Lavagem – Shiko

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PRÓLOGO

Autor: Shiko (Francisco Souto Leite) nasceu em Patos, na Paraíba, em 1976. Trabalha como ilustrador e, como quadrinista, já publicou as graphic novels O Azul Indiferente do Céu, Talvez seja mentira, Lavagem e Piteco – Ingá. Em 2014, ganhou o Troféu HQMIX em duas categorias, Desenhista nacional e Publicação de Aventura/Terror/Ficção por Piteco – Ingá.

Livro: Publicada em abril de 2015, a edição de Lavagem é caprichada, com capa dura, papel pólen e formato 28 x 19,5 cm. A história é baseada no curta-metragem de mesmo nome, dirigido pelo próprio Shiko e lançado em 2011 pelo coletivo paraibano Filmes a Granel.

Tema e enredo: Lavagem conta a história de um casal que mora em um barraco miserável em algum mangue do litoral nordestino, cuja mulher é filha de uma prostituta e recém-convertida à fé evangélica; e o homem, um bronco cuidador de porcos. A vida dos dois se transforma com a chegada de um pastor.

Forma: O excelente traço de Shiko revela fúria, sexo e morte de maneira bastante explícita.

CRÍTICA

Sexo, religião e os limites físicos do corpo: essa é uma cartilha típica das narrativas de terror. É por isso que considero Lavagem, a nova graphic novel do quadrinista paraibano Shiko, um ótimo exemplar do gênero. Lendo e relendo a obra, se consolida o fato de que as mais assustadoras narrativas não podem deixar de ser ancoradas nos horrores do mundo cotidiano. Embora todos nós, que gostamos de ler e consumir narrativas de terror, adoremos o complexo bestiário que a moderna literatura fantástica vem nos apresentando desde pelo menos o século XVIII, de repente Shiko nos mostra o quanto uma mulher comum, furiosa e armada, pode ser uma personagem mais perturbadora do que dez condes Drácula.

Claro, no fim das contas, em Lavagem o monstro retorna para o lugar do seu nascimento: a tensão entre a vida diária e a necessidade de lidar com as paixões e impulsos. Dessa forma, as considerações de Todorov sobre o fantástico continuam ainda válidas, pois o monstro nunca deixa de ser uma maneira indireta (ou seria melhor dizer: “opaca”?) de abordar coisas sobre as quais não podemos, ou não devemos, falar à luz do dia. Logo, o vampiro, o monstro de Frankenstein, o zumbi, o fantasma, entre tantas outras criaturas das trevas, são nossa tentativa de viver uma experiência dos limites da vida, do corpo, da morte e, em especial, do desejo.

Baseado em um curta-metragem de mesmo nome, dirigido pelo próprio Shiko e lançado em 2011 pelo coletivo paraibano Filmes a Granel, Lavagem conta uma história violenta que absorve sua força das ambiguidades. Um casal mora em um barraco miserável em algum mangue do litoral nordestino. A mulher é filha de uma prostituta e recém-convertida à fé evangélica; o homem, um bronco cuidador de porcos. O marido desconfia da fidelidade de sua esposa; ela, por outro lado, está claramente sufocada com a vida de misérias que leva, além de reclamar o tempo todo da frieza do esposo.

O excelente traço de Shiko revela fúria, sexo e morte de maneira bastante explícita. Mas dentro mesmo de tanta crueza, nem sempre é possível saber o que de fato aconteceu. Esse é para mim o grande trunfo da graphic novel. Temos, por exemplo, logo no começo uma cena de sexo quase explícito entre a esposa e um barqueiro. Ela nos remete, aliás, às incursões prévias de Shiko no terreno da pornografia e da criação de pin-ups. O desfecho da relação sexual é violento: a esposa usa um facão e decepa a cabeça do amante, que logo se transforma em uma cabeça de porco, utilizada por ela como chapéu. Ao menos nessa parte final, descobrimos que a morte é um delírio do marido e não temos como saber, com certeza, se o resto da cena foi também fruto da sua imaginação. A resposta a essa pergunta, porém, é o menos interessante. Afinal de contas, o que nos interessa mais é o portfólio de imagens grotescas, perturbadoras, proporcionadas pela arte de Shiko.

Sob essas sombras ambíguas surge o terceiro personagem, aquele que de alguma maneira vai ajudar a desdobrar – tragicamente, no caso – o relacionamento do casal protagonista. Vindo do nada, trata-se supostamente de um pastor que, por causa da cheia, ficou ilhado naquela região do mangue e por isso pede abrigo ao casal. Sua chegada, como a de um fantasma, coincide com o fato de que a TV do barraco subitamente sai do ar. Se de início o pastor parece trazer uma mensagem de amor, logo o jogo muda e ele será o principal responsável pelo horror que constitui Lavagem. No entanto, mais uma vez ficamos em dúvida: será que o pastor existia de fato? Seria uma projeção da mente perturbada da esposa? Ou estaríamos no pleno terreno do sobrenatural e o pastor seria um demônio, ou um anjo da morte? Outra vez, o charme é não desvelar. Por quê? Devido ao fato de que a personagem do pastor é aqui a própria contradição encarnada da ideia de uma palavra cristã revelada, pois esta contém em si tanto a redenção, quanto a espada. Se é preciso “nascer de novo”, como pregam católicos e protestantes, é preciso morrer primeiro. E, afinal de contas, a própria imagem da salvação, um deus tornado gente, sangrando na cruz, é um sacrifício por excelência. Desta maneira, por estar tão calcada no imaginário bíblico e protestante em especial, Lavagem é uma história de sacrifício, na qual são acentuados os horrores do ato. Há, sim, uma redenção ao final, porém ela é tortuosa, conseguida não através da fé, mas da pura violência.

De que maneira Shiko constrói visualmente esta narrativa? Com um talento que o coloca de fato entre os quadrinistas brasileiros que tenho admirado. Temos já uma contribuição boa a dar à história dos quadrinhos, seja com nossos desenhistas sendo exportados, desde os anos 90, para a indústria americana, seja com nossos excelentes chargistas e autores de tirinhas, por exemplo. Putaria e terror, aliás, não estão fora do nosso cardápio: autores como Carlos Zéfiro ou Flavio Colin que o digam. No caso de Lavagem, Shiko usa e abusa de quadros horizontais, sabendo dosar na hora certa closes nas suas personagens com imagens de maior impacto, feitas de modo a ocupar uma página ou a quase totalidade desta. A opção pelo uso do preto e branco não poderia ser mais acertada, ajudando a criar o clima noir do quadrinho. Além disso, em determinados quadros Shiko utiliza uma profusão de hachuras, o que acentua tanto a materialidade dos corpos e objetos, quanto a tensão da narrativa. A ambiguidade do fantástico se impregna por todos os lugares. Dessa maneira, o rio quase negro assume ares míticos; a sujeira no mangue, como é o caso da reiterada representação de uma cabeça de boneca na lama, nos remete tanto a quem a protagonista foi, quanto à incorporação, por parte do espaço, de uma descida ao Hades.

Gostaria de pontuar, para encerrar, uma ressalva: embora goste da personagem do pastor, é de fato um tanto clichê o contraponto entre as pregações dessa personagem (e as de um segundo pastor, que aparece pregando na TV) e a violência mostrada em primeiro ou segundo plano. Além disso, muitos leitores podem achar o desfecho um tanto previsível. Apesar disso, Lavagem conquista pela intensidade de suas imagens, bem como pela fluidez da sua narrativa. Nisso, Shiko se revela um mestre.

Lido em julho de 2015
Escrito em 09.07.2015

FICHA TÉCNICA

Lavagem
Shiko
Mino
1ª edição, 2015
72 páginas

TRECHO

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OUTRAS OPINIÕES

Audaci Junior, Universo HQ, em 24 de abril de 2015

(http://www.universohq.com/reviews/lavagem/)

“Mesmo se utilizando de uma cadência cinematográfica, o autor não se vale do álbum como uma espécie de mero storyboard da produção audiovisual. A obra tem sua “voz”, expandindo e se adequando por meio de seus dinâmicos recursos gráficos. Nota-se que Shiko usa em muitas sequências a diagramação horizontal, como o widescreencinematográfico, sempre respeitando e balanceando os elementos “em cena”.”

Paulo Floro, Revista O Grito!, em 5 de junho 2015

(http://revistaogrito.ne10.uol.com.br/page/blog/2015/06/05/critica-hq-lavagem-de-shiko/)

“Em Lavagem, Shiko trata com bastante dureza a realidade dos mangues, dando bastante destaque ao embrutecimento das pessoas face às adversidades do ambiente. Seu traço surge aqui com toques ainda mais naturalistas, evidenciando a feiúra dos cenários e as expressões de angústia dos personagens. A narrativa chega ao leitor cheia de tensão, o que culmina em um final surpreendente.”

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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