Kaputt – Eloar Guazzelli

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O ilustrador gaúcho Eloar Guazzelli, 52 anos, é fascinado pelo livro Kaputt, do italiano Curzio Malaparte (1898-1957), lançado em 1944. A obra é um relato sobre a Segunda Guerra Mundial, uma observação a partir dos escombros do exército alemão. “Li ao longo da minha vida. A primeira vez foi aos 12 anos, mas acho que não é a idade certa. Achei maravilhoso porém violento. Meu pai gostava muito porque achava que tocava na ferida. Ele foi advogado de presos políticos, talvez por isso tenha se emocionado. Foi nas páginas de Kaputt que descobri a imensa crueldade do mundo”, diz o autor.

Guazzelli assina o quadrinho Kaputt, lançado neste mês; uma adaptação da obra que completou 70 anos em 2014. A palavra “kaputt” vem do alemão e significa “quebrado”, “destruído”; um termo que revela não apenas a geografia da Europa após a Segunda Guerra, mas também o estado de espírito da população do Velho Continente. É essa perspectiva que intriga o ilustrador desde a primeira leitura. “Meu interesse não era desenhar o modelo correto de avião. Claro, pesquisei, mas procurei ser mais fidedigno com o pensamento da época, com o horror humano, com a luta pela liberdade. Acho isso mais importante”, destaca.

O livro original – atualmente esgotado – possui mais de 500 páginas e narra diferentes enredos; situações de violência, física e emocional, histórias que sugerem pequenas epifanias sobre os homens, a condição existencial, o absurdo da guerra. “Tive que fazer escolhas horrorosas”, diz Guazzelli. “Doía muito porque cada parte daria um livro. Nessa adaptação não tenho nenhuma pretensão além de traduzir minha visão sobre o pesadelo de Malaparte. O que ele viu é inacreditável. É um tratado contemporâneo, nesse tempo de ascensão de neo-fascismo a análise que ele faz é absolutamente perfeita”, destaca.

A adaptação do autor gaúcho é sua interpretação sobre o livro; uma releitura baseada em instinto e ambientação. “No começo, carreguei nas tintas. Não é um livro leve, apesar de ter humor. Demorei mais ou menos dois anos nesse projeto, e nesse período fiquei uns 4 ou 5 meses sem trabalhar no Kaputt. Isso foi maravilhoso para repensar algumas coisas, avaliar se estava no caminho certo. Não queria mostrar apenas o horror, então aliviei um pouco na cor em alguns contos. Foi uma espécie de culinária, em que eu tinha que dosar os ingredientes”, comenta.

O interesse pela Segunda Guerra é algo que antecede a pesquisa feita para o livro. “É uma pesquisa venho fazendo desde os 12 anos. Ficava muito em casa, era um rato de enciclopédia, não tinha namorada. Lia muito sobre a Segunda Guerra Mundial, o grande embate mítico do século 20. Li e pesquisei sobre esse universo minha vida inteira. Me interessava a questão humana, algo épico e terrível”, comenta. “Sempre me preparei para adaptar Kaputt, mas isso fez parte da minha existência como cidadão, da minha formação enquanto pessoa”, diz Guazzelli.

Guazzelli lembra que o próprio autor teve uma trajetória politicamente intrigante. “Ele foi simpatizante do fascismo. Mas pagou uma conta pesada. Foi preso, torturado, tentou suicídio. Acho que se não fosse por Kaputt ele teria se matado. Acho que a perspectiva que ele trabalha no livro e sua vida pós-guerra anula qualquer passado dele. É uma das obras mais anti-fascistas que alguém já escreveu. Não deixa pedra sobre pedra. Ele destrói moralmente o algoz. O fascismo é o culto da força. E Malaparte aponta para a humilhação que há em bater no mais fraco; quem bate se desmoraliza. É um discurso contemporâneo fundamental, necessário”, destaca o ilustrador.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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