Liberdade

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Há muita coisa que se pode dizer de Liberdade, romance de Jonathan Franzen. Eu poderia me dirigir aos leitores pragmáticos, por exemplo, aqueles do tipo que não perde seu tempo com uma leitura que não seja útil. O tipo de leitor a quem Oscar Wilde reservaria seu desdém, o tipo de leitor interessado no quanto de conhecimento imediato um livro pode oferecer, desinteressado do prazer ou enlevo que a arte proporciona, e que passa todo o seu tempo mergulhado em ignorância depois de formular um conceito que há de lhe valer para o resto da vida, a saber: a de que romance é coisa para moças apaixonadas.

Lendo a biografia do jovem Marx descobrimos um leitor apaixonado por Balzac, e foi no autor da Comédia Humana que Marx se deu conta dos mecanismos da sociedade francesa daquele tempo. A literatura do século XIX estava preocupada em apreender a realidade, desmistificar preconceitos e corrigir injustiças. Alguns escritores fizeram disso seu objetivo enquanto faziam arte: Balzac, Tolstoi, Stendhal, são alguns entre outros que aliaram o estudo da realidade de seu tempo com o máximo de rigor artístico, e por causa disso escreveram grandes livros.

Personagens que são verdadeiras invenções do humano; tramas envolvendo questões comezinhas e a reinvenção do herói que definitivamente troca Aquiles pelo mais reles dos mortais além de um final que aponta para a comédia que representamos num mundo caótico e doente por causa das nossas escolhas ao longo de um tempo curto demais para percebermos o quanto de frágeis e confusos somos e o quanto nossa vida, não obstante toda complexidade, é carente de sentido. Esses critérios – vamos chamar de critérios – ainda funcionam na hora de escrever um grande romance e é isso o que Franzen, herdeiro dessa tradição dos grandes romancistas, lança mão para compor o seu belíssimo Liberdade.

Eu falava dos leitores pragmáticos, acho que até mesmo eles vão gostar do romance e talvez até mudem seu conceito. Liberdade nos dá conta de muitas questões, algumas das quais só encontraríamos em ensaios jornalísticos comprometidos com a verdade. Assim como os romances de Balzac deram ao jovem Marx uma ideia muito precisa da sociedade francesa de seu tempo e por esse tanto do mundo, Franzen nos faz divisar uma América do Norte afundada na própria merda. Uma América a quem a recessão é só mais um dos problemas. Uma América no impasse de liberais e conservadores; liberais demais a ponto de temerem qualquer semelhança com ditadores chineses e sua política assustadora de controle da natalidade, indiferentes às questões relativas ao aumento da população e perigo para o futuro sustentável do planeta e conservadores demais incapazes de perceber o quanto a religião lhes embota a vista e lhes impõe uma visão tacanha do mundo.

Bush e seus asseclas das empresas corruptas de venda de armas e exploração do petróleo, a imoralidade subjacente de tal comercio, o engodo para legitimar uma guerra (do Iraque) que num certo sentido se baseou no dualismo de que tanto gostam os fundamentalistas cristãos da América que em tudo enxergam a guerra entre o bem e o mal, incapazes de perceber que não é clara a divisão dos papeis. Essas e outras questões tão bem desenvolvidas no livro por certo interessarão aos leitores sisudos, os leitores de jornal, os leitores interessados das questões fundamentais de seu tempo.

Mas o livro, devo advertir, não é importante porque trate dessas questões, porque nos garanta uma visão da realidade. Nada disso. Ele é importante – pelo menos pra mim – porque ali nos encontramos em Walter, Patty ou Katz e no quanto suas vidas são numa certa medida a nossa vida, a vida do leitor de quem já se disse que é narcisista e gosta mais do livro em que se vê representado. Porque no fundo é essa a função da grande arte, uma função que não precisa ser anunciada, mas que funciona. Um romance não é bom porque seja capaz de compor um painel da sociedade ou causar entretenimento, mas funciona na medida em que também nos reinventa como humanos e terminamos sua leitura nos sentindo outra pessoa, sentindo mesmo uma sensação de que a leitura daquelas 600 páginas de algum modo contribuíram para que nos sentíssemos melhores seres humanos.

É claro que não nos tornamos melhores, mas a ilusão é que conta.

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[author_info]Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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