Jornal do Commercio – Caderno C – 08.10.2006

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Jornal do Commercio – Caderno C – 08.10.2006
http://jc.uol.com.br/jornal/2006/10/08/not_203881.php

LITERATURA
A grande arena de novos autores
SCHNEIDER CARPEGGIANI

“A internet é uma praça pública. Tem assaltante de banco, gente fofocando, fazendo declaração de amor e até escrevendo”, atesta Jussara Salazar, autora pernambucana radicada em Curitiba, que faz parte do coletivo online Escritoras Suicidas. Há muito caducaram discussões em que a combinação literatura/internet servia para previsões apocalípticas sobre o fim do livro (físico) ou questionando se blog seria literatura, como se o texto literário fosse antes o meio que a escrita.

Longe das trombetas do apocalipse, a internet se firmou como um excelente meio de divulgação de novos e nem tão novos escritores. “As pessoas estão percebendo que a internet é apenas a representação da sociedade, com tudo o que ela tem de bom e de ruim”, completa Jussara, que é também uma das organizadoras da revista online de arte La Gioconda (www.lagioconda.art.br).

“A internet é um buraco rico e sem fundo para a literatura. Um ambiente perfeito para a divulgação, em razão da rapidez, da facilidade de comunicação e dos instrumentos tecnológicos, que dispõe e que permitem a utilização de recursos audiovisuais capazes de fazer um poema dançar, por exemplo, o que vem servindo como estímulo para escritores que só brotaram com o advento dela. Quem dera, fosse somente da boa literatura. A internet tem um lado trágico. Aquele que não respeita direitos autorais, que espalha o plágio, a auto-ajuda ‘literária’, a linguagem em vala comum”, pondera Silvana Guimarães, mentora do Escritoras Suicidas.

“Acho que a internet é um grande meio de divulgação para a arte, as pessoas pautam suas vidas a partir das novas mídias, temos que aproveitar isso da melhor maneira possível, o que precisamos é melhorar o acesso, incluir cada vez mais gente neste barco. O mundo hoje tem outra noção de tempo, de distância a poesia tem que navegar nesta idéia”, explica a poeta Cida Pedrosa, uma das responsáveis pelo site de referência de literatura pernambucana Interpoética.

Pensando em “navegar nesta idéia”, para usarmos as palavras de Cida Pedrosa, aqui vai uma seleção de alguns sites que fazem da literatura sua razão de ser.

Portal Literal
O Portal Literal (www.portalliteral.terra.com.br) tem como slogan “a literatura brasileira na internet”. Seu chavão publicitário é bom e, melhor, verdadeiro. Além de notícias sobre o mercado editorial, o Portal (que teve Heloísa Buarque de Holanda como curadora) abriga os sites oficiais de Lygia Fagundes Telles, Zuenir Ventura, Rubem Fonseca, Luís Fernando Veríssimo e Ferreira Gullar. Cada um desses autores, regularmente, alimenta suas páginas com textos inéditos e/ou raros. Atualmente, o pernambucano Raimundo Carrero publica nele a versão online das suas notórias oficinas literárias.

Plataforma Para a Poesia
A página Plataforma Para a Poesia (www.plataforma.paraapoesia.nom.br) é um projeto da escritora e organizadora da antologia Pernambuco terra da poesia Cláudia Cordeiro (mulher do poeta Alberto da Cunha Melo) para divulgar a poesia contemporânea em língua portuguesa. No site, há um A-Z de poetas, que inclui nomes como Deborah Brennand e Carlos Drummond de Andrade, trazendo alguns dos principais textos dos autores. A Plataforma Para a Poesia disponibiliza ainda novidades do mercado literário e entrevistas com poetas.

Interpoética
A melhor definição do conteúdo da página Interpoética (www.interpoética.com) é feita por uma de suas criadoras, a poeta Cida Pedrosa: “é uma página simples, sem grandes efeitos eletrônicos, tem belas telas de Gregório Vieira e faz da poesia sua atriz principal. Nela a mídia está para auxiliar a palavra, se não for assim a gente corre o risco de fazer umas coisas cafonas, como se tem visto por aí. Este mês a página faz um ano e os seus links são bem coletivos, temos colunas, entrevistas com escritores, homenagens a poetas. Quer saber da poesia pernambucana? acesse a interpoética.” Dito e feito!

Vacatussa
O coletivo Vacatussa há dois meses inaugurou a versão online do seu fanzine (www.vacatussa.com). A proposta, assim como na versão tradicional (no “sagrado” papel), é divulgar o trabalho de autores iniciantes que não querem perder tempo esperando que uma editora caia do céu. “O melhor é que aqui não temos de nos preocupar com espaço, porque no zine um texto maior implicava em mais custos”, explica Mario Lins, um dos integrantes do grupo. Em breve, além de ficção, a página irá contar com resenhas de livros. Em tempo: o zine impresso permanece. “A internet não exclui, ela complementa”, ressalta.

Rascunho
O jornal curitibano Rascunho virou referência nacional de crítica literária. E referência muitas vezes polêmica, como costumam ser as boas críticas, que desvendam para os leitores as armadilhas que se escondem sob a superfície “tranqüila” do texto. Sua versão digital (rascunho.ondarpc.com.br) traz a íntegra das críticas e as colunas de Fernando Monteiro, José Castello e Nelson de Oliveira. No caso de Monteiro, é possível pelo site acompanhar de uma só vez O inglês do cemitério dos ingleses, romance que o pernambucano vem publicando em formato de folhetim há um ano e que agora chega à sua reta final.

Cronópios
O Cronópios (www.cronopios.com.br) promove um verdadeiro apanhado geral do quanto a internet pode fazer para divulgar a literatura: na página há resenhas de livros, notícias, contos, crônicas e projetos que procuram unir o texto literário a outras manifestações artísticas. Da sua equipe de colunistas, fazem parte nomes como a pernambucana Micheliny Verunschk, José Francisco Costa e a sempre ácida Márcia Denser. No caso de La Denser, vale conferir uma de suas últimas colunas, em que a eterna “Diana Caçadora” retrata suas dificuldades diante da aviação moderna brasileira. Diversão garantida.

Escritoras Suicidas
É velha a polêmica sobre a possível existência de uma literatura feminina, mesmo quando ninguém discute o que seja uma literatura masculina. Melhor que procurar a autoria sexual dos textos, mais oportuno seria pensar numa escrita feminina e/ou masculina. É a partir desse ponto de vista que a página Escritoras Suicidas (www.escritorassuicidas.com.br) funciona: homens e mulheres (vários sob pseudônimo), que escrevem de maneira “feminina” a partir de temas propostos mensalmente. O suicídio do título, longe de trágico, é irônico e fala de uma escrita realizada no limite.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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