Juliana Gomes fala sobre o projeto Leia Mulheres

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Para todos os estudiosos que buscam sistematizar e estudar a produção literária contemporânea, uma pergunta sempre surge: é possível falar, no turbilhão de publicações de novos autores, em vertentes ou tendências predominantes na poesia e na ficção? É provável que só consigamos responder a esta questão após o estabelecimento de uma certa distância histórica. Algo, porém, é certo: um dos traços do contemporâneo parece ser o intenso debate sobre a produção literária e suas relações com a diversidade de gênero, raça, ou sexualidade. Muitas vezes o debate acontece a partir daquilo que é representado no texto literário; em outros contextos, isso ocorre a partir da problematização das condições de circulação e produção de contos, romances e poemas. O projeto Leia Mulheres procura trabalhar nas duas frentes. Ao criar um espaço de discussão da literatura criada por escritoras, Leia Mulheres consegue incentivar a leitura crítica de textos literários e, ao mesmo tempo, lutar por um cenário literário mais aberto e plural. Para conhecermos melhor o projeto, conversamos por email com uma das suas idealizadoras, Juliana Gomes.

CRISTHIANO AGUIAR | Juliana, o que é o Leia Mulheres e como surgiu?

JULIANA GOMES | No início de 2015, pensei em utilizar o mote do projeto da Joanna Walsh (a criadora da hashtag #readwomen2014) para algo presencial como um clube de leitura. A Blooks Livraria topou abrigar o projeto, aí algumas amigas (Luara França, Denise Mercedes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques) apoiaram também a empreitada e começaram os clubes no Rio e São Paulo. Logo depois a Emanuela Siqueira e Lubi Prates começaram o projeto na livraria Arte e Letra de Curitiba.

CA | No site do projeto, vocês afirmam o seguinte: “O mercado editorial ainda é muito restrito e as mulheres não possuem tanta visibilidade”. Concordo, porém volta e meia escuto críticas de escritores afirmando que “não é bem assim”. Você poderia nos dar exemplos destes problemas de visibilidade? O quanto, por exemplo, o nosso mercado editorial é ainda um território predominantemente masculino?

JG | Este artigo recente mostra que a mulher ainda não atingiu o protagonismo no meio literário. E isso se deve também a serem lembradas e mais editadas nos nichos como literatura chick-lits e juvenis.  A autora  Ana Arruda Callado  disse “Tem sempre aquela história: ou é mulher fatal ou é uma coitadinha, Madre Teresa de Calcutá. Tem estes dois estereótipos. Eu acho que as próprias mulheres, muitas delas, também têm estes dois estereótipos, infelizmente, depois de batalhas, de grandes avanços de direitos das mulheres. A mulher não tem que ser objeto sexual, tem que ser par a par com o homem, com outra mulher, como ela quiser, é uma questão de paridade (que desejamos)”. É a partir desse pressuposto que as mulheres são sim menos editadas, embora talvez desde 2015 elas estejam aparecendo mais na grande mídia especializada. Apesar disso, por quanto tempo autoras como Carmen da Silva, Dinah Silveira de Queiroz e Maria de Lourdes Teixeira continuarão na obscuridade, esquecidas e não reeditadas no Brasil? A Emanuella argumentou muito bem aqui nesse texto também.

CA | Um dos principais desdobramentos do trabalho realizado por vocês tem sido a formação de clubes de leitura. Como tem sido essa experiência?

JG | A experiência tem sido muito enriquecedora, como quebra do paradigma do estilo que mulheres escrevem perante os leitores e como os leitores se percebem e gostam desse convite. Tem sido importante também o trabalho de aproximação com autoras até então desconhecidas. Desconstruir esse estilo feminino tem sido uma das maiores conquistas durante os clubes, além da valorização da leitura de uma forma geral.

CA | Há alguns anos, havia uma intensa discussão a respeito da suposta existência de uma “literatura feminina”. Qual a sua perspectiva sobre isso?

JG | Não existe “literatura feminina” e sim mulheres que escrevem. Não concordamos com a nomenclatura “literatura feminina”, porque não existe a masculina.

CA | Por fim, que escritoras contemporâneas, brasileiras ou não, você indicaria para a gente começar a ler?

JG | Bom, cito o que eu tenho lido ultimamente, porque sempre as últimas lembranças são as que aparecem de maneira mais instantânea: Lygia Fagundes Telles, Paula Fábrio, Sheyla Smaniotto, Maria Valéria Rezende, Ana Maria Gonçalvez, Vanessa Rodrigues, Ana Cristina Cesar, Luci Collin, Angélica Freitas,  Dinah Silveira de Queiroz e Maria de Lourdes Teixeira.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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