Lançamento: Queria ver você feliz, de Adriana Falcão

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Em seu novo livro, Queria ver você feliz, a escritora e roteirista carioca Adriana Falcão conta a história de seus pais, Caio Franco de Abreu e Maria Augusta Teresa Izabel de Souza, “uma história louca e bonita”. “Eles tiveram um amor meio maluco, meu pai se matou, minha mãe morreu de overdose”, diz a autora. Como estratégia para se distanciar de um enredo tão íntimo, Adriana criou um narrador peculiar: o amor, uma voz de personalidade forte que relata eventos e gestos de uma história familiar. O lançamento será hoje, na Livraria Cultura do Shopping RioMar, às 19h30, com presença da autora.

“Escolhi o amor como narrador porque não queria cair no clichê de contar a história deles como filha. Iria resvalar na pieguice. Com esse personagem evito dar minha opinião, julgar”, explica Adriana. “Ele é um personagem frio, arrogante. Tem uma personalidade forte. Quando a gente pensa no amor pensa em perfeição, generosidade, o amor cristão. Mas quando eu fui escrevendo aconteceu uma coisa que costumo achar boba mas nesse caso foi verdade: o personagem foi tomando forma sozinho. Claro, eu estava escrevendo, mas aos poucos ele virou um amor bem diferente do que a gente está acostumado a pensar. Isso me ‘afastou de mim’, pois quem narra não está envolvido na história como eu, enquanto filha, estaria”, detalha.

A publicação é composta por observações do narrador-amor a partir de cartas que os pais de Adriana trocaram em diferentes momentos. “Os eventos que aparecem no livro são verídicos. Mas o narrador tem licença poética”, diz Adriana. “Tudo começou quando eu abri um baú de cartas de meus pais. Eu sabia que ali estava a carta de suicídio de meu pai; as cartas que eles trocaram na época em que ela estava internada; na época em que pai foi convidado para trabalhar no Recife; no começo do namoro deles, nos anos 1950”, destaca.

A partir das cartas, a autora repassa ao leitor histórias de sua intimidade familiar. “Já conhecia essas histórias, cresci sabendo que meu pai era depressivo. Mas ele era uma pessoa maravilhosa, discreto, a depressão muitas vezes se confundia com a coisa de ser muito calado. Já minha mãe era muito intensa, nunca conheci uma pessoa como ela. Vários psiquiatras a trataram mas nenhum conseguiu dar um diagnóstico definitivo. Era uma mulher muito profunda, muito bonita, inteligente, em vários momentos engraçada, uma combinação que a levava a lugares complicados. A coisa mais normal do mundo era ela subir na janela e dizer que ia se matar. Numa dessas ameaças ela pegou uma garrafa de álcool, acendeu um isqueiro e a garrafa explodiu. Ela perdeu o dedo polegar da mão direita. Mas ao mesmo tempo era muito engraçada. Uma hora depois de cenas assim ela estava contando histórias sobre a Revolução Francesa para os netos. Então o livro tem também momentos leves”, comenta a autora.

Segundo a escritora, o processo de escrita ajudou a superar um momento difícil de sua vida. “Tinha acabado de me separar de um casamento longo, de mais de 30 anos, estava naquele momento em que você já tem filhos grandes e pensa, ‘Caramba, o que vou fazer da minha vida?’. Nessa crise, nesse reaprender, tinha que reinventar a Adriana dona de casa, que cuidava do marido e das filhas e de repente não tinha mais aquele cenário. Fui lá atrás na minha história e isso me ajudou”, revela. “Eu tenho três filhas, e esse monte de mulher herdou algumas características de meus pais. A gente ser orgulha do senso de humor da mamãe, da sede pela vida, pelo conhecimento”, ressalta.

SERVIÇO
Queria ver você feliz, de Adriana Falcão
Editora Intrínseca, 160 páginas, R$ 29,90
Quando: hoje, às 19h30
Onde: Livraria Cultura do Shopping RioMar (Avenida Republica do Libano, 251, Pina)

Saiba mais

TRAJETÓRIA – Adriana Falcão é reconhecida por seu trabalho como roteirista de TV e cinema e autora de obras para o público infanto-juvenil (os mais recentes são A gaiola e Mania de explicação, ambos de 2013). Queria ver você feliz é seu primeiro livro de não-ficção.

Escritora será homenageada na Fliporto

Adriana Falcão é uma das homenageadas da 10ª edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), que tem início amanhã, na parte infantil do evento, a Fliporto Galerinha. A autora carioca aproveita o lançamento do livro no Recife e também participa do evento, no congresso literário, no debate “Grandes e pequenos truques para contar boas histórias”, dividindo a mesa com os escritores Homero Fonseca e Rodrigo Garcia Lopes, com mediação do cronista e poeta Samarone Lima. O encontro será neste sábado, às 14h, no Colégio São Bento, próximo ao Sítio Histórico de Olinda.

“Acho que tenho milhões de truques, tanto práticos quanto particulares”, explica a autora, sobre o tema da mesa que participa. “Por exemplo, gosto muito de escrever ouvindo música, canções com letras. Em Queria ver você feliz, escrevi ouvindo Frank Sinatra. Meus pais dançavam ao som das músicas dele. Outra coisa que sempre funciona é ler Paulo Mendes Campos. Na minha mesa de trabalho tenho livros dele, é o autor que mais amo no mundo. Às vezes antes de escrever dou uma lida numa crônica dele e parece que meu coração se abre”, destaca a autora.

Os trabalhos de Adriana se conectam com o tema deste ano da Festa: a relação entre cinema e literatura; Adriana assinou roteiros de séries como A grande família (2001) e O auto da compadecida (1999), além de longas-metragens como Se eu fosse você 1 e 2 (2006 e 2009), A mulher invisível (2008) e Vendo ou alugo (2013) – trabalhou também no roteiro de A máquina (2005), baseado em seu livro. “Circulo bem entre as mídias, escrevo livro infantil, depois roteiro pra Globo, depois pro cinema, depois resolvo fazer um livro não-infantil”, comenta.

Para a autora, a relação entre cinema e literatura depende da natureza do livro. “O Raduan Nassar, por exemplo, tem uma literatura maravilhosa. O filme Lavoura arcaica é lindo mas é lento, particular. A literatura de Raduan é mais literária do que cinematográfica. Tem livros que você lê e parece que tem vocação para ser uma história contada de outra forma. Tenho visto fora do Brasil filmes como Garota exemplar e A culpa é das estrelas, bons livros que quando você lê percebe que tem vocação pra filme”, comenta.

 

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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