Jornal do Commercio – Caderno C – 21.03.2006

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Jornal do Commercio – Caderno C – 21.03.2006
http://jc.uol.com.br/jornal/2006/03/21/not_176975.php

Quando escrever é ato de teimosia
Ex-alunos de oficinas literárias se reuniram para dividir experiências e fazer suas criações circularem. Assim surgiu o clã Vacatussa

SCHNEIDER CARPEGGIANI

Escrever pode até ser a mais solitária das atividades: é só você, a tela em branco do computador e seus “fantasmas” como cenário. No entanto, o “depois do texto pronto” é fruto de um trabalho em conjunto. Diante disso, um grupo de ex-alunos das oficinas literárias de Raimundo Carrero resolveu se reunir para dividir experiências e fazer suas criações circularem. Assim surgiu o clã Vacatussa, que se encontra toda semana para discutir literatura.

Os encontros já resultaram em dois zines. O último foi lançado durante a Bienal do Livro de Pernambuco, realizada em outubro passado. A tiragem dos jornais, do primeiro para o segundo número, cresceu de 150 para 500 exemplares. O grupo em breve reúne todos os seus textos no site http://www.vacatussa.com/. Como seu próprio nome indica, fazer literatura circular é um exercício de pura teimosia.

“Quando um dos integrantes sugeriu o nome, que claramente se opõe à expressão ‘nem que a vaca tussa’, achamos que representaria bem o espírito de um grupo que queria insistir na proposta de fazer as pessoas produzirem e consumirem a literatura local. A empreitada não era fácil, já que a cena literária pernambucana não acompanhou a ebulição da cena musical, por exemplo. Embora exista muita gente produzindo, não há mecanismos de divulgação, tampouco os escritores estão articulados”, explica a jornalista Joana Rozowykwiat, integrante do clã.

“Escrever é fácil e todo mundo sabe, difícil mesmo é escrever bem. Foi essa dificuldade que inspirou o grupo a adotar o nome Vacatussa, em alusão ao árduo caminho para nos tornarmos bons escritores. Depois fomos descobrindo que as dificuldades não se restringem apenas ao processo criativo, e o nome fez ainda mais sentido”, completa o publicitário Mário Lins.

A idéia de reunir um grupo para divulgar projetos literários não passa por obrigatórias afinidades textuais, como antes. Agora, a dificuldade faz a união. “Não temos a obrigação de escrever dessa ou daquela forma, pregamos a liberdade de criação. Quando montamos o grupo, inclusive, a idéia era não apenas estarmos atrelados à literatura, mas a outras formas de comunicação, como a fotografia, o roteiro de cinema, a ilustração, os quadrinhos. Mas, de fato, todos éramos escritores e esse lance terminou não vingando. Conseguimos conservar, ao menos, as ilustrações, que estão presentes nos zines, ampliando o sentido e as interpretações dos textos. O que identificamos como aquilo que dá unidade ao Vacatussa é o fato de contarmos histórias”, atesta Joana.

“A idéia do Vacatussa não é se fixar propriamente em literatura, mas sim em narrativas. O que a gente quer é explorar formatos em que possamos contar uma história, sejam elas textuais ou visuais. A idéia de ilustrar os textos e todo o planejamento visual do fanzine não é apenas para ‘ficar bonitinho’. Existe um sentido mais amplo que tem a ver com a questão da narrativa”, afirma Ana Lira, estudante de jornalismo.

BEM E MAL – Na opinião do grupo, a internet deve ter sua importância relativizada pelos novos escritores. “Ela (a internet), como tudo na vida, tem um lado positivo e um negativo. O bom é que você não tem a restrição do meio físico, então facilita muito o acesso dos leitores ao trabalho dos novos escritores. O ruim é que todo mundo acha que é escritor porque escreve alguma coisa num blog qualquer, então ninguém mais pára pra pensar na técnica e no esforço que são necessários para se escrever bem”, acredita Lins.

Para Joana, o início das atividades do site do Vacatussa será um divisor de águas. “É uma forma da gente chegar a um número maior de leitores e também de nos articularmos melhor com outros grupos ou escritores isolados. Hoje, a tiragem do nosso zine é de 500 exemplares. Se a gente pensar que nem todo mundo que pega lê… Além disso, algumas pessoas de outros estados têm nos mandado e-mails pedindo o zine e a gente tem que mandar pelo correio. Com o site, esse problema estaria resolvido. Acho que a internet é um ambiente democrático de divulgação para escritores novos ou consagrados, com todas as implicações dessa democracia. Lá, o bom está misturado com o ruim e é preciso saber distinguir o joio do trigo.”

Enquanto o site não entra no ar, o Vacatussa lança em abril o terceiro número do seu zine. “Selecionamos os textos, os ilustradores e ele agora está nas mãos da Mooz, que é responsável pelo projeto gráfico desde a edição anterior. Ainda não temos uma data de lançamento, porque estamos sem patrocínio, o que inviabiliza a impressão. É difícil manter um grupo de literatura sem apoio. No mais, estamos nos organizando para participarmos da Fliporto e continuamos escrevendo e nos encontrando uma vez por semana”, completa Joana.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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