Jutaí menino – Gilvan Lemos

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PRÓLOGO

Autor: Gilvan Lemos nasceu em São Bento do Una (PE) em 1928 e faleceu em 2015 no Recife. Publicou mais de duas dezenas de romances, contos e novelas. Entre os quais, Emissários do diabo, Os olhos da treva e Morcego cego. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras. Recebeu prêmios como o Erico Verissimo, Orlando Dantas e o Olívio Montenegro. 

Livro: Escrito em 1956, Jutaí menino venceu o Prêmio Orlando Dantas de 1962, concedido pelo jornal Diário de Notícias, onde chegou a ter partes publicadas em 1963. No mesmo ano, o livro recebeu o Prêmio Olívio Montenegro, da UBE-PE. Contudo, a obra só seria publicada em 1968 pela editora O Cruzeiro, ganhando uma nova edição em 1995 pela Bagaço.

Tema e enredo: A história começa com a chegada da família de Jutaí a casa dos avôs, por problemas financeiros enfrentados por seu pai após um problema de saúde. A mudança do Recife para São Bento desencadeia uma série de transformações na vida do menino Jutaí, numa jornada que reúne frustrações, perdas, amizades e descobertas.

Forma: A narrativa é contada de forma linear, seguindo a ordem cronológica para acompanhar o processo de amadurecimento do personagem. Em boa parte do livro, a história é conduzida pelo olhar de Jutaí, o que nos permite acesso aos sentimentos de remorso, insegurança e curiosidades típicas da infância, num registro do cotidiano, da história e dos costumes de São Bento.

CRÍTICA

Em sua miniautobiografia ainda inédita, Gilvan Lemos aponta o romance Jutaí menino como uma das suas inglórias literárias, classificando-o como “um dos meus romances mais fracos”. Uma (auto)injustiça que felizmente se mostrou uma contradição em relação à trajetória traçada pelo livro. Apesar dos 12 anos que demoraram até ser publicada, a obra teve seu valor reconhecido logo de início pelo escritor Osman Lins e recebeu elogios do crítico Álvaro Lins (segundo relata Gilvan), além de vencer o Prêmio Olívio Montenegro, concedido pela UBE-PE, e o Prêmio Orlando Dantas, concedido pelo jornal carioca Diário de Notícias, cuja comissão julgadora era composta por ninguém menos que Aurélio Buarque de Hollanda, Herberto Sales, Otto Maria Carpeux e Raul Lima.

Escrito em 1956 e publicado em setembro de 1968 pela editora O Cruzeiro, Jutaí menino é um romance que não só mantém sua pertinência, como talvez tenha se tornado até mais interessante por conta do deslocamento histórico. Com o passar do tempo, o tom de crônica parece se tornar ainda mais peculiar pelo registro de uma época e de um cotidiano de cidade do interior (no caso, São Bento do Una) tão distante do nosso. Um fator que ganha mais força com as diversas autorreferências do autor, onde Gilvan Lemos aproveita a jornada de Jutaí para fixar sua memória sobre a infância e pensar como se deu a sua formação intelectual, numa espécie de narrativa que hoje chamaríamos de autoficção.

Em termos estéticos, contudo, o fator tempo evidencia a falta de maturidade do autor de reduzir o romance ao ato de apenas contar uma história, sem preocupações formais de manter a coerência, justificar mudanças ou dar um padrão a escrita. Em vez de conduzir a narração pelo olhar de um personagem para falar da redoma de isolamento comunicativo que somos ou buscar a alternância de pontos de vista como um jeito de mostrar a multiplicidade de interesses e interpretações, por exemplo; Gilvan Lemos prefere fazer com que a história de Jutaí menino circule por vários personagens, com o único objetivo de reduzir as áreas de sombra. Dúvidas e possíveis mistérios são logo ocupados por explicações e causos que fogem ao eixo principal da narrativa (a exemplo do caso do suicídio no rio, da traição do avô Gumercindo e das farras de tio Chico). Contudo, em troca o autor acaba construindo um grande mosaico que dá vida ao cotidiano de São Bento e ao clima do interior onde todo mundo parece saber de tudo o que acontece na cidade.

Essa imaturidade de Gilvan Lemos também parece ser o motivo para a transição do clima dramático para algo mais singelo e próximo do olhar infantil (o que se traduz na mudança do foco narrativo, onde Jutaí deixa o papel de coadjuvante para se tornar protagonista) após o primeiro terço da obra. Como qualquer narrativa, é natural que haja oscilações, alternâncias, clímax e anticlímax para dar emoção, criar tensões e sinuosidades à história. Mas a ruptura abrupta que se dá, resolvida no texto com um salto no tempo, alimenta desconfianças sobre a capacidade do autor em segurar as rédeas da escrita e manter no trilho o projeto do livro.

Afinal, o que se insinua como um denso drama familiar (com a chegada de Jorge, a esposa e o filho Jutaí) à casa dos pais em São Bento no primeiro terço do livro; vira um misto de crônica com romance de formação. O que se apresenta como a história dos infortúnios (físicos, conjugais e financeiros) de um homem após problemas de saúde; torna-se no relato do dia a dia de uma criança, com a construção de amizades, brincadeiras, descobertas, frustrações, medos e afetos. Digo isso não para falar que esses elementos não possam compor uma mesma história, mas para apontar que o problema está na maneira como conduziu o autor, concentrando o drama de Jorge nas 68 primeiras páginas e as aventuras de Jutaí no restante do livro, quando tudo isso poderia se apresentar misturado, através de recordações.

No entanto, esses problemas de Jutaí menino são apenas formais e não atingem o prazer da leitura, sendo contornados pelo ritmo e fluidez do texto de Gilvan Lemos. Ainda que seus recursos narrativos sejam simples, ele demonstra incrível capacidade de ambientar histórias, construir personagens cativantes. Seja adensando na frustração de Jorge, incapaz de reagir às condições impostas pela vida. Como também pelo carinho com que acompanha o crescimento de Jutaí, ora se utilizando do recurso do olhar infantil predisposto a brincadeiras, inseguranças e descobertas; ora se valendo de delicadeza para construir relações humanas e justificar os afetos do menino pelo avó Gumersindo e tia Lola; ora atingindo extrema singeleza para abordar o processo de amadurecimento do menino, como nas cenas da morte de Seu Álvaro e a percepção do envelhecimento do avô.

Lido em outubro de 2015
Escrito em 28.10.2015


Relação do crítico com o escritor: Cheguei a entrevistar Gilvan Lemos por ocasião do seu aniversário de 80 anos, em 2008. Pouco antes de sua morte (2015) voltei a encontrá-lo por conta de um projeto de biografia dele encomendado pela Cepe, que está em desenvolvimento.

FICHA TÉCNICA

Jutaí menino
Gilvan Lemos
Editora: Bagaço
2ª edição, 1995
204 páginas

TRECHO

“Jutaí amparou-se às pernas da mãe, encabulado com a constante alusão aos seus olhos doentes. E Jorge pensava no pai. Se ao menos ele estivesse em casa… O chalé por dentro! Não mudara. A sala onde se encontravam, entre a de espera e o quarto dos santos; as cadeiras simples, de verniz deslustrado; a preguiçosa, a cadeira de balanço com vime amarelecido; o rádio, os retratos, as cortinas… Desejava percorrer o resto do chalé, para recordar e mostrar a Juta as particularidades de que tantas vezes lhe falara. Mas o silêncio da mãe e a frieza da irmã impediam-lhe qualquer demonstração de emotividade. Por sua vez, Áurea aprofundara a ruga da testa. Parecia sustentar tremenda luta íntima para evitar uma explosão. Ela notava o olhar aflito do marido, a pedir-lhe calma. E dedicava-lhe uma parte do seu ódio. A restante concentrava-se na sogra e na cunhada. Povo ruim.” (p. 12)

EPÍLOGO

Título: O título original era “Jutaí curumim”, mas foi alterado para Jutaí menino por opção da editora.

Pseudônimo: Para se inscrever no Prêmio Orlando Dantas, Gilvan Lemos utilizou como pseudônimo o nome de Gumersindo, que no romance é o avô de Jutaí.

Comissão julgadora: A comissão julgadora do Prêmio Orlando Dantas foi composta por Aurélio Buarque de Hollanda, Herberto Sales, Otto Maria Carpeux e Raul Lima.

Dicionário: Algumas passagens de Jutaí menino foram utilizadas como exemplo do uso de verbetes no Dicionário Aurélio, a exemplo de “corruchiar”, “muxicão”, “baé”, “neblinar” e “trancelim”.

Autoficção: Muitos pontos da história de Jutaí menino se confundem com a biografia de Gilvan Lemos.

OUTRAS OPINIÕES

Parecer da comissão julgadora do Prêmio Orlando Dantas, no Diario de Notícias, em 24 e 25 de março de 1963

“Por um conjunto de felizes qualidades esta obra sobrexcede as muitas apresentadas ao concurso: pela boa concepção e firme estrutura, ainda que dentro das linhas tradicionais; pela espontaneidade viva do diálogo; pela segurança no fixar ambientes e tipos; pelo tenso e enxuto da capacidade dramática, que se afirma sem recorrer, como se observa em tantos outros romances regionais nordestinos, a crimes e violência; pelo tom da escrita, que, simples e discreta, se ão revela maiores atrevimentos de originalidade, contudo não descamba para o clichê e o mau gosto. Belo romance, denso e humano.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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