela Companhia das Letras, o americano Chris Ware usa elementos da sua própria biografia para tratar de quatro gerações de uma família que sofreram dificuldades semelhantes no relacionamento com os pais. Uma corrente que ameaça ser quebrada quando Jimmy Corrigan recebe uma carta do seu pai, até então inexistente no imaginário do filho.

Para o atordoado Jimmy, um homem solitário e tímido de meia idade que recebe várias ligações da mãe por dia, o convite para a viagem a fim de conhecer a figura paterna termina o empurrando para uma série de elucubrações do personagem. Na expectativa do encontro, a imaginação de Jimmy decola, faz ele se imaginar um robô, desenvolver encontros com supostos pais e entra em paranoia ao desconfiar de que aquilo tudo seja na verdade um golpe.

A mente fértil do personagem é explorada com coragem por Ware. Ele aproveita as ramificações da história para tecer uma intricada rede de tramas, que seguem uma tumultuada linha cronológica, e expandir os limites dos quadrinhos. A leitura de Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo se revela uma experiência de linguagem, a cada página o autor nos põe um desafio para ser desvendado, rompendo com a lógica habitual às graphic novels e a qualquer outro modo de narrativa.

Enquanto as relações familiares dos Corrigans são investigadas, seja por meio de flashbacks, das invencionices de Jimmy e de histórias paralelas como a da infância do seu avô James nos dias precedem a Feira Mundial de Chicago de 1893; Ware abre parênteses para fazer suas experimentações e promover diálogos com outros gêneros textuais. Temos aí a inserção de uma variedade de logotipos com o slogan “Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo”, o interesse pelo visual de embalagens e letreiros publicitários do início do século 20, a sugestão de jogos de montar que transmitem a sensação dos personagens e ainda uma série de paisagens da pequena cidade do estado de Michigan em que vive o pai de Jimmy, dispostas como cartões acompanhados no verso de reflexões tão nostálgicas quanto irônicas.

Apesar da profusão de referências e sua conseqüente complexidade narrativa, tudo se mantêm sob o controle do autor, que chega a dar instruções sobre como ler o livro e, em determinado momento, amarra os fios da trama através de um resumo para explicar o que aconteceu até então, além de apresentar gráficos que lembram fluxogramas para explicar a árvore genealógica dos Corrigans. Esse esforço de Ware em retrabalhar a linguagem dos quadrinhos se alinha aos interesses da narrativa, permitindo o mergulho dos leitores no universo melancólico dos personagens, expresso nos tons pastéis que colorem os desenhos e no ritmo lento da história.

Mesmo com toda essa confluência de linguagens, o autor consegue imprimir uma cadência própria ao livro como que para se opor a noção de aventura desse meio tão acostumado às ações de super-heróis. Em Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo, o tempo se arrasta, o movimento dos ponteiros do relógio aparece de maneira peculiar, através de pequenos detalhes como uma simples inclinação de porta que está sendo aberta, da direção do olhar de um personagem, da transformação imobiliária da cidade de Jimmy ou de uma pequena gota d’água caindo na janela. Observações que podem parecer estranhas e irrelevantes no início, mas, aos poucos, revelam sua condição de experiência sensorial, tão importante quanto algumas lembranças familiares.

Thiago Corrêa
lido em Jan. de 2009
escrito em 20.02.2010

: : FICHA TÉCNICA : :
Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo
Chris Ware
Trad. Daniel Galera
Companhia das Letras
1a. edição, 2009
388 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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